Metrónomo em tempo indefinido, por Soraia Simões

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Metrónomo em tempo indefinido, por Soraia Simões





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[Fotografia de, e cedida por, Daniel Gouveia no âmbito desta investigação. Tirada em Mangando, concelho de Marimba, distrito de Angola, ano 1969].



Desde que me lembro de ser gente que a música sempre esteve presente em minha casa, na minha vida.

Devo isso ao meu pai, que era um amante de música, da clássica (foi com ele que, antes de ter idade para falar correctamente sequer, ouvi/''percebi'' o que era Chopin, Tchaikovsky, Brahms, Schubert ou Puccini) à popular (nas mais diversas tipologias, mas especialmente rock progressivo e jazz). Daí, talvez, que passar pelo Conservatório na fase infanto-juvenil do mesmo modo que, na minha adolescência, acompanhei as trajectórias de grupos de 'rock alternativo' (designado movimento punk em Coimbra, anos noventa do século XX), ou que dediquei a minha vida académica ao estudo das música e cultura populares nas suas diversas narrativas é-me perfeitamente igual. Só não o é no seguinte: no maior, menor ou nenhum interesse em ter e/ou ouvir quando chego a casa repertórios sonoros (alguns são só isso mesmo) e musicais onde se denota uma gigante falta de cultura musical de quem faz música ou uma assustadora falta de cultura poética de quem faz letras. E isto não se aprende, embora tenha feito formação na área da etnomusicologia também, nem discute: sabe-se, sente-se tanto mais quanto mais robusto for o nosso manual de vida.

A música é de facto uma lógica matemática que quem sobre ela escreve em jornais, na sua generalidade, não domina (as vezes que já apanhei ''jornalistas de música'' se referirem «à melodia» quando se queriam referir a harmonia, «acorde» quando se trata de uma escala específica e por aí adiante), mas é impossível falar de música sem ter em conta os sons disponíveis para cada músico ou compositor/a, o contexto em que são produzidos, a cultura, a economia, a sociedade em que se inserem, o tempo histórico.

Um dia numa entrevista para o Mural Sonoro um músico e compositor que admiro dizia-me que há um longo trabalhinho de casa que, citando-o, o «pós modernismo», especialmente «nos anos oitenta e noventa» do século XX, «tinha deixado por fazer» e que a pulsação rítmica se tinha alterado radicalmente em função disso: não era o quatro por quatro, nem o três por quatro, nem o seis por oito, havia um por quatro (referindo-se ao disco sound e a outras tipologias na cultura popular urbana que a partir daí surgiram). Percebo a lógica, na altura concordei com ele, mas hoje, volvidos uns oito anos da realização dessa entrevista, considero que não poderia estar mais em desacordo.

A quem trabalha no universo da música e cultura popular caberá, com certeza, mostrar que todas as práticas musicais têm os seus contextos e conjunturas. O problema é que quem estudou se espartilha, normalmente, num conjunto de convenções intocáveis. O dia mais feliz para mim foi quando me libertei de tudo isso e, pelo caminho, já quase a desistir descobri a história contemporânea e um conjunto de pessoas interessantes que tinha traçado percursos parecidos com o meu e para quem as distinções entre «alta» e «baixa cultura» não só eram profundamente datadas como desprovidas de um sentido lógico.

Ora, tem sido nos locais mais improváveis, algumas vezes vulneráveis (socialmente e economicamente) que eu tenho encontrado as pessoas (culturalmente) mais surpreendentes. E a música só tem importância, como me disse outro entrevistado, «a partir do momento em que há um ouvido humano para escutar aquelas canções». E isso, hoje, é tão mais importante do que a «desumanização da arte dos sons»...

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Toward a history of RAP in Portugal: Defining paradoxes, paths and resistance of the first Women, Soraia Simões

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Toward a history of RAP in Portugal: Defining paradoxes, paths and resistance of the first Women, Soraia Simões

[1] by Soraia Simões


Enough abuse, we have rights / It’s time to treat the Women right                                      

«Revolution Now»  from record Make Space (Abram Espaço), Djamal, BMG 1997




The transformations that occurred in Portuguese society in the wake of 25 April 1974, in particular the colonial independence in 1975 (Cape Verde, Angola, Mozambique, Guinea-Bissau, São Tomé and Príncipe) and the race to join the European Economic Community in the first half of the 80s made official by the signing of the membership treaty on 12 June 1985, brought over to Lisbon a wave of immigrants from the Portuguese-speaking African countries who came in search of a better life.



Faced with growing housing difficulties and real estate rip-off during those years, these migrants were “pushed” toward suburban areas where the stigma of degradation, risk and criminality prevailed.

The revindication of their belongings together with a discourse centred on post-memories, both linked to the experience of the diaspora, contributed in great measure to the development of the identity of the descendants of this generation of immigrants.



In an early stage of my field research, in August 2012, it became gradually clearer that the practice of RAP did not emerge in Portugal in a vacuum, that is, disconnected from an interventionist attitude motivated by the social conditions of its practitioners – nor would that be possible. Its arrival in the national cultural milieu was intimately linked with the everyday reality experienced by the first protagonists in this field.



The period which saw RAP give its first steps in Portugal was also defined by the affirmation of other manifestations in what came to be self-described by its participants as hip-hop movement or culture. A range of other elements connected to the hip-hop culture such as dance (breakdance), mural painting and graffiti, began, together with RAP, to emerge carving their own path. My research focused on sounds and musical features, on RAP specifically, on the content of the lyrics and the kind of discourse adopted by the first authors during their performances.



Between the second half of the 80s and the first half of the 90s RAP embarked on a mission that was, until then, absent from other musical practices within the realm of urban popular culture. Described by its first players as RAPort, it narrated the story of streets and neighbourhoods, raising awareness of a range of distinct issues such as racism, social exclusion, poverty and xenophobia affecting a first generation of children of immigrants or Afro-descendants born in Portugal.



The early replication of an “Americanised” style, which in may ways addressed similar social realities typical of a still gestating RAP, eventually gave way to a recently-born RAP – specific and territorial – which inscribed their dual nationality, roots, or the nature of their struggles in the first verses they produced. It was done in a more and less clear fashion, metaphorically, sometimes by contextualising their songs, particularly their lyrics, in historical frameworks where harsh collective memories such as the Colonial War and the process of decolonialisation remained (“Portukkkal Is a Mistake” by General D, first RAP EP released in Portugal), and other times reflecting events or occurrences from the daily life in the neighbourhood, or even the city, within the most vulnerable fringes of what was often labelled in the Portuguese press of the period (1984-1998) as the second generation.



In 1986 this generation was between ten (the youngest) and fifteen years old and attended secondary education in schools on the periphery of Lisbon, which was where they had their first musical experiences and cultural interactions. It was in the metropolitan area of Lisbon that RAP was launched with the support of the radio program Black Market, broadcast by the now defunct Correio da Manhã Radio with transmission limited to the capital.  In this year a large group of enthusiasts, men and women, the B Boys Boxers, appeared as part of the hip-hop culture. They gathered to improvise, exchange cassettes and dance while some experimented with the first spays and paint to create the first street murals.



In 1998 some of those who had launched their careers by recording for the first – and sometimes the last – time a RAP record in 1994 on a multinational label, gave their last performance before a large audience during the Expo 98.



What are the names and roles of US hip-hop culture that have stood out the most and what trajectory did RAP take upon its take off in Portugal?



There is a broad consensus from many different sources regarding both the decade in which hip-hop was born as a culture and urban movement, and the geographical space of its origin – the first half of the 70s in the United States of America, particularly in South Bronx through Afrika Bambaataa, who founded the group The Zulu Nation who, even though not the first to appear in the genre, would drag hip-hop out of the shadows into which it had been relegated by the media.



In the USA, particularly on the East Coast, soon RAP began making itself visible through distinctive sounds, lyrical and thematic models. This is evidenced by the first wide reaching phonograms such as Rapper’s Delight (1979) by Sugarhill Gang, which was an appeal to party and fun, in contrast with How We Gonna Make the Black Nation Rise? announced by Brother D three years later (1982) or The Message (1982) by Grandmaster Flash and the Furious Five where a social critique was once again present. These were also important references for the first Portuguese rappers, namely some of the interviewed members from the New Tribe, Family or Zona Dread.   



Instances of a more protest, dissident RAP would appear soon after in the West Coast – Captain Rapp with the record Bad Times I Can’t Stand It (Saturn, 1983) being one such case. Several currents, with related terminologies, sought to affirm themselves and ended up creating different schools, which in later decades kept spreading a bit throughout the world, with a higher presence in suburban areas. In California, for example, we saw the emergence of the tags Gangsta Rap or Reality Rap. These labels were intimately linked to the release of Six in the Morning (1986) by rapper Ice T which was universally appreciated by Portuguese rappers of the 80s and 90s.   



The period between 1982 – 1989 became decisive not only in terms of developments in the trajectory taken by the first rappers with translocal impact, extending beyond the trilogy “neighbourhood-city-problem”, but also in terms of the image of hip-hop in general which the majority of the interviewees in the Portuguese context considered to have been their central role: the extension of lived realities on and/or at the margin of the hegemonic cultural power.



This was a period in which the protesting, interventive and emancipatory content of these communities came to light, consolidating their expression via lyrics and speeches and altering their musical aesthetics.



From Planet Rock by Afrika Bambaataa (1982) and the apparently unpredictable musical dialogues established between RAP and other musical and sound domains such as rock – think of “Walk this Way” where Run DMC appears with Aerosmith – fruit of the impact and interest generated, RAP would open itself to a range of diversities and stylistic options which have reinforced its mission. These also influenced the first groups appearing in Portugal (evidence of this can be found in the works released by Black Company, Lideres da Nova Mensagem, Zona Dread, Family, New Tribe or Da Weasel and also in the interviews given for my audiobook RAPuplicar, published in Portugal by Editora Caleidoscópio which gathers about seventeen hours of conversation with pioneering men and women of RAP in Portugal).  



Groups like Public Enemy (Takes a Nation of Millions to Hold Us Back, 1988. Fight the Power… Live!, 1989). NWA or Niggers with Attitude (Straight Outta Compton, 1989), KRS-One (Criminal Minded, 1987. By All Means Necessary, 1988), transferred the contesting spirit of the streets and a harsh critique of white American society to RAP consolidating the principles and foundations that lead to the development of a RAP that made visible the existential conditions of the communities who saw it emerge. These models helped inspire emerging rappers in Portugal during the 90s such as Boss AC and Cupid, Djoek, General D, Chullage, New Tribe, Funky D, TWA, Da Weasel, Filhos de 1 Deus Menor among others.



Likewise, NWA, responsible for the creation of the collective HEAL, a group that opened up the discussion on violence in the ghetto while at the same time it sought to provide response and solutions to black on black crime, and also to change negative perceptions about the black community in American society.



What about the first women rappers in Portugal? What were their roles, repertories of struggle and resistance? Where they also victims of the same invisibility that characterises other fields of music and popular culture in Portugal and the rest of the world?



Misogyny, free sex, verbal and physical violence and drug taking, in a style named gangsta style or gangsta rap, had its followers in Portugal at the end of the 90s; Makkas and Bambino from the musical group Black Company are two examples who also evoked rappers such as Tupac Shakur and Snoop Dog among others. Women like Roxanne Shanté (Roxanne’s Revenge, 1984. Bad Sister, 1989), the collective Salt-N-Pepa (Hot, Cool & Vicious, 1986) or Queen Latifah (Wrath of My Madness, 1988. All Heil the Queen, 1989) brought to the thematic chart of RAP the issue of gender and female condition within a milieu that, despite capable of denouncing the status quo and the establishment, remained oblivious to this chapter – most of the references to the female image, both in music videos and lyrical content, appear by means of its objectification in a more or less explicit manner. It was precisely these rappers who served as inspiration to the first all-female RAP groups that appeared in Portugal – Djamal and Divine – and began releasing records in the 90s. Divine appeared in two records by Black Company, Geração Rasca and Filhos da Rua, both by Sony Music, and Djamal recorded Abram Espaço by BMI. Their pioneering work made its mark in street performances and several shows between 1989 and 1999 and also in the albums they released, most significantly Abram Espaço in 1997.



