[1] por Luís Carlos S. Branco

Tornou-se lendária a solidariedade de José Afonso. Quando viveu em Setúbal, ele, que vivia com pouco, estava sempre disposto a ajudar quem o procurava. A sua casa, dizem, estava sempre com as portas abertas, não trancadas. Às vezes, aparecia lá alguém para levar um livro ou para comer uma fatia de pão e matar a sede. Ainda no tempo da ditadura, era abordado amiúde para dar uns concertos, em pequenas associações, que não primavam pelas condições ideais para um espetáculo de música. Ele nunca recusava. Por vezes, nesses pequenos recitais, havia pides a pairar, a meter o olho (geralmente um par, como o Dupont e Dupond do Tintin). O público dessa zona, Montijo e arredores, sob o olhar atento dos vigias, pedia-lhe, em coro, para ele cantar as cantigas proibidas, ao que ele acedia sem grandes pruridos. Estas e outras estórias já fazem parte daquilo que, em certa medida, ele se tornou: um mito. E é difícil averiguar a sua veracidade, quando são passadas, assim, de boca em boca. Seja como for, elas refletem aquilo sobre o qual não há dúvidas. A postura humanista, atenta, solidária pela qual ele sempre pugnou. Era um homem bondoso, desapegado de bens materiais. 

O psiquiatra Manuel Louzã Henriques, seu colega de Coimbra e outras andanças, contou-me outros aspetos interessantes acerca do percurso algo sinuoso do cantautor. Falou-me do seu imenso jeito para o futebol (“Era um jogador danado; podia ter sido um profissional”), da sua falta de habilidade com as mãos (“Típico de um certo género de pessoas criativas; cabeça um bocado na lua e inabilidade para as coisas práticas da vida”). E era “um escritor de primeira água, talentosíssimo, podia perfeitamente ter seguido por aí e teria deixado certamente uma obra fantástica, tal como fez na música”. Em relação à questão coimbrã, o ínclito médico dizia: “Aí já não é tanto como dizem… ele não foi o único a aborrecer-se com a tradição do fado de Coimbra; havia antecedentes de monta: o Edmundo Bettencourt, por exemplo, e gente a abrir caminhos paralelos, como o Adriano… era uma coisa um bocado geracional. O Zeca foi, isso sim, a parte mais visível desse movimento de renovação da canção coimbrã. Quando saiu a “A balada de Outono”, aquilo foi um estrondo, mas havia uma série de pequenas explosões para trás e ao lado”.

José Afonso deixou um lastro e uma obra imensa, de uma grande riqueza lírica e estética. No seu espantoso cancioneiro, encontramos também condensada uma certa ideia de Portugal. Um Portugal livre, afastado dos quatrocentos anos de censura. Sim, a censura entrou no nosso país com a Inquisição, em 1536, mas depois continuou com a real mesa censória, e também no tempo da 1.ª República, e teve, claro, o seu triste zénite no estado novo. E seria bom não cairmos na tentação de pensar que, no regime democrático, ela desapareceu por completo, pois isso é falso. Relembremos a proibição dos programas de Herman José, na televisão do estado, ou das canções dos Xutos, interditas em várias rádios (uma delas, relativamente recente, em que se falava de um certo “engenheiro” que levava o país para muito maus lençóis) ou o despedimento do insigne radialista António Sérgio, depois de ter ganho um importante prémio, o que também constitui uma forma de censura. 

Tantas eras longe do livre pensamento, e a expulsar muitos dos melhores de nós para o exílio ou para a fogueira, deixa marcas identitárias e culturais indeléveis que ainda hoje se fazem sentir. Somos um país pouco habituado a pensar sobre si próprio e sobre os seus fantasmas. Temos preferido mandar as coisas para debaixo do tapete, o que é mau, pois elas não desaparecem. O colonialismo e o racismo estão aí, em carne viva, para no-lo lembrarem. 

Houve sempre, no entanto, uma forma quiçá mais perniciosa de censura, mais velada, insidiosa: o silenciamento. Muitas figuras, a quem devemos muito, sofreram-no na pele. Uma delas foi o Capitão Salgueiro Maia. Enquanto outros camaradas de armas progrediram na carreira, ele não. Tiraram-lhe a voz e qualquer espécie de protagonismo. Outra, numa grande parte do Pós 25 de Abril, foi José Afonso. Durante muito tempo, não interessava ouvir o que ele tinha para dizer, pois certamente não abonaria em favor dos vários poderes da época.

No final de 2021, finalmente, lançou-se a sua obra musical nas plataformas digitais e, em simultâneo, houve também a reedição, esmerada e cuidada, de alguns dos seus títulos emblemáticos (Cantares do Andarilho, de 1968; Contos Velhos Rumos Novos, de 1969; e Traz Outro Amigo Também, de 1970), em suporte físico (CD e vinil). Por sua vez, o ministério da cultura iniciou o processo de classificação da sua obra fonográfica.

