Outra Míngua (Abril 2025, colecção ثريا)
Outra Míngua (Abril 2025, colecção ثريا)
texto de Soraia Simões de Andrade
desenho de Elagabal Aurelius Keiser
colecção ثريا
AH! Abril 2025
Esgotado neste website d’ associação Mural Sonoro
Livrarias onde pode ser encontrado/pedido:
Em Lisboa
Livraria Tigre de Papel
Livraria Travessa
Livraria Letra Livre
Livraria Snob
Livraria Ler Devagar
Casa do Comum
Porto
Livraria Trama
Évora
Livraria Fonte de Letras
Almada
Livraria Escriba
Viseu
Livraria Libros & Libros
Coimbra
Livraria d' A Escola da Noite/Teatro da Cerca de São Bernardo
«Aquele retrato não era mais a imagem fotográfica das matriarcas. Era um orifício de luz no forno comunitário sem a comunidade, não havia grãos de fina moagem nos seus tabuleiros e bilhas. Um mercado de transístores onde todas falavam energicamente mas nenhuma escutava. Os ruídos e perigos cruzados de uma pequena sociedade atomizada sem partículas sólidas; uma cabeça sem ouvidos, uns pés sem terreno. Era a película nevrálgica da impostura, alarme viperino da pudicícia, céu do inferno, sentinela do desejo; bloco de pedra com que fizeram a figura impiedosa que treinava patos à míngua nos lagos e se satisfazia ao vê-los trinar com fastio. Era a força de mãos excêntricas que corriam atrás de pombos e mochos para apanhar esmolas no alcatrão. Mas, era também a filosofia de alguém abandonado num baldio. A moldura da família trabalhadora, migrante e neurótica, cadinho de iras e doçuras. Um tripé de câmera no quadripé, um saltério e um motociclo herdados com testamento. Área fílmica da contextura social, do denodo e dos laços a cultivar. Uma estação de folhas devoradas por lepismas prateados. A terra perseguida pelo extremismo da História. Um pulmão onde recriaram marcas suspeitas dos abusos na origem. Assim era ele, uma imagem eidética que quanto mais crescia menos envelhecia.» (p.74)


