[1] por Soraia Simões de Andrade
Nenhuma exterioridade é sagrada...


  Le temps, c'est de l'éternité pliée (Cocteau)

    Fica tudo dentro de nós, começa e acaba connosco, não interessa como, ou quanto tempo, se caminha por um empedrado, melhor é crescer como árvore frondosa, elevando-se como elevada é a coragem – das mais sérias faculdades humanas, como é a memória, a ausência de pudor, o não nos levarmos a sério, que é a coisa mais séria, versava João Pedro Grabato Dias.

    A coragem não tem ou releva interesse pela imprudência, mas atiça déspotas, e o carácter inconsequente dos seus actos, aquilo a que Ernst Jünger chamou 'temeridade'. Ter coragem é, desde logo, fazer questão de pintar com a tinta mais robusta linhas divisórias, tornadas visíveis e distantes, daqueles que amam o estardalhaço como forma de vida social ou cultural por não terem nada mais para nos oferecer além de si, às pázadas.

    Ora, nenhuma das artes deveria servir para resolver psicoses, vinganças, problemas pessoais, compensações. As artes fazem-se com talento. Num chão que oscila nenhuma pessoa corajosa ambiciona, como poderão através deste pedaço intuir, ficar com as meias sem pé.

Walter Benjamin disse-nos ser a memória a mais épica das nossas faculdades; por precisar, tal como a inteligência, de ser alimentada, e por, talvez mais importante, só existir por existir asnice; como o bem não existe se não existir o mal, o magro se não existir o gordo, e assim por diante.

E porque é que convoco a ausência de pudor como faculdade valiosa dos humanos, além das outras duas? Porque é que são as três tão essenciais?

Por vários motivos, darei conta de dois.

Em primeiro, porque, como afirmava Marguerite Duras, num livro fundamental durante a minha adolescência – L'Amant –, a memória dos homens nunca ocorre nesta iluminação iluminadora que acompanha a das mulheres; em segundo, porque todas as paixões e afeições já foram sobejamente interpretadas, diria Debord, há, portanto, de encontrar outras.

    Sabemos como a pudicícia é ainda maior sobre as mulheres e incide com mais vigor sobre classes ou sujeitos arredados de uma capitulação com tiques soberanos. Há uma característica que Benjamin Franklin atribuía aos franceses, a de não urinarem sozinhos; esta contempla a maioria dos homens no ocidente, independentemente da sua nacionalidade; será tão mais ruidosa aos olhos quanto estes tencionarem a sua inscrição na ordem reguladora – envergonhada, covarde –, das hierarquias, quanto mais quiserem ser poder; enquanto isso dissimulam, em público, os laços inúmeros que os fazem permanecer ou ascender na hierarquia.

É, aliás, como Jünger também nos dizia, o 'tirano ardiloso' quem se contenta com a reverência; os servos estão habituados a ver as vítimas 'beijar a sua poeira'. Esta elasticidade de combinação entre o dever, a ambição pelo poder convencional, a conveniência, tem lugar de modo quase invisível: guardam-se silêncios, honras e ganhos simbólicos onde tudo principia: usando as figuras retóricas, mesmo que gastas, mais próximas da ‘esquerda-melhor-pensante’, ainda que os seus arremessos predilectos sejam semelhantes aos da direita mais conservadora e, por vezes, radical.

    E nós podemos pensar que se fecharmos esta página, se fingirmos que não a lemos, um dia levamos-lhe o gatilho.

O arremesso predilecto das convenções de direita é a paixão da violência, até aquela que tem vindo a absorver um argumentário próximo da esquerda entendeu como podia medrar melhor por esquecimento das raízes. Mesmo a violência interpessoal tem o poder de destruir primeiro a mulher para a seguir destruir a sociedade. A figura do nobre faliu nas artes, e ainda ninguém deu por isso, nem os próprios. Camaradas, queremos servir de escada para o ego e a evangelização?

    Voltando à pudicícia – terão percebido já que a considero excludente: já viram alguma mulher urinar em público, chamar as amigas, gabar-se disso olhando para os genitais?

O pudor, como afirmou Bologue a propósito da nudez física, é um sentimento complexo; se o repensarmos, aplica-se às mais diversas formas de vergonha e cada época privilegia um ou outro aspecto do pudor. O pudor da origem – mais que social, cultural –, das conformidades electivas dissonantes das bem-melhor-aceites, da orientação sexual, do género, são já modos das pretensas hegemonias se apresentarem, embora os mundos instragamável,  facebookizável e dos média  cujo modelo de negócio permanece centrado na polémica –  desconheçam todos os fios que prendem as vidas, sendo, por isso, matéria descartada em redes vazias, não em comunidades.