Em 2 de agosto de 2021, a propósito dos 92 anos do seu nascimento, foi exibido na RTP1 (e em prime time, o que é de salientar) um novo documentário sobre ele, da autoria de Nuno Galopim e Miguel Pimenta, intitulado José Afonso: Traz Outro Amigo Também. O seu ponto de partida é louvável e constitui uma mais valia em relação a outros trabalhos sobre o cantor. Quis-se dar voz ao próprio José Afonso e devolver-lhe algo muito importante: o poder da palavra. E, por isso, é um extraordinário trabalho. Houve certamente um duro escavar nos arquivos da RTP e da rádio, recolhendo as entrevistas e os depoimentos, que o cantor foi concedendo ao longo do tempo. Isso permite-nos seguir a sua evolução e perscrutar a sua mundivisão. Muito atento, antecipou muito daquilo que hoje constitui, por exemplo, o pensamento pós-colonial e a questão da igualdade de género (“Mulher na democracia não é biombo de sala”). Nessas e noutras questões similares, estava nitidamente à frente do seu tempo. Este trabalho documental demonstra bem isso.

O contacto próximo e duro com o autoritarismo – recorde-se o seu tio, que era um ferranho adepto do antigo regime, e o seu pai, juiz – e o ter vivido em muitos sítios díspares do mapa português de então, desde Angola e Moçambique até as montanhas nortenhas e ao calor mediterrânico algarvio, despertaram nele um profundo sentido da dignidade e igualdade de todos os homens e mulheres e uma recusa liminar por qualquer pusilânime forma imposta de poder. 

Salazar, em relação a ele, foi aquilo que sempre também foi noutras questões: um chico esperto. Prendeu-o por pouco tempo (cerca de um mês), mas não lhe perdoou a ousadia de cantar a liberdade. Deu-lhe cabo da carreira de Professor, queimando-o em todos os concursos aos quais ele concorreu. No início, permitiu-lhe apenas, a ele que era da área de Letras, dar aulas de Ciências da Natureza. Passado muito pouco tempo, nem isso lhe foi permitido; foi completamente impedido de dar aulas em Portugal. Então, o cantor viu-se a braços com uma situação económica muito precária. Teve de dar explicações para poder sobreviver. Não interessava às eminências pardas da ditadura um Professor que incentivasse o sentido crítico dos seus alunos. Entretanto, algumas figuras do regime democrático, porventura, não fizeram muito melhor figura em relação a ele. No documentário já referido, para além do gosto de ouvir José Afonso nas suas próprias palavras, ressalta à vista um doloroso hiato, pois há uma série de anos, da década de 80, dos quais parece não ter havido qualquer registo mediático. O documentário dá, assim, um inusitado salto temporal. A última corajosa entrevista dada por ele, onde, para caraterizar os políticos de então, remeteu para a sua canção “Os Eunucos”, ficou na gaveta durante anos. 

Também há pouco tempo, saiu uma outra muito interessante obra, que contempla a carreira toda de José Afonso. Chama-se: As Cantigas do Zeca: Uma Vontade de Música, e é da autoria de Octávio Fonseca. É um trabalho de fundo, que se dedica a analisar a obra do cantor, disco a disco, num tom chão, coloquial, mas com conteúdos ricos e massa cinzenta. Além disso, no final, temos ao dispor uma útil recolha bibliográfica, com várias adendas pertinentes ao texto principal. O arranjo gráfico, com papel de qualidade, e as excelentes ilustrações, da autoria de Pedro Sousa Pereira, complementam-no muito bem. 

Apesar de ser, como digo, um digníssimo trabalho pioneiro, de inquestionável valor, bem escrito e bem pensado, tem uma caraterística que é comum à grande maioria dos indefetíveis admiradores de José Afonso e que deve ser assinalada. Por vezes, falta-lhe um pouco mais de sentido crítico. Nem todos os discos dele, nem todas as canções são geniais. Há que fazer distinções, categorizar, assinalar os pontos fortes e os pontos menos conseguidos.

Em relação ao trabalho de José Afonso há dois lados da barricada. Uns vêem-no como um “comuna” (embora advogasse princípios políticos próximos do marxismo, nunca fez parte do PCP; como ele próprio dizia “eu sou o meu próprio comité central”). Para esses, tudo o que ele fez é horrível, inenarrável, meramente propagandístico. Os outros pecam pelo defeito oposto. Para eles, tudo nele é imaculado, sem passos em falso nem percalços. Ora, creio que, a ele que sempre teve um sentido crítico agudo, preferiria, certamente, outro tipo de abordagem à sua obra.

