[1] por Susan de Oliveira

SIMÕES, de Andrade Soraia. Fixar o (In)Visível: Os primeiros passos do rap em Portugal. Editora Caleidoscópio, 2019.


Diz bem o título do livro de Soraia Simões de Andrade: “Fixar o (In)visível”! Esta é uma definição justa para o gesto de marcar no tempo e no espaço a irrupção do rap e os seus primeiros passos na cena cultural portuguesa, tendo em conta que ele expõe também um conjunto de invisibilidades sociais, culturais, raciais e de gênero que a investigadora traz à baila. 

Com as primeiras manifestações do rap a partir da margem sul do Tejo e  de Porto, vindo em seguida a abranger a grande Lisboa, os principais pontos mapeados por Soraia Simões situam-se no decurso de pouco mais de uma década, período que foi do lançamento do programa de rádio Mercado Negro, em 1986, na extinta Correio da Manhã Rádio, até a Expo 98 que, segundo aponta a investigadora “foi, para vários dos responsáveis pelo arranque do rap na indústria de gravação de discos, o espaço onde deram os seus últimos espetáculos em frente a uma grande plateia e com um resultado, sob o ponto de vista financeiro, satisfatório” (p. 9).

Dos anos 1970 até o período analisado pela autora, a indústria fonográfica respondeu pelo impacto do rap na cultura de massas e vice-versa fazendo dele um fenômeno que rapidamente transcendeu os guetos estadunidenses chegando, através das rádios, quase ao mesmo tempo aos centros das grandes capitais da América Latina, da Europa e suas respectivas periferias igualmente racializadas e segregadas. Entretanto, a autora irá ponderar que por sua ligação à indústria cultural o hip hop foi atraído para o mainstream editorial e mediático onde se encontrou com uma pauta também mais ao centro - a qual podemos qualificar como liberal -, e de certo modo afinada com expressões políticas e culturais de direita, mas que de igual modo impactaram as margens da sociedade no contexto do cavaquismo cuja política cultural, conforme ela diz, não conseguiu reunir simpatizantes nem progressistas sequer conservadores. 

Agregada ao impacto da indústria cultural na expansão do movimento hip hop, e especialmente do rap, destaca-se na investigação desse período a mudança social e política pós-74, que permaneceu latente e pela qual pode-se perceber que a afirmação definitiva do rap na cena cultural ocorreu canalizando as demandas emergentes da sociedade portuguesa tendo as mulheres, as populações negras, tanto a africana quanto a afrodescendente, e a população de imigrantes como um todo colocado em pauta a necessidade da reconfiguração social e de um reposicionamento político das narrativas identitárias. 

Todavia, é interessante notar que embora existisse uma demanda social efetiva, a autora analisa a pouca inscrição das vozes de mulheres nesse período inicial de emergência do rap, o que a leva a destacar a persistência do machismo e da misoginia nesse meio artístico-cultural bem como a opressão de gênero que ocorre também no cotidiano dos grupos racializados e “referidos pela literatura científica como subalternos” (p. 20), conforme afirma, alertando ainda que esta é uma questão “sequer aflorada nos estudos sobre este primeiro período em Portugal, apesar do assunto estar patente quer no discurso destas protagonistas como nos repertórios e cassetes caseiras desde o ano 1989” (p. 20). 

Os sinais de uma mudança de protagonismo ocorrerá somente na entrada do século XXI, quando as mulheres passam a dominar a  narrativa contra a opressão de gênero incluindo suas próprias experiências e produções “deixando pistas acerca da secundarização de que foram alvo as suas práticas artísticas e os seus discursos na cultura hip hop” (p. 21) como testemunham as precursoras dos grupos Djamal e Divine que efetivamente condensam no conjunto de suas performances as invisibilidades sociais, culturais, raciais e de gênero as quais o livro procura destacar.

A autora ressalta ainda que os anos finais desse contexto inaugural, em que o rap adquire uma posição de sucesso e reconhecimento em Portugal, são carregados de uma grande ambivalência entre a referida politização das narrativas e a necessidade de diversão, tendo por um lado a repercussão do General D e, por outro, a do Black Company, sendo a melhor síntese deste fenômeno o álbum Rapública, de 1994. 

As tecnologias fonográficas e os meios de edição e difusão, inicialmente analógicos e depois digitais, a TV e o cinema de autor participaram das condições de produção e muitas vezes influenciaram nos repertórios em detrimento das pautas identitárias mais adensadas na realidade, as quais foram tomando corpo nos anos mais recentes, e que efetivamente se verá com a produção do rap em língua crioula e com a já referida produção das mulheres. 

Finalmente, cabe ressaltar que a investigação da qual resulta o presente livro reuniu importantes depoimentos e narrativas a partir de todo um procedimento de escuta das diversas vozes dos/das rappers que atravessam as questões que são apresentadas na forma de um amplo diálogo entre a autora e aqueles/aquelas que se colocaram vivamente na turbulência de todo o processo construtivo do movimento hip hop em Portugal.  

Lisboa, Setembro de 2019

[1] Pós-doutorada em Literatura Comparada pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (2015); Doutorada em Literatura (2006), e Mestre em Literatura (2001) pela Universidade Federal de Santa Catarina. Especialista em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pelo Instituto Camões, Lisboa (2009). Foi professora do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da UFSC, coordena o Núcleo de Estudos de Poéticas Musicais e Vocais e é docente do Programa de Pós-graduação em Literatura da UFSC.

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