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Alta e Baixa Cultura

Metrónomo em tempo indefinido, por Soraia Simões

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Metrónomo em tempo indefinido, por Soraia Simões





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[Fotografia de, e cedida por, Daniel Gouveia no âmbito desta investigação. Tirada em Mangando, concelho de Marimba, distrito de Angola, ano 1969].



Desde que me lembro de ser gente que a música sempre esteve presente em minha casa, na minha vida.

Devo isso ao meu pai, que era um amante de música, da clássica (foi com ele que, antes de ter idade para falar correctamente sequer, ouvi/''percebi'' o que era Chopin, Tchaikovsky, Brahms, Schubert ou Puccini) à popular (nas mais diversas tipologias, mas especialmente rock progressivo e jazz). Daí, talvez, que passar pelo Conservatório na fase infanto-juvenil do mesmo modo que, na minha adolescência, acompanhei as trajectórias de grupos de 'rock alternativo' (designado movimento punk em Coimbra, anos noventa do século XX), ou que dediquei a minha vida académica ao estudo das música e cultura populares nas suas diversas narrativas é-me perfeitamente igual. Só não o é no seguinte: no maior, menor ou nenhum interesse em ter e/ou ouvir quando chego a casa repertórios sonoros (alguns são só isso mesmo) e musicais onde se denota uma gigante falta de cultura musical de quem faz música ou uma assustadora falta de cultura poética de quem faz letras. E isto não se aprende, embora tenha feito formação na área da etnomusicologia também, nem discute: sabe-se, sente-se tanto mais quanto mais robusto for o nosso manual de vida.

A música é de facto uma lógica matemática que quem sobre ela escreve em jornais, na sua generalidade, não domina (as vezes que já apanhei ''jornalistas de música'' se referirem «à melodia» quando se queriam referir a harmonia, «acorde» quando se trata de uma escala específica e por aí adiante), mas é impossível falar de música sem ter em conta os sons disponíveis para cada músico ou compositor/a, o contexto em que são produzidos, a cultura, a economia, a sociedade em que se inserem, o tempo histórico.

Um dia numa entrevista para o Mural Sonoro um músico e compositor que admiro dizia-me que há um longo trabalhinho de casa que, citando-o, o «pós modernismo», especialmente «nos anos oitenta e noventa» do século XX, «tinha deixado por fazer» e que a pulsação rítmica se tinha alterado radicalmente em função disso: não era o quatro por quatro, nem o três por quatro, nem o seis por oito, havia um por quatro (referindo-se ao disco sound e a outras tipologias na cultura popular urbana que a partir daí surgiram). Percebo a lógica, na altura concordei com ele, mas hoje, volvidos uns oito anos da realização dessa entrevista, considero que não poderia estar mais em desacordo.

A quem trabalha no universo da música e cultura popular caberá, com certeza, mostrar que todas as práticas musicais têm os seus contextos e conjunturas. O problema é que quem estudou se espartilha, normalmente, num conjunto de convenções intocáveis. O dia mais feliz para mim foi quando me libertei de tudo isso e, pelo caminho, já quase a desistir descobri a história contemporânea e um conjunto de pessoas interessantes que tinha traçado percursos parecidos com o meu e para quem as distinções entre «alta» e «baixa cultura» não só eram profundamente datadas como desprovidas de um sentido lógico.

Ora, tem sido nos locais mais improváveis, algumas vezes vulneráveis (socialmente e economicamente) que eu tenho encontrado as pessoas (culturalmente) mais surpreendentes. E a música só tem importância, como me disse outro entrevistado, «a partir do momento em que há um ouvido humano para escutar aquelas canções». E isso, hoje, é tão mais importante do que a «desumanização da arte dos sons»...

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