Chico Buarque, num documentário, agora, disponível na Netflix, recorda a preocupação que teve quando, em plena ditadura brasileira, fez canções de protesto. Por um lado, foi um imperativo de consciência fazê-lo. Por outro, tinha a perfeita noção de que a maioria dessas canções não sobreviveriam ao teste do tempo. Ele afirma que, após a queda da ditadura, elas “ficaram sem chão”. Por sua vez, Bob Dylan, ainda em plena década de 60, afastou-se da canção de protesto, aparecendo com uma guitarra elétrica nas mãos, renegando o passado recente. Nas entrevistas, dizia que não era um cantor de protesto, que tinha havido um engano. E é preciso refletir neste género de questões.

José Afonso, apesar do seu perfecionismo e do rigor que colocava no seu trabalho, não se precaveu como eles. E, se calhar, colocou, muitas vezes, as questões políticas à frente da sua própria obra e carreira musical. Porventura, tê-lo-á feito por solidária generosidade e humanismo, mas, seja como for, isso foi um erro. Como resultado, temos, por um lado, um notabilíssimo acervo de canções que, devido ao uso de metáforas e alegorias de teor fantástico-surrealista, usadas para ludibriar os censores, se libertaram do peso do tempo, não ficando demasiado presas às circunstâncias históricas em que foram criadas. Entre elas: “O avô cavernoso”, “Os Vampiros”, claro, “Era um redondo vocábulo” e até mesmo “A morte saiu à rua”, ou a gritantemente atual “Os meninos nazis”. Por outro lado, outras perderam uma grande parte da sua pertinência pela sua excessiva colagem ao seu tempo histórico e ideológico. É uma pena que canções com a qualidade superlativa de “Cantar Alentejano” ou “Alípio de Freitas” tenham, de certo modo, ficado reféns do contexto particular em que foram criadas.

O facto de o cantor ter sido sempre tão avesso à música anglo-saxónica também merece comentário.  Referia-se a ela como “música imperialista”, o que me parece uma posição um pouco retrógrada. Sobretudo, se a ligarmos com o tempo, no imediato Pós 25 de Abril, em que as forças políticas, então vigentes, não queriam guitarras elétricas em Portugal por causa do seu “imperialismo”. Quem as importasse, pagava impostos do outro mundo por serem consideradas artigos de luxo (e foi neste panorama adverso que vingaram muitos dos artistas do Boom do Rock Português).

Já agora, diga-se que os princípios de dramatização e encenação musical, preconizados por José Mário Branco, se devem também, em menor ou maior grau, à influência dos Beatles de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Esse disco, em que princípios estéticos similares aos que Zé Mário apregoava foram postos em prática, foi editado em 1967; portanto, quatro anos antes de Cantigas do Maio, dado a lume em 1971. Além disso, outros cantautores, como Sérgio Godinho ou Jorge Palma, sempre assumiram influências musicais advindas do estrangeiro e a sua obra não é menos portuguesa por causa disso. A obra de José Afonso, sobretudo na sua reta final, sempre com algumas grandes canções, mas um bocadinho repetitiva, com os discos a repisarem os mesmos terrenos estéticos, teria ganho se tivesse dialogado artisticamente com os ares frescos que sopravam. A dado momento, ainda se ouvem ecos do jazz, mas de modo esparso.

Tudo isto, evidentemente, não obsta a que a obra do Zeca, no seu conjunto, seja intemporal. E que o seu legado permaneça vivo. Como dei conta, continuam-se a fazer trabalhos de investigação e estudo interessantes e sérios sobre ele. Músicos das novas gerações têm-no como referência (ouça-se, por exemplo, “Prescrever”, de Agir). E, independentemente das opiniões políticas veiculadas nos seus trabalhos – todas antes da Queda do Muro, a que o cantor não teve oportunidade de assistir –, para lá de um talento melódico raro e de uma marca visionária fusionista, há nos seus álbuns uma ideia de Portugal, muito atual. É um Portugal livre, solidário, preocupado com o bem-estar de todos, aquele que habitamos na sua obra.  É um sítio onde as pessoas honestas e corajosas estão em maioria. Já que não podemos morar lá, que, pelo menos, façamos visitas regulares. Para saber quem somos, para onde vamos, e, sobretudo, para onde não queremos ir. Não é um sítio utópico. Para muitos de nós, é um país real a que chegaremos, mais cedo ou mais tarde.

[1] lcrsb@campus.ua.pt

o autor segue o AO de 1990

Investigador e docente no Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, escritor e dramaturgo. Tem em curso a tese de doutoramento Filmar a Mente: David Lynch à Luz dos Estudos da Consciência de António Damásio e Amit Goswami. No mestrado, em Estudos Portugueses, escreveu a dissertação António Antes de Variações: O Percurso Inicial do Cantor.



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