While the already mentioned first male RAP groups in Portugal wrote about issues such as capitalism and social inequality, the presence of black bodies and the immigrant body in post 25 April 1974 Portuguese society (some of these subjects more prevalent than others), in a first stage attracting listeners and inspiring young people in similar circumstances of existence or social affirmation, and in a later stage attracting others from the same generation without first-hand knowledge of these ways of living and experiences, the first women rappers in Portugal introduced a range or other inequalities such as the ones pertaining to the condition of women widespread also in this scene.    



They wrote and sang their life stories where themes such as gender inequality, sexism and even domestic violence practiced within racialised groups were represented, issues that are patently visible in the songs “Abram Espaço” and “Revolução Agora” from Djamal’s album Abram Espaço, but also in non-released material that was shared with me during this research, and even our conversation which can be read and listened to in my audio book.



The undervaluation of their repertories detected during this investigation, the absence in the existing literature of these issues which they addressed in their work and their speeches, motivated the introduction of this subject in my research which has since then become one of its major points of interest. The biggest injustice and invisibility was the absence of the narrative of the original Female rappers in Portugal.



The journeys and narratives offered by the first recording female rappers also demonstrated how the female representation within this cultural universe was, on the one hand propagated in a superficial way, almost hidden, by the media, that is, it was transversally included in the notion of a “post-colonial urban phenomenon” in many ways similar to others taking place in other international capitals, and, on the other hand, emptied of the meanings of their literary interventions and local experiences or silenced by the players themselves, male and female, of this urban culture, who arrived in the years following its emergence, that is to say, after the first twelve years, and sought to insert and contextualise the “hip hop culture” in the Portuguese music industry.    



In the interviews conducted during the first decade of hip-hop in Portugal the work of both musical groups (Divine and Djamal) was seen as part of a lyrical debate ancillary to that of their male counterparts – not as an autonomous yet complementary domain of contribution, with a concrete and differing lyrical nature, a RAP that represented a challenge to male domination and which was self-consciously trying in its lyrics to address – together with instruments such as, in an early stage, the beat box, and electronic devices (QY10) or in a later stage instruments like the base, guitar and drums – the male rappers.

 

These rappers, themselves mostly descendants of Africans living in Portugal, observed and knew how to interpret the possible causes and effects leading to the moment of rupture of their own musical groups, something which became clear and patently visible in the interviews given for the audiobook.



Currently, the approach taken on the role of women in RAP reveals an historical continuity in the concrete differentiation and organisation or the activities of women in this cultural domain, or even in the way in which the participation and presence or women in hip-hop and RAP are these days represented, thus defeating the culturalist neo-hegemonic rhetoric which emerged in the noughties trying to portray the sense of a narrowing between the trajectories of men and women. One such example in Portugal being that of Capicua – a white rapper from Porto born in the 80s and, as such, distant from the temporal, spatial, social, historical and even economic configuration concerning the first female groups here detailed.



Recently I raised my concerns in a public letter published on my website Mural Sonoro (https://bit.ly/2GB4hrt) about the fact that the organisation of the event “History of Tuga Hip-Hop” which took place on 8 March of the current year, International Women’s Day, had included about 40 men, some of whom indeed played an important role in period of affirmation of RAP in Portugal (even though some of them had not recorded an album since 1999), albeit none of the Women who had released records during the same chronological period offering different, and original, narratives.    



One of the organisers of this event eventually replied to my concerns in an interview by stating that “to include an MC just because she’s a woman would mean removing another person who was also important.”

What can we take from this response? Is the “importance,” according to this organisation, predicated on their position in the recording industry? No. If that were the case, some of the rappers who were invited would not have been. Is it an “absolute value” regarding having “more flow,” “better lyrics” (features of this universe that is also governed by its own canons, other than a musical interpretation)? This is, I believe, completely subjective. Or is it instead down to their relevance to the popular cultural and musical history, to the people to whom they spoke and for whom they performed, to a vast number or young people who in Portugal, Cape Verde, Angola, Guinea-Bissau, Brazil, São Tomé, Mozambique used those lyrics as anthems of their struggle against tuition fees in the 90s, the struggle for the liberalisation and use of soft drugs or for the decriminalisation of abortion which took place in the same period in Portugal, that their performances, as recorded in many different documents, were interesting, bold, influential and necessary?



During this historical period there was genuine progress in the output and dissemination of the first RAP groups in Portugal, but the same political and historical period (predicated on neoliberal politics, under a right wing party during what came to be pejoratively known as the period of “cavaquismo,” and a media industry, from the press to the radio, which was its ideological kin) promoted the idea that living standards were high, from the lower income demographics to the lower-middle class. This perception of progress did not correspond, as would later became clear, to what really happened, and many lagged behind, especially those who had and fell for the promises and “auspicious moments” being offered by a still conventional cultural industry, causing what was really “new” in the popular culture narrative, so relevant these days, to be suffocated by an “integrationist” discourse, superficially “cosmopolitical” and much romanticised.



Openly speaking about domestic violence, sexism and gender inequalities within racialised groups during the 90s, as Djamal and Divine did, as did Backwards towards the end of the decade, effectively resulted in its underrepresentation. What’s more, I’m positive that as we see now happening in other current contexts, they simply were not understood. This is incredible considering how clear all this should be. Or perhaps it is more convenient to ignore it?

  

And a number of these first rappers, and many others that followed, did not even release an album or had the chance to be represented by labels with the reach of the ones mentioned above.

  

Nevertheless they still manged to create, and even release albums, especially in the independent scene, and to promote mordant and interesting events and proposals, which you might these days refer to as “politically incorrect,” within their sociocultural itineraries: Telma T-Von with the Red Chikas, Backwords, ZJ Zuka, who was a member of Divine, as well as some more recent examples such as Dama Bete, Blink, Mynda Guevara or Samantha Muleca among others.



Summary and starting points toward the social discussion of this subject



During the same historical period in which male rappers introducing languages and dialects such as quimbundo (Kussondulola, 1995), the Cape Verde creole (Boss AC, Cupid, Djoek Varela, TWA or Teenagers with Attitude, Family, Nigga Poison, Chullage), different sounds (a wide range of African drums, batuque), African garments (General D) and symbols or allusions to local and international politics linked to the fight against world racism or the War of Liberation in Portugal (Martin Luther King, Malcolm X, Amílcar Cabral, Agostinho Neto), the first female rappers, most whom were also descendants of Africans living in Portugal, provided in the Portuguese popular culture of the 80s and 90s a new narrative. But these women were victims of a double discrimination for being both black and women.    



In Portugal this subject went completely unnoticed by academia and the cultural industries. During this period, only research carried out in an international context sought to shed some light into this translocal reality: i.e. present in hip-hop in general independently of the geographical latitude. One such example is Nancy Guevara (1996) whose work focused on the role of women in all pillars of hip-hop as a movement and not only in RAP.



For this author, RAP was frequently presented as the “voice of the oppressed black young men,” with the implication that its female version configured a double form of oppression: being black and women.  



The second-class status of American black women turned RAP, as it happened with the two pioneering Portuguese cases here discussed, mostly Afro-descendants, into a vehicle that brought into the light other forms of discrimination by them experienced.



The recurring questioning regarding the “cultural identity” of the first rappers in Portugal at the end of the 80s and 90s, both by the media and the general public, made it necessary for emerging voices in hip-hop to be constantly trying to affirm their biographical journeys within the Portuguese society and culture.



Their life stories began to provide justification for the permanence of hip-hop, and their continued efforts therein, in particular the poetic and sound aspects of this essentially urban culture – RAP.   



The first themes to emerge and the common sound and musical references, from different geographical latitudes, made this a movement with particular features in Portugal where mutual support networks and friendship bonds became stronger, as was the case in other countries, particularly the United States.  



The fact that this was a generation that felt excluded and had to adapt to a country where it had not been born and / or, in most cases, had never visited their parents’ country of origin, turned the street into the privileged setting for artistic creation.



On the other hand, the more stigmatized neighbourhoods were, in some cases, an ideal setting to raise awareness of the problems that existed in these same neighbourhoods. And in other cases they forced the Portuguese society in the 90s to be confronted with another experience and cultural reality coming from them from the moment they began to release records by labels of national and translocal reach (Vidisco, Sony Music, BMG, Valentim de Carvalho).



The conflicts and tensions associated by the predominant rhetoric to life in the suburbs, such as drug use and supply, or theft, gradually became attenuated, in particular due to presence of their artistic output in the cultural and discographic fields. RAP then became an important vehicle for the dialogue between public authorities and civil society, its impact turning into a powder keg which helped accelerate a reconfiguration of the political thinking addressed to the “youth in the periphery” during the 90s in Portugal.



In Lisbon, the conciliation between the spoken word and writing synthesised the very nature of this practice: on the one hand, the reintroduction of the origins of their parents (the African expression); on the other hand, the written text used to denounce or evoke lived realities. Which in practice meant both the preservation of familiar cultural practices and the building o bridges and dialogues with the outside world. In Porto, this meant a protest against centralisation and the association of the practice with a “Lisbon-specific setting.”



The expectation generated around the “hip-hop culture” saw the first rappers assert RAP as a new art form and musical format in the musical industry of the 90s with as many technical possibilities as any other popular practices.   



However, even this claim produced ambiguous feelings. Although he was the first rapper to release and album in Portugal, General D, caused some division among some of his peers which only recently have been resolved. This was, on the one hand, due to the fact that many rappers were reluctant to base their practice on the traditional racial or ethnic ideas of which he was the main representative; on the other hand, the very fact that it was down to General D’s pioneering efforts that RAP came out of the shadows and was projected into the centre of the consumerist society made it less appealing.  



But it was precisely the political momentum and the dominant cultural industry that allowed them to record their first albums. This was a moment in which the resources of these rappers were scarce and the studios still lacking modern technologies such as the computer. And the reliance of the media and cultural industry on their conventional models was even bigger.



[1] Soraia Simões, Music historian (Instituto de História Contemporânea, FCSH NOVA Lisboa, Mural Sonoro), director, writer.


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Lançamento de Peregrinação CRIOULA de Paulo Branco Lima  em Lisboa

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Lançamento de Peregrinação CRIOULA de Paulo Branco Lima em Lisboa

Temos o prazer de convidar Vª para o lançamento de Peregrinação CRIOULA, romance de Paulo Branco Lima editado com a chancela da editora Aquarela Brasileira, a ter lugar no dia 11 de Junho pelas 18:00 na Livraria Ler Devagar (LX Factoy).


Fotografia do autor por Miguel Von Driburg


Paulo Branco Lima [1] reinterpreta Peregrinação, obra seminal de Fernão Mendes Pinto.


O narrador recorre à ironia e ao sarcasmo nesta viagem recente (anos noventa do século XX) a Cabo Verde em busca das suas raízes. Marca-o indelevelmente uma dinâmica de autodescoberta e um confronto de identidades.

Mário Gomes, especialista em Teoria da Literatura (Univ. Bona/Univ. Florença), afirma que «estamos perante um autor que na gíria literária se apelidaria de náutico: um autor de navios-escola e marinharia, mas sobretudo um artista da submersão literária. Sei de poucas pessoas – assim de repente lembro-me de um ou dois casos – que vivam tão submersas na literatura como o Lima».

José Luís Pires Laranjeira (docente de Literaturas e Culturas Africanas de língua portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), diz tratar-se «um livro de escrita comedida, metódica, visual, que descreve com minúcia e empolga pela força da palavra diretamente testemunhal, mas cruzada com a matriz renascentista: marinheiros-aprendizes, rotinas apertadas, trabalhos e dias duros, espaços e sujeitos enclausurados num oceano de espantos e águas abertas, à descoberta de si».