O medo do confronto inesperado com aquelas pessoas a quem não demos a devida atenção, ou, o receio maior, que alguém acabe com o circo da objectividade pura reergue-se devagarinho, sempre em nome de uma moralidade pouco opaca. As nossas mãos até podem segurar a cabeça, mas a cabeça prendê-las.

    A História já nos mostrou que toda a nossa política nasceu com o assassinato da coluna vertebral; nasceu para regulamentar a ordem e evitar o surgimento de outras tiranias. Mas, se nem as pregas de desagrado nos dedos mais experientes são capazes já de nos fazer sorrir, há que lembrar que as costas de uma mulher não são para curvar. Afinal, que olhar ficará de fora, quando os vidros se partirem e deixarmos de ter janelas?

 

    Vive-se nas pontas de um espectáculo onde só se vêem corpos reformados antes do tempo, e, excluindo a quem apraz morder as folhas da lírica especulativa nutrindo-se de um reino estrangeiro familiar, onde só as mais cientes, na berma da representação teatral cómica, abandonarão a tempo essa morada.

Só se estivermos atentas viraremos a página, as vozes há muito que se tornaram transparentes, nem interessa se no zero do som se num ritmo catatónico, só importa que estão para lá da grelha das palavras. Interessa que compreendemos as nossas parceiras, os nossos camaradas, noutros sentidos. De Deleuze a Debord, de Orwell a J. Levinson, de J. Kristeva a Paul B. Preciado, todos, à sua maneira, falaram das paisagens, entendo-as enquanto moradas temporárias,  pistas abandonadas, e não por causa dos incêndios ou das inundações.

    Se há uma verdade, a de que vivemos num salvádego artístico face à INcultura é a mais clarividente. A concordância entre discurso-acontecimentos-objectos concretos, é inacabada, discutível, ultrapassável, não cumpre inteiramente a libertação de uma ideia eurocéptica cuja principal preocupação é colocar entraves, problemas circulares, continuísmos; e não descontinuidades, rupturas, atirar no terreno outras sementes.

Revolucionário hoje seria uma sociedade secreta de autoras anónimas que conseguisse rebentar o comércio do nada; ou a rebeldia de ser contra o trabalho que nos limpar os bolsos e o espírito, contra a propriedade, contra a industrialização e a capitalização simbólica.

    Quando a utopia é resgatada pelo poder sem chão memorial, quando ela é domesticada e se lhe bota um laçarote, mesmo que este seja ainda um poder flácido, e talvez nunca deixe de o ser embora aspire outros supedâneos, paga uma factura pesadíssima. As pessoas entram numa capela oclusiva, deixam de ter iniciativas por si, o poder passa a organizar-lhes tudo; mal a pessoa burile uma ideiazinha mais utópica, qualquer coisa que liberte, tem-no à perna, a fazer a folha, a silenciar e a passar à frente, a organizar tudo de modo mui relutante de forma a levar o seu séquito de fiéis indistinguíveis, em síntese o rebanho, a crer num manifesto urdido e amanhado pela rama; que, na realidade, para as mais observadoras se desfaz num sopro porque era já débil antes de se manifestar.

    Abrir bem os olhos como quem abre a cabeça ao mundo desconhecido tornou-se imperativo, mais do que sub-interpretações do desconhecido.

A finalidade do poder flácido nunca foi nem será derrotar estruturas, mas sim habitá-las, não necessariamente para reconstruir uma mais justa, antes para reiterar a confiança na que existe evidenciando-se. Nestas condições, o futuro será um simulacro, a emancipação uma figura de retórica balofa; a sua condição natural, assim como daquela que a ofender, será flutuar de costas a apreciar a paisagem enquanto as restantes pessoas morrem, ou já nem flutuam, escondem a cabeça dentro de água para esconder o que pensam.

Não foi também Debord quem nos disse que uma das principais contradições da burguesia na sua fase de liquidação era respeitar as criações artísticas opondo-se logo a seguir às mesmas para depois delas usufruir?

Não é sempre para o poder flácido a preocupação com a quotidianidade, os costumes, o comezinho onde mergulharam, que conta e não a melhor realização dos humanos? Dividir vedando o que é interdependente não é absolutizar? Para se considerar excelso, não se deveria fugir à profanação da publicação e exibição públicas?

    Nenhuma exterioridade é sagrada e já nem podemos afirmar que o nosso passaporte caducou, apenas que o melhor sítio de Lisboa poderá, cada vez mais, ser o aeroporto...

[1] escritora, investigadora

fragmentos de um ensaio (no prelo)

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