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Era uma vez...um magnífico Tarantino,  por Soraia Simões

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Era uma vez...um magnífico Tarantino, por Soraia Simões


[1] por Soraia Simões

Já muito foi escrito e dito acerca de Once Upon a Time in Hollywood (2019), o novíssimo de Quentin Tarantino, escrevo hoje um pouco sobre as duas histórias que nesta obra se cruzam,  e a selecção musical do filme.

Tarantino, entre planos de cima (bastantes), cenas longas (muitas), mistura de factos reais com ficção, desenvolve ao longo de todo o filme o seu conhecimento profundo da cultura popular americana: sobretudo do cinema da época e da música popular. 

Ao longo de cerca de duas horas e cinquenta minutos, assistimos a uma obra prenhe de detalhes, convém nunca desviar o olhar, nem sequer nas cenas e nos planos de maior durabilidade, eles estão repletos de referências, celebrações a autorias significativas na história da cultura popular do século vinte, de homenagens.

 

O realizador põe Brad Pitt a interpretar o duplo Cliff Booth, duplo  e amigo inseparável de Rick Dalton, interpretado por Leonardo DiCaprio, uma estrela de filmes e séries de televisão em decadência, votado ao abandono pela grande indústria americana (como tantas vezes sucedeu ao longo da história daquela que continua a ser a maior indústria do mundo), com uma fraca auto-estima (há uma cena em que ele se esquece das suas falas/do seu texto, das suas deixas) e que busca reacender a todo o custo o seu percurso como actor, é aqui que aparece Al Pacino, e vai reaparecendo em cenas mais curtas com um desempenho brilhante (tal como Di Caprio, talvez o melhor papel/interpretação da sua carreira até ao momento). E qual a solução apontada por Al Pacino (o produtor Marvin Schwarz), no papel do entusiasta agente de Rick Dalton, para reanimar o seu percurso de actor e estrela? Os spaghetti western, que levam Rick e o duplo Cliff até Itália. 

Em paralelo com esta história ficcionada decorre uma outra que nos relembra simbolicamente aquele dia 9 de Agosto em 1969 e o ataque desprezível, terrorista, realizado pela seita de Charles Manson no número 10050 de Cielo Drive, em Los Angeles, a moradia onde viviam o cineasta Roman Polanski e a actriz Sharon Tate (aqui exemplarmente protagonizada pela actriz Margot Robbie: há uma cena longa numa sala de cinema onde a actriz se revê na tela, nesta cena assistimos simultaneamente ao seu feliz desempenho e a uma bonita homenagem de Tarantino a Sharon Tate). Esse facto, o assassinato de Sharon Tate grávida na altura de oito meses de Polanski (aqui interpretado por Rafal Zawierucha) e dos quatro amigos que com ela estavam nesse dia é subvertido (a parte sanguinária, ao estilo Tarantino, do filme). Tarantino coloca a sua arte/a sua genialidade para vingar, na ficção, a história verdadeira. O plano dirigido por Manson e levado a cabo por um grupo de jovens hippies rendidos à seita vira-se contra si, graças a Rick Dalton e ao seu duplo Cliff Booth. 

É nesta cena final que Rick Dalton entra pela primeira vez na casa dos Polanski, ele que confidenciava ao amigo e duplo Cliff Booth logo no início do filme, talvez a pensar numa possível salvação para a sua carreira a apontar no sentido descendente, que mudar-se para Cielo Drive era viver onde a nata, crème de la crème, da indústria cinematográfica estava, até Polanski!

 

Tarantino já mencionou em algumas entrevistas que «visualizou» e iniciou muitos dos seus filmes a partir da escolha das músicas que não lhe saíam da cabeça. Foi, curiosamente, sempre isso o que mais me marcou nos seus filmes, a banda sonora que enfatiza as cenas, as eleva para um outro universo interpretativo.

Tarantino nunca tocou qualquer instrumento musical, mas possui uma cultura musical popular vasta e expressa-a nos seus filmes.

A companheira, Daniela Pick, é intérprete, o padastro do cineasta, pianista, tocava em bares à noite e Mary Ramos, a mulher que trabalha com Tarantino há mais de uma década na escolha da música para os seus filmes, terão com certeza uma quota-parte de responsabilidade nisso.

Em Once Upon a Time in Hollywood ouvimos a rádio KHJ, e um pouco desses EUA em que o realizador cresceu (entre um conjunto de referências ao cinema, à música e à cultura popular de finais dos anos cinquenta e dos anos sessenta do século vinte), o filme está impregnado de uma certa nostalgia desse período sob os pontos de vista visuais, sonoros e musicais, por muito rock'n'roll e muita soul. 

Com uma atenção detalhada ao período em que a história se passa e em que as gravações/edições decorrem, ouvimos Vanilla Fudge, Deep Purple ou Paul Revere & the Raiders, Bob Seger System, Dee Clark, Neil Diamond e até o «California Dreamin» de Jose Feliciano. Tudo na cena certa, bem enquadrado.

Habitualmente Tarantino usa e abusa da sua vasta colecção de discos caseira, aqui as canções saem não da sua discoteca privada mas do acervo da rádio KHJ entre 1964 e 1974, que desfila magistralmente ao longo do filme. O realizador faz um trabalho de investigação histórico-musical detalhista. No acervo encontrou samples usados pela KHJ  nesse período, jingles e muito do ambiente sonoro e musical local e ele é-nos transmitido de modo irrepreensível.

O realizador já fez saber em variadíssimos jornais que a sua colecção é gerida de forma intuitiva, ela alberga vídeos, discos, folhetos de cinema, livros de bolso e posters de filmes.

A relação de Tarantino com a música, tal como com o cinema, sempre foi autodidacta, com a música deu-se especialmente através dos fonogramas, de cassetes e de lps, assim como do audiovisual. Tarantino é a expressão máxima de como alguém com muita experiência, calo, paixão, e um olhar atento, crítico, sobre o mundo em que se insere se pode transformar num dos autores mais interessantes das últimas décadas do século vinte e do século vinte e um.

Tarantino regressou viçoso, como nos tempos dos Pulp Fiction e Jackie Brown…

 

 

[1] Soraia Simões para Esquerda.Net.

Fotografia/frame retirada ao portal The Verge

director de fotografia do filme: Alexi Lubomirski

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