Para Soraia Simões (Mural Sonoro/ Instituto de História Contemporânea/FCSH NOVA) «à primeira vista, desde logo pela capa, parece que estamos perante mais uma obra de glorificação do passado quinhentista nacional, mas não. O autor, centrando-se numa rota marítima por latitudes africanas, desenvolve descrições pormenorizadas de marinharia e do funcionamento interno do veleiro que, à medida que os episódios avançam, vão ganhando contornos inesperadamente críticos do período colonial português» (Simões, Esquerda.Net).

O romance será apresentado pelo escritor e tradutor Mário Gomes, cujo recente trabalho de transcrição para língua portuguesa do autor germânico Arno Schmidt (Leviatã ou O Melhor dos Mundos seguido de Espelhos Negros), tem recebido rasgados elogios da crítica literária. Os actores Miguel Sopas e Ricardo Vaz Trindade lerão partes do romance.

DADOS DO LIVRO
Título: Peregrinação Crioula
Autor: Paulo Branco Lima
Editora: Aquarela Brasileira Livros
Género: Romance
Formato: 14 x 21 cm
Número de páginas: 172
ISBN: 978-85-92552-12-1
Depósito legal: 455407/19
Web: www.aquarelabrasileira.com.br/peregrinacao-crioula
Encomendas: faleaquarela@gmail.com

[1] Paulo Branco Lima é escritor, actor, performer, investigador literário e produtor cultural. Licenciado em Jornalismo e Mestre em Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra, em 2013 publicou o romance Origem e Ruína com a chancela da Chiado Editora. Enquanto autor, fomenta alicerces nas obras de William Faulkner, Camilo Castelo Branco, Pepetela, Vitorino Nemésio e Guimarães Rosa. Membro do Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, é colaborador regular da Revista de Estudos Literários e das publicações angolanas O Chá e Jornal Cultura

Associação Mural Sonoro

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De oprimidos/as a opressores/as, por Soraia Simões

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De oprimidos/as a opressores/as, por Soraia Simões


[1] por Soraia Simões

Aprendemos a pelejar com ideias e dinâmicas que se procuram superiorizar por meio de uma gramática única, que cita sempre os mesmos, recorre às mesmas problemáticas e às mesmas conclusões e erradica quem não se interessa pelo mesmo manual de inflexão, mascarado de reflexão. Por Soraia Simões.


Há dias num encontro sobre práticas musicais, culturais e política alguém me disse que se há coisa que a passagem dos anos nos pode trazer é o aprender a lidar um pouco melhor com um conjunto de ontologias, gramáticas ou narrativas próprias e propositadamente intrincadas com as quais nunca, ou raramente, concordámos.

Aprendemos por conta e risco, por exemplo, a pelejar, por muito idiota que ele seja ou nos pareça ser, um conjunto de ideias e de dinâmicas que se procuraram superiorizar por meio de uma gramática única, que cita sempre os mesmos, recorre sempre às mesmas problemáticas e às mesmas conclusões e que erradica quem não se interessa pelo mesmo manual de inflexão, mascarado de reflexão, do seu caminho. A maioria oriundas da educação e formação mais convencionais onde os corpos que sofrem, se as mesmas se posicionarem à esquerda, são permanentemente evocados mas vivem únicamente, quase exclusivamente, na cabeça, nos corpos teóricos de quem, salvo (demasiadas) pontuais excepções, passa a falar pelos outros, aqueles corpos que efectivamente sofrem ou sofreram.

Agora imaginem esta situação:

uma vez, numa avaliação de fim de curso uma aluna, artista, corpo oprimido, bastante experiente resolve realizar um trabalho sobre o universo que melhor conhece, o seu. A ''velha'' professora dá-lhe boa nota, mas apressa-se a explicar o porquê de não lhe ter atribuído uma nota ainda melhor, quando comparada com as que distribui graciosamente pelos outros, os que professam as suas tentativas de comprometimento tardio com ''causas actuais'', pouco experientes: «você tem isto muito bem escrito, aprendi muito consigo, há coisas aqui, várias coisas, que não sabia, no entanto não encontrei a disciplina que lecciono, e a profundidade dos autores de que falámos nas aulas, no seu trabalho».

Agora imaginem que aquela professora, a uma distância inacreditável do tema em causa, nalguns dos pontos a roçar a ignorância sobre o mesmo, dizia:

- “você sabe mais disto do que eu, você recorreu a um leque de autores diferentes daqueles que falámos nas aulas fruto da sua experiência, mas isso é uma mais valia, você foi original na abordagem”.

Ou, simplesmente:

- «finalmente alguém que, depois de ler o que eu vos sugeri ao longo deste ano, consegue ter um pensamento crítico e exercer o contraditório sobre essas referências». Afinal, devia ser para isso que serve a educação, a academia: somar mentes diversas, acolher outros contributos, novas leituras e abordagens.

O texto sobejamente usado nas ciências sociais (eu inclusivé) de Gayatri Chakravorty Spivak (1988) no qual ela questionava a conversa entre Foucault e Deluze em Os Intelectuais e O Poder [2] e no qual expressava uma «indignidade do intelectual de falar pelos outros», na medida em que «aqueles que agiam poderiam falar por si mesmos» poderiam ter sido um pouco mais decisivos para esta ''velha'' professora tão ''progressista'' e tardiamente afecta às causas dos oprimidos urbanos. Quanto mais não fosse pensar que a dialéctica descrita pela autora («representation as speaking for» e «representation as re-presentation»), seria, é, poderá ser um caminho para tão «preocupada missão» da educação ao se querer aproximar do que é, ou foi «periférico» , «marginal», das artes aos corpos que sofrem, sofreram, sofrerão. Essencialmente porque nessa perspectiva se atribui relevância à intersecção de narrativas, a académica e a do legado da experiência explanada na partilha de outras (novas, renovadas) narrativas.

Mas, o problema da situação é ela ser mais do que imaginada, ter realmente acontecido e a ter presenciado. É ela me fazer compreender ao fim de alguns anos o demorado e duro que foi ''aprender'' a lidar, sem lhes virar costas, com o superiorizar das gramáticas dominantes, mesmo as que se acham (leia-se subinhado e em destaque se acham) progressistas e, até, de esquerda ao longo da nossa educação. Aquela professora representou naquele momento aquilo que o educador e filósofo Paulo Freire na célebre Pedagogia Oprimida revelou ser uma espécie de estratégia para o oprimido, ter de lidar com o opressor, para se tornar um dia o opressor: «quando a educação não é libertadora o oprimido quer-se tornar o opressor».

 

[1] Soraia Simões, in Esquerda.Net, 22 de Maio, 2019. 

2] Spivak, Gayatri Chakravorty (1988) Can the Subaltern Speak?.

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Uma Peregrinação atípica, por Soraia Simões

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Uma Peregrinação atípica, por Soraia Simões

[1] por Soraia Simões

Paulo Branco Lima recria em “Peregrinação Crioula” o texto seminal de Fernão Mendes Pinto ensaiando uma reflexão crítica sobre o período colonial português.

Olho-me num dos espelhos da casa de banho dos praças: os meus lábios são grossos, o meu cabelo é encaracolado (ou roim!), a minha pele algo morena.

Terão amadurecido, durante esta viagem ao mosaico cabo-verdiano, substâncias escondidas que me correm nas veias?

Possuirei costela africana?

Serei também, de algum modo, crioulo?

De que mescla são as forças que interagem no meu espírito?

Com que meios poderei identificar este género de orfandade?

Como deslubrificar o conforto lusocêntrico do meu olhar?

Quem sou eu?

Qual a minha Voz? (página 157)

Li recentemente o romance Peregrinação Crioula de Paulo Branco Lima editado pela Aquarela Brasileira (Maio, 2019). Uma pequena editora independente.

Aconselho vivamente a leitura.

Trata-se de uma insólita e nada convencional reinterpretação da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto.

A história desenrola-se a bordo de um navio-escola português de traços contemporâneos nos anos noventa do século XX.

À primeira vista, desde logo pela capa, parece que estamos perante mais uma obra de glorificação do «passado quinhentista nacional», mas não. O autor, centrando-se numa rota marítima por latitudes africanas, desenvolve descrições pormenorizadas de marinharia e do funcionamento interno do veleiro que, à medida que os episódios avançam, vão ganhando contornos inesperadamente críticos do período colonial português. Esses episódios estão imbuídos de um contundente sentido de ironia, sarcástico até.

Num primeiro momento, o itinerário proposto, uma circum-navegação ao continente africano, é interrompido de um modo brusco pouco antes da chegada a Cabo Verde, alegadamente por motivos “logístico-burocráticos”.

A partir daqui, quando a tripulação inicia o seu périplo, reduzido à força, pelas ilhas crioulas, começa a instalar-se um «confronto de identidades» ao longo do qual se impõe, de forma progressiva, a cosmovisão africana.

Não é estranha a busca das raízes africanas implícitas ao narrador. Talvez por isso, utilize o dispositivo ficcional da escrita de um diário de bordo para reflectir nos fundamentos daquilo que pode ser encarado como a sua «autodescoberta».

Esta imagem faz germinar dentro de mim uma ideia desagradável, como lasca entalada na garganta. Causa-me uma impressão incómoda, amarga, semelhante à da Cidade da Praia. Nem sempre me identifico com esta gente, tão impregnada na obsolescência da Expansão. Por vezes acho-me desenquadrado, incompleto, desenraizado… Sinto um desencanto ácido: mais que a tão prestigiada embaixada itinerante, o navio-escola vai-se tornando no símbolo da minha alienação (página 127).

Fascinado inicialmente pelo universo da literatura de viagens, que o leva a querer ser marinheiro, o narrador acaba por relembrar episódios da sua adolescência durante as aulas de História, quando lhe era pedido para ler em voz alta a obra Peregrinação. Como se aquelas palavras já fizessem, de algum modo, parte da sua vida, de uma outra sua vida/vivência.

Estamos de novo em alto mar.

Sinto-me massarongo, modorrento. Apenas hoje me dá para reler tudo o que escrevi no Craesbeeck. Há um pormenor a martelar-me a consciência: apesar de toda a liberdade criativa em Calempluy, também eu me deixei corromper pelo poder do ouro! Residirá nisto a causa da minha intranquilidade, deste mal-estar que me persegue a espaços? (página 146)

Alcançando aquilo que era o seu anseio, o ingresso no navio-escola São Gabriel, o júbilo primeiro dá lugar a um duro choque com a realidade que encontra a bordo: um deplorável sentido de camaradagem, uma insaciável sede capitalista (o mercantilismo de negras e de negros), os intoleráveis resquícios do colonialismo português.

[1] Soraia Simões, in Esquerda.Net, 5 de Maio, 2019. 

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Antes e depois do clickbait, Soraia Simões

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Antes e depois do clickbait, Soraia Simões

[1] por Soraia Simões

Não amaremos insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha? Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra!

Nesta passagem de A Queda de Albert Camus, o último livro de ficção lançado em vida, são reveladas as mais ignomínias passagens de um homem no século XX e a sua decadência, isto por via de um discurso simultaneamente corrosivo e contundente.

Apesar de estarmos no século XXI, um século concernente à revolução digital, aos questionamentos sobre a robótica, a inteligência artificial, entre outros, Portugal, e na verdade o resto da Europa, ainda não chegaram ao século XXI. Talvez por isso as nossas referências literárias e musicais ainda aí se encontrem na sua maioria.

Dos pontos de vista político e social não fomos capazes de rasgar totalmente com as problemáticas do século passado, as quais ainda amparam frentes que foram realmente importantes no século XX (os processos de urbanização e industrialização, a transformação das forças sociais e económicas, etc), do mesmo modo que mantêm as continuidades mais bacocas, isso verifica-se essencialmente no continuísmo do patriarcado e do mandonismo.

