O novo livro de Soraia Simões é lançado a 26 de Setembro em Lisboa.

Apresenta a obra em Lisboa, no LARGO Café Estúdio (Intendente), o historiador Miguel Cardina (CES/UC).

A sessão será pontuada ainda pelas intervenções do fundador do SOS Racismo José Falcão e de Dana-Dane (Ana) do grupo Divine (que ao lado de Djamal representam os dois primeiros grupos de RAP compostos por mulheres a editar discograficamente em Portugal), ambos entrevistados durante o trabalho de pesquisa da autora e investigadora.

Em Coimbra, a 3 de Outubro, a obra será apresentada no TAGV pela docente e investigadora Susan De Oliveira (CIE ISCTE/IUL). A sessão em Coimbra será pontuada por uma intervenção da rapper Muleca XIII.


(Soraia Simões ao TAGV/comunicação):

«À medida que a pesquisa e o envolvimento com os protagonistas se desenvolveram, deparei-me com um conjunto de letras e de ideias transmitidas nestes anos que não estavam relatadas nem no discurso público sobre este domínio das música e cultura populares nem no campo científico dedicado ao estudo deste universo. Este momento inicial de afirmação do RAP nas cultura e sociedade portuguesas ficou também marcado por um conjunto de outras desigualdades, como as relacionadas com a condição feminina, também aqui exercidas. A subvalorização que verifiquei nas análises que foram realizadas acerca destes primeiros anos, ou seja, a não inscrição dos assuntos relatados nos repertórios e discursos falados das primeiras rappers, como a violência com base no género e o sexismo, motivou a introdução deste tema na pesquisa».

«Esta investigação foi desenvolvida em simultâneo com um projecto de natureza artística e cultural que coordenei financiado em 2015 pela Direcção Geral das Artes, projecto esse subjugado ao tema História do RAP em Portugal. Este projecto, dada a sua natureza, partiu essencialmente de um elemento agregador: reunir num conjunto de debates, workshops e entrevistas/conversas sobre este período, registando o conteúdo dessas iniciativas, a comunidade RAP que tinha gravado e editado discograficamente durante um espectro cronológico mais alargado (até 1999) do que o definido para esta pesquisa e estabelecido uma relação próxima com a cidade de Lisboa e as indústrias culturais. O cruzamento de linguagens e de perspectivas no âmbito das actividades nele realizadas permitiu reunir dados inéditos. Esses dados, recolhidos deste conjunto de sessões organizado com dinamizadores deste universo cultural, outros investigadores e protagonistas, bem como de entrevistas realizadas entre 2012 e 2016 e publicadas num audiolivro (RAPublicar, 2017) —, deram corpo a esta abordagem e foram um auxílio importante na sustentação deste olhar, no sentido de um esclarecimento maior acerca do papel exercido pelo RAP, especialmente aos seus primeiros actores.

O momento em que os rappers deram os primeiros passos em Portugal foi também marcado pela afirmação de outras manifestações do, designado por estes sujeitos como, movimento ou cultura hip-hop. Um conjunto de outras vertentes agregadas à cultura hip-hop deram, juntamente com o RAP, os primeiros passos como a dança (breakdance) e a pintura de murais (grafitti, muralismo). Esta investigação centrou-se na vertente sonora e musical, no RAP especificamente, partiu do conteúdo das letras gravadas e/ou editadas discograficamente e do discurso assumido pelos primeiros autores durante as suas performances.

Entre a segunda metade da década de oitenta e a primeira metade da década de noventa, o RAP assumiu quase uma missão na cultura popular. Uma demanda que outras práticas musicais não tinham representado até então na cultura popular urbana. Fez a reportagem das ruas e dos bairros, que os primeiros autores denominaram RAPortagem alertando para aquilo que era um conjunto de problemas distintivos de uma primeira geração de filhos de imigrantes ou de afrodescendentes nascidos em Portugal, como os do racismo, da exclusão social, da pobreza, da xenofobia (...).

Por outro lado, os itinerários socioculturais dos primeiros rappers, à medida que gravaram e editaram com a chancela de multinacionais ou editoras de impacto, foram idênticos aos de outras práticas culturais e musicais já consolidadas.

O RAP tornar-se-ia, ainda nestes anos da sua afirmação, entre tensões e aspirações dos seus principais rostos e aceitação e inaceitação coexistentes por parte da cultura dominante num período histórico marcado pelo cavaquismo, uma das práticas musicais de matriz urbana que, ironicamente, se tornou um produto daquilo que censurou: o modus operandi das indústrias musicais e de publicação e do contexto social e económico em questão. Porque deles dependeu e com eles negociou modos de acção e impacto na cultura popular, num momento em que o estúdio ainda não estava no computador e a (inter) dependência do processo (gravação, promoção, difusão, aceitação) foi mais notória».

In Memoriam

Dedico este trabalho ao meu pai (Fernando Paulo Simões de Andrade, Coimbra 1 de Janeiro de 1956 - Coimbra 1 de Julho de 2019) razão maior das minhas resistências (Soraia Simões).


Soraia Simões é autora da plataforma digital Mural Sonoro e dirigente da Associação Cultural Mural Sonoro. A história oral, os arquivos digitais, as práticas musicais em contextos de revolução política e ideológica, a relação entre música, memória e género fazem parte dos principais interesses como investigadora (Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa), nos quais tem trabalhado nos últimos anos. Publicou Passado-Presente. Uma Viagem ao Universo de Paulo de Carvalho (Chiado Books, 2012), RAPublicar. A Micro-História Que Fez História Numa Lisboa Adiada (Caleidoscópio, 2017). É autora do podcast Mural Sonoro (2018), subjugado ao tema “Mulheres na Música, Papéis, Reportórios de Luta e Resistências” e autora e realizadora do filme A Guitarra de Coimbra (RTP2, 2019). Foi distinguida com o Prémio Megafone pela Sociedade Portuguesa de Autores (2014).

Agendas


TAGV - Teatro Académico Gil Vicente (Coimbra)


 https://tagv.pt/agenda/fixar-o-invisivel-os-primeiros-passos-do-rap-em-portugal-1986-1998/


Instituto de História Contemporânea


http://ihc.fcsh.unl.pt/events/fixar-invisivel/



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