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Sarfraz Manzoor

Blinded by the Light,  por Soraia Simões de Andrade

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Blinded by the Light, por Soraia Simões de Andrade

[1] por Soraia Simões de Andrade


Greetings From Bury Park é o livro de memórias do jornalista Sarfraz Manzoor que inspirou o mais recente filme da realizadora  Gurinder Chadha, Blinded by the Light.



Na obra autobiográfica de Manzoor, cuja leitura aconselho antes da visualização do filme, o jornalista descreve-nos as angústias e expectativas, a desordem interior, vivenciados por um jovem que cresce num subúrbio de Luton, cidade situada no sul de Inglaterra e a norte de Londres e integrante até 1997 (antes da sua autonomia) do condado de Bedfordshire, durante a década de oitenta.  

Na narração das suas memórias, Manzoor mostra-nos  como a descoberta tardia da obra discográfica de Bruce Springsteen teve um poder transformador no seu quotidiano, nas suas escolhas pessoais e profissionais, no autoconhecimento e numa melhor apreensão das vidas dos outros (família e raízes, sociedade britânica e as suas divergências político-culturais).

A transposição da história do papel para a tela, aparentemente simples porém transformadora, é realizada em cima de um argumento coerente, sem grandes manipulações (não seriam necessárias) sublinhando os eixos da biografia original: a adolescência, a imigração, os arroubos de esperança e o sonho por um lado, e por outro: a afirmação sociocultural da personagem central, a sua distinção do ''eu'', dos ''outros''  e do lugar do ''outro'' no espaço e no tempo em que a história se desenvolve.



Estamos em pleno  tacheterismo, num tempo marcado pela reeleição (1987) da, ainda hoje apelidada na imprensa em todo o mundo como, Dama de Ferro e um jovem liceal descendente de imigrantes oriundos do Paquistão de nome Javed (interpretado por Viveik Kalra) procura lidar com a sua solidão, o racismo diário, as primeiras paixões, o desemprego da família (nomeadamente do pai, trabalhador durante quinze anos na Vauxhall, uma empresa de montagem de veículos da General Motors para o Reino Unido).

Javed é um jovem inglês que frequenta o liceu local, é oriundo de uma família paquistanesa imigrada. É um dado óbvio, irrefutável, que é britânico, nasceu em Inglaterra, mas será assim? 

Não o parece ser para a família, nomeadamente o pai, Malik (interpretado pelo actor Kulvinder Ghir), um paquistanês conservador, com traços autoritários, machista, nada reivindicatório — são várias as cenas que nos apresentam um pai a "baixar a cabeça'', sem fazer ''grandes ondas'',  perante discursos e acções racistas sobre a sua família no país em que escolheu viver e trabalhar, na mesma medida em que nos é apresentado o seu despotismo dentro de casa exigindo, assim que perde o seu trabalho na Vauxhall, que a mulher, a costureira Noor (interpretada pela actriz Meera Ganatra) trabalhe cada vez mais dentro de casa (há uma cena em que Noor vende as suas jóias no penhor acompanhada do marido, o objectivo era pagar as contas de casa), que os filhos estudem para ter profissões as quais crê  ''mais aceites'' na sociedade inglesa e ''favorecedoras'' para um paquistanês, como ser advogado (algo que Javed, com a ambição de se tornar escritor, não aceita), tudo isto com a finalidade de conseguir dar a volta à frágil situação financeira que o seu despedimento, ao fim de quinze anos, da empresa de montagem automóvel provocara.

Também não o parece ser para os outros jovens residentes em Luton e no resto do Reino Unido. Há quatro cenas de explícita violência verbal e escrita: num Mural, na rua onde vive Javed com a família, um grupo de jovens nacionalistas picham ''fora paquistaneses'', numa reunião do pai Malik com uma outra família paquistanesa residente em Luton um grupo de crianças urina para a porta de casa dessa família gritando palavras de ódio racial vendo-se o marido a pedir à esposa para limpar sem ''levantar grandes ondas'' porque afinal tinham sido ''aceites'' num país que não era o deles, numa cena exterior, enquanto a família de Javed se dirige para o casamento da irmã mais velha do jovem, o carro onde iam é parado pela polícia local por estar a decorrer uma manifestação que opõe um grupo nacionalista a um movimento anti-racista, o pai acaba espancado no dia de casamento da filha mais velha.

Ao longo destas cenas vemos um jovem paquistanês, Javed, em crescimento pessoal e relacional, que descobriu através das cassetes de Bruce Springsteen, partilhadas pelo amigo e colega de liceu Roops (interpretado por Aaron Phagura), fã ''do Boss'', a sua força, que encontrou naquelas letras aquilo que o ajudou a compreender-se bem como à doutrinação e aos receios do pai, a que lhe deu ânimo para lidar com a exclusão praticada pelo conservadorismo social e a Frente Nacional. 

Com a ajuda da namorada inglesa Eliza (Nell Williams) uma activista anti-racista também ela oriunda de uma família inglesa conservadora, o amigo aspirante a frontman de uma banda Matt (Dean-Charles Chapman), fã dos sintetizadores, que achava que Bruce Springsteen estava ultrapassado e a quem Javed escrevia as letras para a banda e uma professora de literatura inglesa, Ms Clay (interpretada pela actriz Hayley Atwell) o jovem traça o seu caminho e a sua revolução.

Os diários nos quais Javed arrola os seus pensamentos quotidianos desde criança conjugam-se com as descrições que encontra no repertório literário de Bruce Springsteen.

Na festa de finalistas em Luton, onde são destacados os melhores alunos, Javed tem a família e o amigo Roops comovidos  a assistir ao seu discurso. Reconcilia-se com o pai neste momento, há uma fala (divertida) nesta cena, depois de o abraçar Malik exclama ''Tens a certeza que este Bruce não é paquistanês?''.

Na cena final Javed segue com o pai à pendura no carro do mesmo, para a universidade de Manchester onde acabaria por se formar, o pai troca a cassete de língua hindi (a lembrar o género Bollywood) que tocava habitualmente no seu carro por uma de Bruce Springsteen.

Já vários cinéfilos escreveram que o que Gurinder Chadha, autora também dos Bend It Like Beckham (2002) ou Paris, je t'aime (2006) fez em Blinded by the Light foi um registo em movimento, em vários momentos repetitivo, previsível e excessivo, para prender multidões.

Não concordo. 

As divisas austeras, por repisadas que sejam/nos possam parecer, se persistem no mundo contemporâneo há que combatê-las. Na linguagem possível. Se for comercial, que se assuma e seja lógica na estrutura narrativa. E é-o.

O que esta história nos mostra não é só que há algo de premonitório nas letras de uma canção popular e que elas foram, pela contundência dos relatos, importantes para milhares de imigrantes, trabalhadores, jovens em todo o mundo e em todas as gerações, mostra-nos também que uma das funções do cinema pode ser mesmo a de salvar vidas, sairmos de lá pessoas um pouco melhores, menos preconceituosas. Esta indica-nos sobretudo a entrar, um pouco que seja, nas cabeças e nas vidas, por repetitivas e incomodativas que sejam, dos ''outros''. 


[1] opinião, texto para Esquerda.Net.

[2] frame do filme retirado ao portal IMDb.

[3] "I'll Stand By You" de Bruce Springsteen, versão original no filme.

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