Os poderes sociais e culturais que dominaram o país mesmo depois do 25 de Abril de 1974 percorreram-no, assumindo outras formas, em quadros hipoteticamente mais «esclarecidos», «urbanos», e/ou «cosmopolitas».

Não existindo propriamente uma ruptura, mas um continuísmo, as diversas forças que emergiram, especialmente no plano cultural e nos meios de comunicação social, desse longo processo histórico, sejamos claros, procuraram manter os seus privilégios. Mesmo que se verifiquem divergências no plano político-ideológico, é visível que estes poderes impossibilitaram aquilo que apregoaram nos seus discursos, mais e menos, populistas: um país mais justo e igualitário, congregando seja pela força do trabalho (incluindo intelectual), seja através de arranjos políticos, o que, em teoria, as dicotomias que atravessaram o século XX, mantiveram.

No Estado Novo vimos nascer um modelo capitalista sustentado pelo autoritarismo e pelo nacionalismo. No século XXI encontramo-nos entorpecidos, por vezes estagnados, ora porque «não acertamos dividendos com nosso próprio passado» ora porque «no passado não se pode já mexer, ele foi o que foi».

Parece-me grave que os argumentos e visões de defuntos queiram ministrar, governar mesmo, a trajectória do mundo dos vivos. E que tenham mortos vivos a apoiarem a iniciativa.

Começamos o ano de 2019, por exemplo, com várias demonstrações disso mesmo: um criminoso, afecto à direita radical, cadastrado é entrevistado num programa da manhã sem contraditório (parte do passado criminoso é omitido, na prática), um escritor francês refere que as mulheres depois dos vinte e cinco anos, nomeadamente as de cinquenta, são «invisíveis» e, com estas declarações, tem palco inclusivé na BBC, a ministra brasileira da Mulher, Família e Direitos Humanos refere numa das suas intervenções públicas, especificamente durante a tomada de posse, que «é uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa».

Que passado sombrio é este que mora no presente afinal?

Durante o início da minha adolescência, fins dos anos oitenta, inícios dos anos noventa do século XX, fazíamos as nossas próprias colectâneas musicais e tocávamos de ouvido. Mesmo quem tinha aprendido música de um modo formal, tocava por cima das colectâneas criadas. Não raras vezes do lado A e do lado B de cassetes que denominámos «punk rock» estavam os primeiros registos discográficos completos, que mais tarde muitos/as de nós adquirimos em CD ou vinil, de grupos americanos, ingleses e alemães.

Na quadra natalícia, fui ao sótão de família onde estão guardadas mais de três mil cassetes desse período. Numa dessas cassetes, curiosamente, pude (re) lembrar que um velho amigo me gravou o «Know Your rights» The Clash do lado A com o «California Uber Alles» Dead Kennedys do lado B.

Ora, o «Know Your Rights», de The Clash é um pronunciamento público com guitarra eléctrica, bateria, baixo. A letra, que faz parte do meu disco preferido do grupo ao nível poético-literário (Combat Rock, 1982) é um manifesto pelo direito das minorias, dos pobres e marginalizados, que na música ganham o privilégio de não serem mortos, de se expressarem livremente, de terem o que comer. O «California Uber Alles» é uma sova política. Lançada em 1979, no formato EP, regravada em 1980 no disco Fresh Fruit for Rotting Vegetables. Na versão original a menção a Jerry Brown, governador da Califórnia entre 1975 e 1983 (voltou em 2011), como se fosse o próprio descrevendo os seus planos futuros; com ambições totalitárias, apesar da alusão ao ambientalismo que na década anterior era uma das grandes bandeiras dos hippies. A letra também expõe o receio de Biafra com o poder que Brown apresentava no início do seu percurso. Essa suposta vocação totalitária de Brown aparece nas citações ao nazismo, presente no título da canção («Über Alles» fez parte do hino da Alemanha até o fim da Segunda Guerra Mundial), a expressão «cameras de gás», ou a menção a «1984», livro de George Orwell que descreve um regime massacrante e totalitário, não deixam dúvidas.

Vejo esta cassete, gravada e oferecida quando tinha apenas 15 anos, um pouco hoje como as nossas tomadas de posição. Há formas, antes mesmo da era do clickbait, de repartirmos ideias e valores, de combatermos o discurso de ódio, de nos posicionarmos. Nas escolhas pessoais, nas profissionais. Longe de imaginar, porém, que o século XXI continuasse a preferir o da decadência reflectida por Albert Camus em A Queda: onde só a morte desperta os nossos sentimentos, só conseguimos amar os amigos que acabaram de nos deixar, ou admirarmos os nossos mestres quando eles já não falam, com a boca cheia de terra.

E nisto deveríamos pensar, já hoje.

This is a public service announcement

With guitar

Know your rights

All three of them

Number one

You have the right not to be killed

Murder is a crime

Unless it was done

By a policeman

Or an aristocrat

Oh, know your rights

And number two

You have the right to food money

Providing of course

You don't mind a little

Investigation, humiliation

And if you cross your fingers

Rehabilitation

Know your rights

These are your rights

Hey, say, Wang (The Clash, Combat Rock, 1982)

[1] Soraia Simões, in Esquerda.Net, 15 de Janeiro, 2019. 

Fotografias, making of de gravações em Coimbra, de João Fontes da Costa

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Uma breve história da livraria mais antiga do mundo,  por Luana Olliveira

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Uma breve história da livraria mais antiga do mundo, por Luana Olliveira


[1] por Luana Olliveira

Com o avanço da tecnologia, hábitos como ler um bom livro têm ficado no passado, porém é válido ressaltar que a magia de ter um livro nas mãos, sentir o cheiro das páginas, avançar cada capítulo, nos faz mergulhar num universo só nosso, onde é possível criar um mundo de fantasias e imagens que só a mente humana é capaz.

Por isso, vos venho contar um bocadinho de uma história, de um lugar mágico, por onde vários autores portugueses de reconhecimento internacional, antes da primeira guerra mundial, passaram. Um local onde outras individualidades se reuniram em segredo durante a ditadura para além de declamar poesia, falarem daquilo que era proibido. Uma história literal e portuguesa, contada pelas palavras de uma brasileira que criou amor e raízes nesse lugar.

Em 1732 Pedro Faure de origem francesa, inaugura a primeira livraria na rua Direita do Loreto, em Lisboa. Depois, oferece sociedade a seu genro Pierre o irmão Jean Joseph, os “Irmãos Bertrand” que assumem o negócio após o falecimento do sócio.

Lisboa é marcada por desastres naturais, em 1755 um terramoto fez com que a cidade recomeçasse, deixando cinza e dor pelas ruas. Foram quase vinte anos entre reformas e atividades em outro sítio, para conseguir trazer para aqui, de volta, aquela que já mostrou ser mais que uma livraria.

Com a reconstrução de Lisboa, e a morte do último Bertrand, José Fontana, um imigrante suíço, escritor político e engajado em ações sociais assume a direção da livraria, porém apenas com 34 anos, já desiludido da vida política, e farto de tratar sem sucesso a tuberculose, resolve pôr fim em seu sofrimento e em 2 de setembro de 1876, nos armazéns da Livraria Bertrand suicida-se.

Contam aqui que o fantasma de Fontana ainda habita o interior da livraria, e que quando um livro cai, ou uma porta bate sem motivo, lá está ele, para ver se tudo está a correr bem.

Após a Implantação da República, houve uma sucessiva troca de administradores dispostos a manter a história da Bertrand e espalhando o seu legado, hoje existem 54 livrarias espalhadas em solo português, e todas são fruto da loja do Chiado, aquela primeira livraria, que o terramoto poderia ter destruído para sempre se não fosse a garra e a determinação dos Irmãos Bertrand.

Com o reconhecimento do Guiness Word Record, como “A livraria mais antiga do mundo em funcionamento”, a loja da Baixa do Chiado tornou-se um dos principais pontos turísticos de Lisboa, visitada diariamente por centenas de pessoas de todo o mundo, também apreciada por diversos autores, que podem aqui sentir nostalgia e ouvir histórias dos autores favoritos que por cá passaram, sendo uma atmosfera perfeita para inspiração.

Hoje tem o título de “Loja com História” oferecido pela Câmara Municipal de Lisboa, e acho que sabemos todos os que aqui trabalham o quão merecido isso é.

Essa é a mesma loja, inaugurada em 1732. Uma Bertrand com 287 anos de História entre essas grossas paredes de pedra, uma Bertrand que evoluiu, mas nunca abdicou do seu propósito principal, uma livraria, que não vende apenas livros, mas que cultiva a arte e a memória dos grandes escritores que por cá passaram, deixando suas marcas, trazendo de volta a vontade e a necessidade de nos sentarmos, tomarmos um café, de devorarmos um bom livro, uma "mania portuguesa" que contagiou o resto do mundo.

[1] Mestranda, Universidade Europeia, lojista Bertrand Chiado


Fotografias: Luana Olliveira

adenda:

Desde que vim viver para Lisboa, em 2008, que a Bertrand do Chiado faz parte das minhas rotinas. Aqui continuo a adquirir algumas das obras da minha, cada vez mais selectiva, colecção. Foi também aqui, sentada numa das mesas da Cafetaria, que iniciei e estruturei algumas ideias sobre música e cultura populares que acabaram por se tornar obras, assim dizem. Duas obras, para já, publicadas e que aqui encontram.

Mantive uma relação fantástica com os funcionários, de ontem e de hoje. Alguns, que já aqui não estão, talvez nem saibam como foram relevantes na minha adaptação, tão célere, a esta cidade. Hoje, volvidos mais de dez anos em Lisboa, mesmo com o turismo, consigo alimentar os mesmos laços sociais, uma raridade o silêncio necessário para os estabelecer, firmar. Um bem singular quando quase tudo hoje é ruído.

Com o Filipe, com quase menos metade da minha idade, tenho conversas interessantíssimas sobre música, som, política, autores russos, com a Luana sobre literaturas brasileiras, o feminismo e a vida.

Há uns dias a Luana falava-me do prazer que tem em trabalhar aqui, desenhei quase um pequeno filme na minha cabeça ao ouvi-la, tão expressiva e tocante.

Desafiei-a para escrever umas breves linhas sobre a Bertrand do Chiado, que se tornou também a sua casa em Portugal. Ontem passei na loja e tinha-as para me entregar, fiquei comovida, e contente por publicá-las aqui no Mural Sonoro (Soraia Simões)

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Feminismos e contra-feminismos - entre teoria e prática, por Soraia Simões

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Feminismos e contra-feminismos - entre teoria e prática, por Soraia Simões

[1] por Soraia Simões

Assinalou-se a 25 do presente mês o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Um dia que, ao mesmo tempo que nos relembra o assassinato das irmãs Mirabal – las Mariposas – vítimas da ditadura de Trujillo a 25 de Novembro de 1960, nos alerta para o facto de todos os anos um número incompreensível de mulheres serem mortas, também em Portugal, por violência doméstica e de diariamente se observarem vários tipos e graus de femicídio; diversos níveis de sofrimento serem infligidos a vítimas, na sua maioria, do sexo feminino. Incrivelmente, este ano, foram vinte e quatro as mulheres mortas pelos seus companheiros no nosso país, apesar do número crescente de instituições, de associações e de movimentos em defesa das mulheres, ou de uma aparente maior sensibilização e discussão pública em torno deste tema. Sobre isto deveríamos reflectir.

Sabemos hoje que os tribunais se confrontam com dificuldades no tratamento adequado e na aplicação de leis para este crime, e que em variadíssimos dos casos não existem testemunhas presenciais, para além da testemunha vítima.

Também sabemos, ou deveríamos, que extirpar das sociedades códigos e signos patriarcais implica muito trabalho, mas implica igualmente uma maior articulação, empatia, e um melhor diálogo entre estas entidades, organizações e instituições, que de facto poucas vezes verifico.

Não raras vezes estas se isolam em conceitos opacos, que legitimam as suas presenças e os orçamentos que as mesmas, nos seus “projectos institucionais”, acarretam? Existirá sempre uma diferença significativa entre os corpos que vivem na cabeça, são só teóricos, e os corpos que sofrem; uma excessiva tentativa de teorização poderá também estar a um passo da desmaterialização dos próprios conceitos, no limite até das causas e/ou missões? Talvez sim, talvez não. Tudo dependerá do caminho seguido para atingir o resultado da erradicação da violência às mulheres.

Há dias, ao debruçar-me na minha intervenção para uma jornada em torno dos papéis de algumas mulheres no cruzamento da literatura e de outras artes, para a qual fui convidada pelo CHAM, e que acontecerá na FCSH NOVA no dia 13 de Dezembro, lembrei-me do termo backlash usado pela jornalista Susan Faludi em 1992.[1] A expressão pretendia dar ênfase à existência de um contra-feminismo em relação aos direitos das mulheres, que começou a ganhar forma nos anos setenta. Esta contra-reacção, orquestrada por uma máquina poderosa, comunicação social incluída, declarava que a independência e o poder alcançados pelas mulheres teriam revertido não a favor mas contra as mulheres.

Como nas canções antigas, também os movimentos iniciados ou com uma maior expressão no último quartel do século XX podem sofrer o extraordinário impacto do presente. Quem neles hoje se revê nem sempre reflecte sobre o que foram naquele contexto histórico, replica-os, mas há quem o faça. Quem reflecte hoje sobre o que foram naquele contexto forma inevitavelmente uma opinião. Como prefaciou Elke Heidenreich em As Mulheres que lêem são perigosas, de Stefan Boollman, «quem tem uma opinião pode dissidir, quem se torna dissidente passa a ser inimigo».

Camille Paglia em Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson (1990) definiu-se como uma «feminista anti-feminista». Na sua tese, as mulheres não ganhariam nada em buscar nas formas artísticas aquilo que tinham na sua condição natural; o serem «biologicamente superiores» por poderem gerar outros seres. Logo, segundo a autora, as mulheres procuram na arte substitutos para a sua («natural capacidade») de gestação/criação.

Os feminismos baseados nas desigualdades culturais e não biológicas foram amplamente criticados por Plagia, segundo ela as mulheres afirmam-se e respeitam-se na sua condição feminina por causa da cultura e da sociedade, esquecendo por completo que a influência de ambas é mais injusta e difícil para o sexo feminino do que para o sexo masculino.

O certo é que há, ainda hoje, uma corrente que defende que os direitos e garantias da mulher estavam já garantidos, há muito, pela «primeira vaga feminista», pelas suas lutas e conquistas e por elas se deveriam as feministas guiar. É a mesma corrente que desvaloriza o trabalho, por muito e assinalável que seja, de instituições e grupos de trabalho feministas que questionam os feminismos nas suas distintas correntes. Essa corrente propõe um retorno a «referências inabaláveis» do século anterior, sem as questionar. Fundamenta-se numa ideologia conservadora, virada para si, individualista, descobre e alimenta os meios de comunicação social também eles suportados pelo mundo capitalista. Parece-me tão perigosa esta, como a ideia das «naturais capacidades» femininas, segundo a biologia, aflorada por Plagia.

É a corrente que ao mesmo tempo que reclama que os corpos podem falar por si, sem emitirem qualquer palavra, os consegue esvaziar de significado com a sua teorização excessiva dos «corpos femininos», que contribui para a sua desmaterialização.

É certo que se o contributo de pensamentos que colocaram em causa o velho «corpo político» defendido por Platão, Cícero, Hobbes, entre outros, e o converteram em novos significados e metáforas como a «política do corpo», no qual ele passa a ser uma entidade politicamente inscrita e a forma que ele assume condicionada, vigilada, controlada, violada, abusada, ferida, foram, são e serão, de enorme relevância. Não serão, contudo, nada se continuarmos a pegar na narrativa da materialidade do corpo, do corpo como uma «fronteira variável», «uma superfície politicamente regulada» ou «uma prática com significado num campo cultural de hierarquia de géneros», como nos propõe Judith Butler em Bodies That Matter: On The Discursive Limits of Sex (1993), sem que outros corpos, que nos contam outras experiências, consigam intervir.

O meu receio é que essa mesma corrente corra o sério risco de não representar ninguém a quem se diz destinar. Que seja apenas uma representação teórica de si mesma.

[1] publicado no no Esquerda Net

Notas

  1. ^ Faludi, Susan 1992 Backlash.The Undeclared War against American Women. Nova Iorque, Doubleday.

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A hegemonia masculina do hip-hop num dia dedicado à Luta e à Resistência femininas, por Soraia Simões

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A hegemonia masculina do hip-hop num dia dedicado à Luta e à Resistência femininas, por Soraia Simões

[1] por Soraia Simões

É inconsequente, ignóbil, que num evento a 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, intitulado História do Hip-hop Tuga, o qual terá lugar no Altice Arena esteja um cartaz com quase quatro dezenas de homens, alguns precursores e vários mais recentes, e apenas uma mulher, branca, que curiosamente começa a gravar já no século XXI, Capicua.

Não deixa de ser interessante verificarmos que as primeiras rappers em Portugal, maioritariamente afrodescendentes, iniciaram as suas actividades em 1989 e editaram por multinacionais ou editoras com impacto (Sony Music, BMG) em 1995, 1997 respectivamente. Fizeram-no em discos de Black Company, o grupo da colectânea RAPública (1994, Sony Music) que mais popularidade conquistou na década de noventa, convidado para este mesmo evento (o agrupamento feminino Divine entraria em 1995 em Geração Rasca e em 1997 em Filhos da Rua), e fizeram-no a solo (o agrupamento feminino Djamal editaria Abram Espaço em 1997). Não obstante este significativo marco face à sub-representação das mulheres no hip-hop da década de noventa, no RAP em especial, grande parte do seu repertório literário se centrava desde que começaram a escrever em assuntos como: as desigualdades em função do género, no machismo e na misoginia existentes, no racismo que sentiam na sociedade portuguesa e mesmo na violência doméstica dentro de grupos racializados.

Nancy Guevara foi exímia na forma como em Women Writin Rappin Breakin nos descreveu essa invisibilidade e uma clara dupla discriminação, fora e dentro do hip-hop, a de ser negra e a de ser mulher respectivamente num grupo onde a supremacia do masculino e a masculinidade são desde o seu início evidentes (em 2019, na sequência do audiolivro RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada que congregou dezenas de entrevistas, será publicado o livro Fixar o Invisível. Os primeiros passos do RAP em Portugal, também pela Editora Caleidoscópio, que propõe uma abordagem e uma reflexão maiores acerca deste aspecto).

Com estas primeiras rappers e depois destas rappers outras surgiram, muitas delas não gravaram um disco ou tiveram a possibilidade de publicar em editoras com o alcance das etiquetas discográficas já mencionadas. Apesar de tudo, não deixaram de criar, até de gravar, sobretudo em circuitos independentes, e de promover encontros e propostas interessantes, mordazes, dir-se-iam hoje «politicamente incorrectas», no seio dos seus itinerários socioculturais: Telma T-Von, com as Red Chikas, Backwords, ZJ Zuka que integrou o grupo Divine ou alguns exemplos mais recentes como Dama Bete, Blink, Mynda Guevara ou Samantha Muleca, entre outras.

A definição de algumas práticas em universos onde os homens são maioritários poderá ou não contribuir para a criação de territórios culturais onde as práticas que os definem reflectem valores dominantes, portanto masculinos?

Sim e não.

Sim. Tais valores podem ser aceites pelas mulheres, não colocados em causa, respeitando os valores pré-definidos por estes de modo a serem aceites.

Não. Tais valores podem perfeitamente não ser aceites por estas e procurarem afirmar-se na sua diferenciação, esteja ela ou não de acordo com “noções identitárias” fundadas no género ou numa anulação imediata da estereotipação do mesmo: de como é ser mulher, e até ser homem, em universos musicais que continuam a reivindicar posições e os hoje tão reclamados «lugares de fala».

É hoje, para mim, claro que as primeiras rappers foram, pelos seus modos de actuação e de resistência e por terem ‘’ao serviço’’ da sua geração as suas gravações, sujeitos da história. Actrizes sociais de uma acção histórica visível e de uma acção histórica invisível, cujo único modo de reter e posicionar no presente, de um modo reflexivo, tomou forma durante os registos de conversas ao longo da investigação realizada e na recolha de material escrito e gravado.

Enquanto o impacto visual das presenças dos grupos femininos na comunidade juvenil foi comprovado pelas mais diversas notas de imprensa, a influência dos seus repertórios literários não teve expressão condizente nesse meio. O que é pena. Pela actualidade e por estes concentrarem uma espécie de profecia, que hoje o público merecia escutar.

Os temas abordados por estas mulheres foram também apropriados por um conjunto de grupos sociais sem ligação à, designada pelas protagonistas, cultura hip-hop, nomeadamente movimentos estudantis da mesma geração, sem contacto prévio com estes territórios culturais e geográficos, no final da juventude liceal e início da vida universitária. Disso foram exemplo, a utilização de temas de Djamal nas lutas a favor da despenalização do aborto da década de noventa.

A romantização discursiva em torno do hip-hop em Portugal nos primeiros doze anos produzida abertamente pelos que prevalecem, como a narrativa que realça continuamente a sua não dependência do sistema social dominante e até um crescimento do RAP nas periferias do capitalismo, não é rigorosa, nalguns dos casos é só uma inverdade. Na realidade, foram os diálogos frequentes com as indústrias de publicação de conteúdos escritos (o semanário O Independente, o Expresso, o jornal Blitz, entre outros) e novos itinerários socioculturais que permitiram a sua existência e, para alguns, subsistência no panorama cultural e discográfico português.

Convém não esquecer que foi justamente nos primeiros anos de afirmação deste domínio cultural que essa dependência mais se fez sentir, porque os recursos eram escassos, gravar em grandes editoras a única forma possível de chegarem às massas, sobretudo a outros jovens e públicos, como almejavam e como veio a acontecer.

Os papéis assumidos por estas rappers foram prejudicados por uma visão do mundo cultural determinada a partir deste ponto de vista que pressupunha, afinal, que ninguém se atrevesse a questionar o carácter «natural» do feminino e do masculino.

Em 1974 a antropóloga Sherry Ortner mencionava que a opressão às mulheres acontecia na medida da distinção feita pelas sociedades entre «cultura» e «natureza», a qual por si estabelecia uma dicotomia entre ambos os sexos tendo como base a conexão do masculino ao cultural e do feminino à natureza. Esta ligação congregava obviamente uma desvalorização dos papéis da mulher, dado que em todas as culturas a «natureza» é colocada numa ordem da existência inferior.

Foram várias as mulheres a acompanhar rappers masculinos como cantoras, que cantavam refrões e pequenas partes de canções previamente escolhidas para elas por estes, Marta Dias e Maimuna Jalles são disso exemplo, ou mesmo bailarinas, ambas acompanharam General D, convidado também para este evento, mas foram as rappers que desafiaram e confrontaram as narrativas do universo masculino e da masculinidade presentes no hip-hop. As letras de Divine, Red Chikas e Djamal deixam-no na década de noventa às claras.

Se na década de noventa o discurso do hip-hop e a própria natureza das indústrias culturais em torno deste colocaram a discussão sobre classes sociais, desigualdades «étnicas» e «raciais» numa perspectiva exclusivamente masculina, ao mesmo tempo que amaciaram a presença das primeiras rappers evidenciando características de natureza física ou entrevistando-as em revistas femininas de moda, higienizando o que fora parte da expressão do corpo performático e crítico das suas produções escritas no RAP, em 2019 eventos como a História do Hip-Hop Tuga quase parece que nos remetem para um lugar da história recente, a do cavaquismo inevitavelmente. Acrítico, com uma boa dose de oportunismo e menos da dita punchline. Dificilmente a minha geração esquece, aliás, que um tema de Boss AC, outro convidado do evento, suportou em 1996 a campanha eleitoral de Cavaco Silva. Do mesmo modo que não esqueço que para muitos rappers na actualidade a designação hip hop tuga enceta uma dupla discriminação, há um hip-hop em Portugal, não necessariamente tuga.

Porque de bambas intenções e narrativas na sua prática inoperacionais, descomprometidas, está o mundo cultural dito intervencionista desde sempre (igualmente) carregado, não se poderá negar nunca que ao longo dos tempos houve mulheres que se destacaram nesta prática artística e que esta organização teria aqui uma oportunidade de trazer à superfície os artefactos culturais que a sociedade dominante, patriarcal, frequentemente colocou em segundo plano.

À excepção de Djamal, que não aceitaram participar neste evento, nenhuma das mencionadas, ou outras que ficaram por mencionar, foram convidadas.

Djamal não querer estar presente poderá ser visto como uma tomada de posição. Os seus repertórios viverão, ainda mais, neste novo mas bem velhinho tempo, tal como os das restantes intervenientes.

[1] como citar esta opinião: Simões, Soraia «A hegemonia masculina do hip-hop num dia dedicado à Luta e à Resistência femininas», carta aberta.

fotografia de capa: auto-retrato na penumbra num dia de luz







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Jornada «Mulheres no cruzamento da literatura e de outras artes: mundos ibéricos e ibero-americanos», 13/12/2018

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Jornada «Mulheres no cruzamento da literatura e de outras artes: mundos ibéricos e ibero-americanos», 13/12/2018

Jornada «Mulheres entre a literatura e as artes plásticas», PQ, 13 Dez. ....jpg


13 de Dezembro de 2018, 14h30
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Sala Multiusos 2 (Edifício ID, 4.º piso)


A literatura cruza-se frequentemente com outras artes, como a pintura, a música, o cinema, etc., numa construção intertextual enriquecida de sentidos e produtora de novas demandas. A Jornada «Mulheres no cruzamento da literatura e de outras artes: mundos ibéricos e ibero-americanos» pretende reflectir sobre obras femininas da Península Ibérica e da América Ibérica que fazem o diálogo entre o texto literário e outras expressões artísticas. Para isso, conta com um conjunto de investigadoras de cinco universidades europeias e americanas que analisarão trabalhos de várias épocas e espaços. 
A iniciativa tem entrada livre e enquadra-se nas actividades do CHAM-Centro de Humanidades, em concreto da Linha de Investigação «História da Mulher e do Género» e do Grupo de Investigação «Cultura, história e pensamento ibéricos e ibero-americanos».


Programa (estiveram presentes)

14h30. Sessão de abertura com João Figueiroa-Rêgo (Sub-Director do CHAM), Maria Dávila (coordenadora da linha temática «História das Mulheres e do Género») e Isabel Araújo Branco (coordenadora do grupo de investigação «Cultura, história e pensamento ibéricos e ibero-americanos» do CHAM).

14h40/15h40. Pintura e literatura.
- Marta Martins (Universidade do Estado de Santa Catarina, Brasil): «Visões de mundo em Ana Hatherly».
- Patricia Saldarriaga (Middlebury College, EUA): «La pintura vanitas en “Este que ves engaño colorido” de Sor Juana Inés de la Cruz». 
- Bruno Marques (Universidade Nova de Lisboa): «Como Paula Rego interpreta a Branca de Neve? Literatura, cinema e pintura».

15h40/17h. Literatura e outras artes.
- Cristina Cruzeiro (Universidade Nova de Lisboa, Universidade de Lisboa): «Artisticidade e poética de acção: As Toupeiras».
- Cristiana Tejo (Universidade Nova de Lisboa): Sobre artistas mulheres negras do Brasil que usam a palavra e o discurso como ferramenta de emancipação social.
- Teresa Lousa (CHAM-Centro de Humanidades, Universidade Nova de Lisboa; Universidade de Lisboa): «Remédios Varo: tecedora de sonhos».
- Érica Faleiro Rodrigues (Birkbeck College, University of London; Instituto de História Contemporânea, Universidade Nova de Lisboa): «The Three Marias and the condition of portuguese film on the eve of the Carnation Revolution».

17h/18h. A palavra em diálogo.
- Elaine Schmidlin (Universidade do Estado de Santa Catarina, Brasil): «(Entre)linhas».
- Soraia Simões (IHC FCSH NOVA, Mural Sonoro): «Percursos da invisibilidade: o malsucedido sucesso das primeiras mulheres no RAP em Portugal».

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Podcast Mural Sonoro, Episódios de Outubro e Novembro

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Podcast Mural Sonoro, Episódios de Outubro e Novembro

Xana (Rádio Macau. Intérprete, autora, investigadora)     Este podcast despede-se por agora e  regressa em Janeiro de 2019.    Nos meses de Novembro e Dezembro estarei ocupada nas gravações do documentário     A Guitarra de Coimbra     (RTP2, 2019), com José Ricardo Pinto, duas comunicações e na revisão de um novo livro da minha autoria, que chegará às livrarias também na primeira metade do ano 2019. Sobre isto saberão mais detalhes no próximo ano.    Podem reouvir aqui [1] os episódios do mês de Outubro e Novembro e/ou os que ficaram para (re)ouvir.     Até Janeiro.      [1]  basta picar nas fotografias para (re) ouvir o episódio correspondente.

Xana (Rádio Macau. Intérprete, autora, investigadora)

Este podcast despede-se por agora e regressa em Janeiro de 2019.

Nos meses de Novembro e Dezembro estarei ocupada nas gravações do documentário A Guitarra de Coimbra (RTP2, 2019), com José Ricardo Pinto, duas comunicações e na revisão de um novo livro da minha autoria, que chegará às livrarias também na primeira metade do ano 2019. Sobre isto saberão mais detalhes no próximo ano.

Podem reouvir aqui [1] os episódios do mês de Outubro e Novembro e/ou os que ficaram para (re)ouvir.

Até Janeiro.

[1] basta picar nas fotografias para (re) ouvir o episódio correspondente.

Mitó (A Naifa, Señoritas. Intérprete, Compositora)

Mitó (A Naifa, Señoritas. Intérprete, Compositora)

Maria João (pioneira no jazz em Portugal, intérprete, autora)

Maria João (pioneira no jazz em Portugal, intérprete, autora)

Eugénia Melo e Castro (intérprete, autora)

Eugénia Melo e Castro (intérprete, autora)

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A ELEIÇÃO QUE NUNCA VAI TERMINAR PORQUE UM PAÍS ASSIM O QUER, por Wagner William

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A ELEIÇÃO QUE NUNCA VAI TERMINAR PORQUE UM PAÍS ASSIM O QUER, por Wagner William

[1] por Wagner William

Bolsonaro é fácil de entender.

Difícil é compreender o Brasil.

Descrever o que se passou no país nos últimos dez anos não é um exercício fácil. De 2008 para cá, viramos capa de revista em todo o planeta como exemplo de economia, pelo sucesso... e pelo fracasso. Sediamos uma Copa do Mundo em que a população reclamou muito mais do que vibrou, mas acabou orgulhosa de sua organização... e humilhada pelo 7 a 1. Realizamos até Jogos Olímpicos na cidade brasileira mais conhecida no exterior, pela beleza... e pela violência. Sentimos medo... de rolezinhos e de black blocs

Rolezinho? Black blocs? (Aqui atingimos um ponto de caos. Neste texto e na vida). Definitivamente, explicar rolezinhos – o encontro de jovens das regiões pobres nos elegantes centros comerciais até então (ah, que país) só frequentados por uma hermética classe média alta – e black blocs brasileiros – que surgem em tempos de liberdade e prosperidade econômica e desaparecem (ah, que país) em tempos de crise e repressão – ultrapassa o pretensioso objetivo deste texto. 

Nossa quimérica análise começa por 2008. Foi nesse ano – você deve se lembrar, amigo português – que um maremoto sacudiu a economia mundial. Uma crise que abalou os Estados Unidos, atravessou o Atlântico para atingir Portugal, devastar a Espanha e espalhar-se por toda a Europa. E o Brasil? Ah, aqui sempre é diferente. O presidente Lula, “o cara” conforme classificou Barack Obama, avisou: “vai ser uma marolinha”. E foi. Neste ano de sofrimento no planeta, os números do IBGE apontaram que no Brasil houve expansão em volume do Produto Interno Bruto (PIB) de 5,2% em relação ao ano anterior. É, parceiro, ninguém segurava esse país.

No início deste artigo, o autor já se rendia e garantia que explicar esses dez anos de Brasil não seria fácil. Assim, será necessário apelar e criar agora um brasileiro de ficção, mas tão real que seu nome não poderia ser outro. Vamos chamá-lo de João. Sua profissão não exige uma formação acadêmica. Pode ser um pedreiro ou mecânico. João, que sabia ler apenas palavras mais simples, vive com a esposa e três filhos na periferia de São Paulo, a maior cidade do país, mas sua moradia não possuía encanamento. A casa de banho era uma fossa aberta no quintal. Seu bairro não recebia cuidado do Estado. Não havia transporte, nem saneamento, e muito menos segurança.

Apesar disso, João gostava do presidente. Esse sim, repetia aos amigos, que concordavam com ele. João, homem honesto, não parava de trabalhar. Nunca tivera tanto serviço e juntara tanto dinheiro em sua vida. Decidira-se. Iria pagar do próprio bolso o encanamento e comprar material de construção para melhorar a vida da família. No dia combinado com a loja, o caminhão chegou. Os carregadores desceram e trouxeram a escolha de João. Uma moderna televisão com tela de 50 polegadas.

A casa de banho que esperasse. Afinal, João, que antes só prestava atenção em futebol, passou a ouvir e – até a entender – o seu presidente. Identificava-se com aquele homem. E Lula falava de economia. De um jeito fácil, explicava como as pessoas mais simples, como o João, poderiam agora comprar, comprar, comprar e até viajar de avião. E João acreditou. E assim seguiu. O que Lula pediu, João fez. Comprou tudo que pôde. Trabalhava de domingo a domingo. Um dia, chegou lá. Estava lá. Pela primeira vez, incluído. Não educacional ou socialmente, mas incluído pelo consumo. A onda surfada por Lula seguiu até os primeiros anos de Dilma Rousseff, a nova presidente para quem Lula pediu voto. João obedeceu. Afinal, agora sim, estava incluído. Não sabia, mas entrara para a Classe C, junto com seus amigos e milhões de brasileiros. Segundo o Instituto Data Popular, em 2013 a faixa 25% mais rica da população obtivera um crescimento real na renda de 12%; enquanto a faixa 25% mais pobre aumentara sua renda em 50%.

A inclusão pelo consumo. A lição de Lula. O aprendizado de João. Não só dele. A classe média que contratava os serviços de João foi ao paraíso. A Disney ficava na esquina. Uma vez, João, que conseguiu financiar uma passagem para visitar os parentes no Nordeste, encontrou seu patrão no aeroporto. João notou que isso causou um certo estranhamento, mas não se importou.

Contudo, no mesmo de 2013 em que João e seus vizinhos elevaram os rendimentos em 50%, uma série de protestos, a princípio contra o aumento da passagem de ônibus nas capitais, depois… contra a corrupção, depois… “contra tudo”, e depois… “contra tudo que estava aí”, marcou o fim do crescimento econômico. Surgiram os black blocs em verde-amarelo (aqueles que confundiriam os originais alemães ao protestar na hora errada e desaparecer na hora certa). Houve quem chamou de coincidência, mas não havia como negar. Os protestos marcaram o começo do fim do sonho brasileiro. Para mantermos o PIB como referência: em 2013, o crescimento foi de 2,3% em relação ao ano anterior. Em 2014, o número despencou para 0,1%.

João não soube desses números, mas os sentiu. Teve dificuldade para pagar o smartphone que comprara em dez prestações na livraria do centro comercial em que seu filho fazia rolezinho (com a crise, o número de rolezinhos diminuíra muito). Ao amigo português, uma outra explicação: as livrarias no Brasil vendem smartphones, videogames, notebooks e outros produtos com nome em Inglês. Vendem também livros, porém, refletindo o interesse da população e do estímulo que recebia de seu governo, cultura não era prioridade. Irritado e sentindo-se traído, João acompanhava as notícias sobre a corrupção na sua TV de 50 polegadas. Também assistia à programas populares de debates e entrevistas que, vira e mexe, convidavam um deputado que atacava o governo e defendia a ordem e o combate à corrupção.

E como esse deputado aparecia na televisão! João passou a gostar daquele homem. Ria de seu jeito exagerado e até, vá lá, concordava com algumas de suas ideias. Vibrava ao ouvir o deputado, um ex-militar, criticar a roubalheira do governo e dos deputados e defender uma radicalização na política de segurança. Os patrões de João, que agora o contratavam para serviços esporádicos, também reclamavam. João mesmo já havia sido assaltado duas vezes. O dinheiro que os ladrões levaram fez falta. Já não havia muita oferta de trabalho. Enfim, João percebera que estava de volta àquela linha que os economistas classificam de “da miséria” e por lá ficaria nos anos seguintes, informando-se pela TV (não mais a de 50 polegada, qe eu tivera de vender, mas uma outra bem menor) e confiando nas denúncias que recebia dos amigos pelo Whatsapp. Em uma livraria, nunca mais pisou.

Cada vez mais decepcionado, João ficou inconformado de vez quando sua TV lhe contou que Lula era dono de um sítio no Guarujá e de um tríplex em Atibaia. Ou algo assim, já que não entendeu direito, mas como a TV falava que aquilo era ruim, era melhor acreditar. Nem se abalou quando seu ex-ídolo foi preso. Porém, não se esquecia era daquele deputado, Jair Bolsonaro, cidadão honesto, correto, direito, religioso, um patriota defensor da moral, dos valores da família, dos bons costumes. João nunca entendeu porque algumas pessoas falavam tão mal daquele homem. Quando soube que ele seria candidato a presidente, decidiu-se na hora. Seu voto era dele.

A visão pueril e simplista apresentada até agora cobre apenas uma faceta do enorme e variado eleitorado de Bolsonaro, mas, acredite, baseia-se em uma pessoa real e foi escolhida porque nele se concentra a mais profunda mudança, não de ideologia, mas de sentimento. Isso aqui não é um país feliz. Há muito mais atrás dos votos de Bolsonaro. Está tudo lá, gritando nas urnas que o elegeram. Bolsonaro explica-se por ter vomitado tudo isso na cara do eleitor. Das mais racionais decisões ao pior do ser humano. 

Na escolha de quem rejeitava totalmente o PT a quem simplesmente defendia uma política de livre mercado sem interferência do Estado. 

De quem fez campanha por Lula contra os velhos donos do poder e sofreu ao descobrir que esses donos do poder estariam em seu governo.

De quem se desencantou ao perceber que seus antigos ídolos – dessa vez, aqueles que combatiam Lula - eram os primeiros a ter conta na Suíça. 

De quem não recebeu um estímulo de cultura e conhecimento a quem achava que estava informado ao ler seu Whatsapp. 

De quem estava cansado de ter medo de sair de casa e ser assaltado.

De quem até não queria Bolsonaro, mas via a presença de Lula em qualquer outro candidato. 

De quem adorava ver um juiz dando ordens (corretas ou não, pouco importa)… e como o brasileiro gosta de receber ordem…

De quem  pensava que políticas de inclusão social faziam mal a um país. 

De quem não sabia o que dizia, mas se dispunha a lutar pela própria ignorância.

De quem votou em Jânio Quadros e arrependeu-se. De quem aplaudiu o Golpe Militar e arrependeu-se. De quem votou em Fernando Color e arrependeu-se. De quem achou que a saída de Dilma iria consertar o país e arrependeu-se.

De quem - estava lá no Whatsapp - acreditava que o Brasil poderia ser dominado pelo Comunismo.

De quem até gostava de sua empregada doméstica (fenômeno social tão brasileiro), mas almoçar na mesma mesa com ela já era demais.

De quem cevava um sentimento de ódio a homossexuais, mas reprimiu sua opinião até encontrar naquele  candidato tudo que desejava.

De quem achava que a minha autoridade era ruim , mas a dele era ótima.

De quem ama arma de fogo.

De quem concordava que a ditadura militar matou muito pouco.

De quem sempre quis ser torturador.

De quem pedia a morte como solução.

Como toda tragédia brutal que se preza, Bolsonaro presidente é resultado de uma conjunção perfeita de uma série de inúmeros  desastres, tolerados costumes, adversidades, fatos concretos, azares e desgraças a que o brasileiro estava cegamente acostumado. 

[1] para citar esta opinião: **William, Wagner «A eleição que nunca vai terminar porque um país assim o quer», plataforma Mural Sonoro, em 3 de Novembro de 2018, https://www.muralsonoro.com/recepcao.

Fotografia de capa: Avenida Paulista, São Paulo no dia da eleição de Bolsonoro, nuvens assustadoras (Wagner William em São Paulo)

*Jornalista e Escritor, Prémio Vladimir Herzog de Jornalismo

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O ódio e suas tecnologias, por Susan de Oliveira

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O ódio e suas tecnologias, por Susan de Oliveira

[1] por Susan de Oliveira

A extrema-direita se impôs no Brasil pela primeira vez através do voto. Levou ao poder Jair Bolsonaro e para isso promoveu não só um fenômeno eleitoral mas uma profunda alteração cultural e política.

A maioria relativa que levou à eleição de Bolsonaro é adepta das ideias do ex-capitão mas se define como descrente nas suas ameaças e se diz, sobretudo, antipetista. Por sua vez, o antipetismo não se reduz ao bolsonarismo que se nutre do racismo e do machismo estruturais, da manipulação do fundamentalismo evangélico e de ideias nazifascistas latentes na sociedade sendo sua resultante a violência racial, de gênero, contra os pobres, a intolerância religiosa e ideológica generalizadas cultivadas sob o rótulo de anticomunismo.

O antipetismo é um fenômeno complexo de várias nuances que abarcam, por exemplo, tanto uma crítica à esquerda, partidária e acadêmica, como a repulsa racista das elites brancas e liberais às políticas de inclusão dos pobres e negros feitas no governo Lula. O vários tipos de antipetismo, no entanto, seguramente têm seu mais enfático pressuposto no discurso anticorrupção. O discurso contra a “corrupção do PT”, principal partido de centro-esquerda que governou o país por três mandatos consecutivos, dois de Lula e um de Dilma (o segundo dela foi interrompido por um golpe jurídico-parlamentar), se tornou um pressuposto amplamente aproveitado eleitoralmente mesmo sendo o PT apenas o 9º partido da lista em que figuram políticos envolvidos em processos e sendo os governos petistas os que mais produziram as condições técnicas e institucionais para o combate à corrupção. Praticamente todos os partidos de direita estão à frente do PT nesta lista.

A propaganda do combate à “corrupção do PT” foi implementada pela Operação Lava Jato, conduzida pelo Juiz Sérgio Moro que será o Ministro da Justiça do governo Bolsonaro, e se tornou famosa com a prisão do ex-presidente Lula que teve sua participação impedida no processo eleitoral o qual, é bom que se diga, ele venceria por larga margem de votos.  Desde então, este se tornou um conhecido processo de lawfare e o mais importante caso de prisão política no Brasil desde a ditadura militar em face da ausência de crime e de provas em sua sentença condenatória e finalmente com a sua exclusão do processo eleitoral.

O PT chegou como sobrevivente à disputa presidencial com Fernando Haddad, um substituto escolhido por Lula, que fez uma campanha de ascensão vertiginosa em pouco mais de 30 dias. Obteve um votação expressiva dentro de um quadro de poucos apoios e muitas fake news que deram um rumo absurdamente violento nos momentos decisivos da campanha eleitoral, tanto nas vésperas do encerramento da primeira volta como da segunda. Mentiras foram criadas e distribuídas em ritmo e proporção industrial para difamar e criminalizar Fernando Haddad de forma abjeta. Milhares de disparos das fake news em grupos no WhatsApp teriam sido pagos ilegalmente por empresários, conforme noticiou o Jornal Folha de São Paulo, no dia 19 de outubro, tendo como consequência o cancelamento pelo próprio WhatsApp de mais de cem mil contas de agentes ligados à tal distribuição.

A estratégia da difamação foi bem sucedida na eleição de Donald Trump e utilizada no Brasil por influência do seu idealizador, Steve Bannon, consultor de estratégia eleitoral da família Bolsonaro e do seu partido, PSL.

A reação moralista às mentiras escandalosas contra Haddad foi estimulada pelo fundamentalismo religioso em longos cultos nas igrejas e visava sobretudo atingir o eleitorado evangélico onde Bolsonaro tem seu principal apoio e cujo máximo expoente é o Bispo Edir Macedo, dono da IURD e da Rede Record, agora chamada de “Fox brasileira”.

O efeito moral das fake news direcionadas ao eleitorado evangélico, no entanto, foi detectado no dia seguinte às gigantescas manifestações do Movimento #EleNão (Mulheres contra Bolsonaro) convocadas por grupos no facebook e ocorridas no dia 29 de setembro. Uma expressiva vantagem numérica nas pesquisas de intenção de votos chamou a atenção para o que se produzia no submundo das redes sociais:  imagens manipuladas de outras manifestações que continham nudez e contestação religiosa foram associadas às manifestações. Tudo absolutamente inverídico para o evento realizado mas devastador para as pessoas mais humildes e conservadoras atingidas pelo dispositivo de manipulação psicológica criado pelos processos de seleção de público da Cambridge Analytica.

Naquele momento, portanto, se deu a irreversível assimilação de segmentos da centro-direita conservadora e das classes populares evangélicas à candidatura Bolsonaro mudando a correlação de forças na disputa eleitoral.

O bolsonarismo que trinfou eleitoralmente junto com Bolsonaro foi forjado pela reunião de fobias, desinformação, mentiras e manipulações vulgares e percebeu-se que o ódio e a violência foram ativados especialmente por questões morais suscitadas no ambiente das obscuras tecnologias de informação e pela manipulação de dados obtidos ilegalmente de perfis pessoais.

Isso se somou ao efeito dramático do atentado à faca sofrido por Bolsonaro ás vésperas do Dia da Independência, um feriado militar que evoca o outro elemento que potencializa a violência e canaliza os moralismos para a memória da ditadura e da “solução final” de todos os “inimigos” internos.

Um mês depois da facada que “humanizou” Bolsonaro, a primeira volta das eleições deu uma expressiva vantagem de votos a qual elevou ao grau máximo as tensões da campanha e deflagrou uma série de ataques, com cinco mortes, contra eleitores de Fernando Haddad e minorias. O primeiro a morrer foi Mestre Moa do Katendê, um artista popular negro, conhecido capoeirista e músico da Bahia. Ele recebeu doze facadas de um bolsonarista por ter declarado voto em Haddad.

A morte de Mestre Moa criou uma comoção nacional mas, ao contrário do que se poderia esperar, não serviu como advertência e estimulou que houvesse mais de oitenta casos de agressões e outras quatro mortes:  três de mulheres transexuais, Priscila, Laysa e Kharoline, assassinadas a facadas, culminando com a execução de outro jovem negro, no Ceará, Charlione Lessa Albuquerque, este com quatro tiros, às vésperas do término das eleições.

Os vencedores estão agora nas ruas prometendo implementar a nova ordem assim que forem liberados a posse e o porte de armas, movidos por ódio e um empenho moral de limpeza política, social e racial vasculhando os porões da escravidão e da ditadura militar reabilitando torturadores e genocidas à história, coisa que o próprio Bolsonaro já fez várias vezes e reiterou recentemente com suas ameaças de eliminação partidos, lideranças e ativistas de esquerda, como Marielle Franco, e dos movimentos sociais, como MST e MTST.

Não se sabe ao certo que medidas serão tomadas contra as liberdades civis e políticas das que foram anunciadas por Bolsonaro, mas restou o bolsonarismo que mesmo sem manifestar-se como uma ameaça real, criou a desconfiança de quem está ao nosso lado, o ódio entre conhecidos e familiares, a ruptura dos afetos e da comunicação, a demonização dos corpos e pensamentos que compõem o cenário de terror ao atravessar a rua.

Como conviver com o fascismo é o nosso desafio. Combinamos de não soltarmos as mãos de ninguém, de não nos deixarmos morrer, mas antes fosse a luta pela própria sobrevivência o que mais importa, embora tenhamos medo. Na verdade, enquanto o fascismo cresce entre nós, são negociados os projetos mais brutais do ultra-liberalismo que serão aprofundados para além do governo Temer e nos farão descer ao pré-sal da colonização com Bolsonaro aos pés de Trump e Netanyahu. E é disso que se trata:  o ódio bolsonarista forjado no antipetismo serve à ganância do sistema financeiro, à guerra e à predação mortal contra todos os seres vivos que levam um governante a ameaçar de extermínio o próprio povo: não haverá Amazônia, segundo o presidente eleito, “nem um centímetro para quilombola ou reserva indígena”. Nos resta atravessar a rua.

[1] para citar esta opinião: * Oliveira, Susan de, «O ódio e suas tecnologias», plataforma Mural Sonoro, em 2 de Novembro de 2018, https://www.muralsonoro.com/recepcao.

*Susan de oliveira, professora de literatura e pesquisadora brasileira (UFSC)

Fotografia de capa: Mestre Moa



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Uma Terra em Brasa, por Pedro Calasso

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Uma Terra em Brasa, por Pedro Calasso

[1] por Pedro Calasso


Nunca imaginei viver um momento como este.

Não desta maneira. Sempre achei que algo crítico aconteceria.

O clima morno, panos quentes e séculos de sujeira varrida pra de baixo do tapete, inevitavelmente seriam trazidos à tona como uma infecção que é expulsa de um organismo que não mais a suporta.

Pensei porém que essa luta seria travada de forma clássica, entre o povo e seus opressores, numa nítida luta de classes onde esses inúmeros brasis de matrizes indígenas, africanas, européias e orientais se uniriam e cobrariam dos menos de 10% da população que detêm a riqueza do país, o fim dessa exploração desmedida ao qual nos submetem há tanto tempo.

O Brasil tem mais de 300 nações indígenas, com línguas e culturas distintas, cerca de 400 ritmos afrobrasileiros, sendo que na África inteira existem por volta de 200. Tem a maior colônia japonesa fora do Japão, tem turcos, libaneses, sírios, portugueses, espanhóis, italianos e alemães entre outros povos e culturas, fazendo com que o povo brasileiro, tão bem descrito nas obras de Darci Ribeiro, seja o povo mais miscigenado e multicultural do planeta.

Na rua e nas massas todo povo é povo.

Somos generosos e donos de uma cultura intensa, plural e viva.

Mas na relação com o Brasil que manda, com o Brasil do poder e do capitalismo propriamente dito, provavelmente somos o país mais injusto do mundo.

O racismo nesse âmbito é cruel e mata.

O descaso, a ganância e a crueldade varrem nações indígenas inteiras do mapa.

O pobre, independente de sua cor ou descendência, representa uma ameaça ao estilo de vida da elite e precisa ser combatido.

Aqui, matar pobre, jovem, mulher, preto e homossexual é institucionalizado.

A fortuna e o conforto de dúzias de famílias sempre ditaram nossa sorte e exatamente contra isso e pela verdadeira libertação do pobre, do preto e do indígena, que ainda vivem sob o cabresto de seus senhores é que achei que lutaríamos juntos, como um só povo.

Mas na contramão à minha crença e usando de toda forma de artifícios, fomos rachados ao meio, numa manobra precisa da extrema direita aliada a um grupo de investidores, tornando possível à alguém como Bolsonaro chegar ao poder através do voto aberto.

Os problemas reais da economia brasileira, o sistema político e financeiro corruptos e o momento delicado da economia mundial foram usados de forma ardilosa por um grupo que representa os interesses de investidores multinacionais, que através a derrubada de Dilma Rousseff (PT) da presidência e a demonização da esquerda brasileira, chegaram ao poder.

Com a ajuda de um especialista de renome internacional em manipulação da opinião pública e de boa parte da “grande mídia brasileira”, plantou-se a ideia de que todos os problemas seculares de nossa nação foram criados ou aprimorados durante os anos do PT na presidência e que vivemos sob a ameaça de uma “ditadura comunista”.

Através de um investimento ilícito e milionário foi desenvolvida uma campanha sofisticada para disseminação de fake news banalizando movimentos populares, promovendo o ódio pela esquerda e o antipetismo que se multiplicou dentro de vários setores da sociedade.

Essa massa no geral é formada por pessoas inconformadas com os problemas no sistema público e a corrupção no país e que foram absorvidas por esse conceito de antipetismo, também por empresários que vêem nesse governo a possibilidade de enriquecimento, além de extremistas, fascistas e fundamentalistas religiosos, que se juntaram num coro quase insano de ódio e intolerância a favor do armamento da população, da diminuição da maioridade penal, da atribuição do poder de execução dado às polícias, da perseguição aos homossexuais, às religiões afro-brasileiras, às nações indígenas e mais uma série de conceitos nazi fascistas.

Meio a tudo isso acabamos polarizados, somos nós e eles, eles e nós e não estou falando dos extremistas ou empresários não, estou falando é do povão mesmo.

Fomos divididos para que eles pudessem conquistar o poder e nessa divisão é que mora o perigo.

Vivemos na iminência de uma guerra civil, um golpe militar e uma cooperação militar entre Bolsonaro e Trump para uma possível invasão na Venezuela.

O armamento pesado “doado” pelo governo norte americano chega aos montes.

Existe ainda o desejo de multinacionais de minerar em plena floresta amazônica e de se ampliar exponencialmente a área utilizada pelo agronegócio brasileiro e para isso será preciso derrubar todas as leis de proteção ambiental, o que está em curso com a “fusão” do Ministério do Meio Ambiente com o Ministério da Agricultura.

Que isso tudo vai dar em algum lugar terrível para o Brasil e o planeta já é certo.
Tendo a acreditar que disso tudo há de nascer algo bom, uma esquerda renovada, uma sociedade mais justa, novas manifestações e movimentos artísticos, pois como resposta à barbárie temos o costume de mostrar o nosso melhor.

O quanto isso irá nos custar?, é o X da questão.

[1] para citar esta opinião: *Calasso, Pedro «Uma Terra em Brasa», plataforma Mural Sonoro, em 1 de Novembro de 2018, https://www.muralsonoro.com/recepcao.

*Músico e compositor brasileiro

Fotografia de capa neste artigo: montagem de Pedro Calasso para Mural Sonoro.




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O que nos resta do regime militar, por Diego Pacheco

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O que nos resta do regime militar, por Diego Pacheco

[1] por Diego Pacheco

Já tarda de muito, o momento em que a Revolução se houvesse institucionalizado realmente, garantindo ao País a segurança de que, numa perspectiva de longos anos, tudo poderá ocorrer sem sucessivos retornos a medidas revolucionárias.

Gen. Golbery de Couto e Silva (Chefe da Casa Civil do governo Geisel, 1974)


O regime autoritário brasileiro distinguiu-se pela prolongada existência e preservação da capacidade de intervenção militar, com a presença no poder de um grupo dirigente voltado para a questão da institucionalização política, seja ao assumir a condução do Estado em 1964, seja ao comandar a lenta transição até à constituição de um governo civil em 1985.  

Assumindo a liderança do regime em 1974, o general Ernesto Geisel que em nenhum momento acenou com a possibilidade de eleições livres e diretas para a escolha do próximo presidente, tal como exigia a oposição democrática, deixou bem claro que os instrumentos de exceção permaneceriam "até que sejam superados pela imaginação criadora, capaz de instituir, quando for oportuno, salvaguardas eficazes dentro do contexto constitucional". O objetivo que se desenhava, assim, continuava a ser o da institucionalização de um regime que anunciava medidas liberais, mas as condicionava à consolidação do projeto autoritário.

A implementação das medidas liberalizantes iniciadas por seu governo estava condicionada à institucionalização de um tipo de regime autoritário com restrições democráticas, o que significa que no projeto de distensão/abertura, a retirada das Forças Armadas da direção do Estado implicava mais do que a sua substituição por um esquema civil de confiança baseado no partido do governo, de modo a preservar os interesses institucionais das corporações.

Como integrantes do aparelho de Estado, os militares deveriam continuar a exercer sua influência sobre as questões em discussão pelos atores do sistema político e da sociedade civil, a fim de garantir a institucionalização de um poder político voltado, sobretudo, para moderar a participação popular tanto na constituição de governos quanto na formação das suas decisões.

Se retirando das instituições de poder político no decorrer da década de 1980, os militares acompanharam a sucessões de governos civis iniciados por um membro da ARENA, José Sarney, seguido por uma intensa crise no novo sistema político brasileiro: o impedimento do primeiro presidente eleito Fernando Collor de Melo em 1992.

Com a estabilização da economia e a contenção do grave problema inflacionário, o sistema polítco brasileiro passou por um período da estabilidade e de ascenção das classes populares, gerando maior distribuição de renda, combate a fome e a miséria, problemas antigos brasileiros, agravados inclusive durante o período ditatorial na segunda metade do século XX.

Com a crise econômica no final da primeira década do século XXI a social democracia brasileira, no governo há mais de uma década, passou a ter dificuldades em manter sua política de atendimento das demandas populares e, ao mesmo tempo, manter as altas taxas de lucros do sistema financeiro e de setores empresariais que ainda sustentavam seus governos. Perdendo o apoio de parte da sociedade, o pacto socialdemocrata se rompe, inviabilizando o governo Dilma Rousseff por meio de um entrave legislativo e uma sistemática campanha mediática que cobrava ao governo por medidas liberais que estancasse o gasto público com programas sociais e de investimento em serviço público.

Assim como em outras partes do mundo, a campanha contra a socialdemocracia passou a relacionar os gastos públicos com a bandeira sempre útil da corrupção, chamando a atenção da sociedade civil para a relação promiscua entre empresas e o estado, onde empreiteiras se beneficiavam de contatos políticos para garantir licitações e aumentar ainda mais seus lucros em troca de apoio político e financeiro.

Com a crescente perda de credibilidade da socialdemocracia, com o profundo fisiologismo dos partidos de centro e com a debilidade política da democracia cristã, a resposta mais imediata da direita brasileira é em revisitar um passado mítico do regime militar. Isso só é possível graças ao projeto bem sucedido de institucionalização do regime, que, além de controlar todo o processo de anistia política, inclusive com a ideia de auto anistia, manteve instituições policiais e jurídicas criadas no periodo autoritário, chamados por muitos de entulhos autoritários.

Tais entulhos jamais foram retirados da sociedade brasileira. O elogio à tortura, a violência política e a ascensão da ultradireita brasileira só é possível devido ao sentimento romantizado acerca de um período que como sociedade nunca fomos capazes de encarar criticamente nas escolas. A discussão sobre Ditadura Militar nunca saiu efetivamente dos muros acadêmicos. O sucesso de sua institucionalização se deu sobretudo por meio de um pacto de silêncio dos mais diversos atores políticos que hoje se tornam vítimas de seus próprios contratos.

[1] para citar esta opinião: *Pacheco, Diego «O que nos resta do regime militar», plataforma Mural Sonoro, em 1 de Novembro de 2018, https://www.muralsonoro.com/recepcao.

*Professor, historiador, pesquisador brasileiro (UFSC)


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