Lançamento de Peregrinação CRIOULA de Paulo Branco Lima  em Lisboa

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Lançamento de Peregrinação CRIOULA de Paulo Branco Lima em Lisboa

Temos o prazer de convidar Vª para o lançamento de Peregrinação CRIOULA, romance de Paulo Branco Lima editado com a chancela da editora Aquarela Brasileira, a ter lugar no dia 11 de Junho pelas 18:00 na Livraria Ler Devagar (LX Factoy).


Fotografia do autor por Miguel Von Driburg


Paulo Branco Lima [1] reinterpreta Peregrinação, obra seminal de Fernão Mendes Pinto.


O narrador recorre à ironia e ao sarcasmo nesta viagem recente (anos noventa do século XX) a Cabo Verde em busca das suas raízes. Marca-o indelevelmente uma dinâmica de autodescoberta e um confronto de identidades.

Mário Gomes, especialista em Teoria da Literatura (Univ. Bona/Univ. Florença), afirma que «estamos perante um autor que na gíria literária se apelidaria de náutico: um autor de navios-escola e marinharia, mas sobretudo um artista da submersão literária. Sei de poucas pessoas – assim de repente lembro-me de um ou dois casos – que vivam tão submersas na literatura como o Lima».

Pires Laranjeira (docente de Literaturas e Culturas Africanas de língua portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), diz tratar-se «um livro de escrita comedida, metódica, visual, que descreve com minúcia e empolga pela força da palavra diretamente testemunhal, mas cruzada com a matriz renascentista: marinheiros-aprendizes, rotinas apertadas, trabalhos e dias duros, espaços e sujeitos enclausurados num oceano de espantos e águas abertas, à descoberta de si».

Para Soraia Simões (Mural Sonoro/ Instituto de História Contemporânea/FCSH NOVA) «à primeira vista, desde logo pela capa, parece que estamos perante mais uma obra de glorificação do passado quinhentista nacional, mas não. O autor, centrando-se numa rota marítima por latitudes africanas, desenvolve descrições pormenorizadas de marinharia e do funcionamento interno do veleiro que, à medida que os episódios avançam, vão ganhando contornos inesperadamente críticos do período colonial português» (Simões, Esquerda.Net).

O romance será apresentado pelo escritor e tradutor Mário Gomes, cujo recente trabalho de transcrição para língua portuguesa do autor germânico Arno Schmidt (Leviatã ou O Melhor dos Mundos seguido de Espelhos Negros), tem recebido rasgados elogios da crítica literária. Os actores Miguel Sopas e Ricardo Vaz Trindade lerão partes do romance.

DADOS DO LIVRO
Título: Peregrinação Crioula
Autor: Paulo Branco Lima
Editora: Aquarela Brasileira Livros
Género: Romance
Formato: 14 x 21 cm
Número de páginas: 172
ISBN: 978-85-92552-12-1
Depósito legal: 455407/19
Web: www.aquarelabrasileira.com.br/peregrinacao-crioula
Encomendas: faleaquarela@gmail.com

[1] Paulo Branco Lima é escritor, actor, performer, investigador literário e produtor cultural. Licenciado em Jornalismo e Mestre em Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra, em 2013 publicou o romance Origem e Ruína pela chancela da Chiado Editora. Enquanto autor, fomenta alicerces nas obras de William Faulkner, Camilo Castelo Branco, Pepetela, Vitorino Nemésio e Guimarães Rosa. Membro do Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, é colaborador regular da Revista de Estudos Literários e das publicações angolanas O Chá e Jornal Cultura

Associação Mural Sonoro

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De oprimidos/as a opressores/as, por Soraia Simões

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De oprimidos/as a opressores/as, por Soraia Simões


[1] por Soraia Simões

Aprendemos a pelejar com ideias e dinâmicas que se procuram superiorizar por meio de uma gramática única, que cita sempre os mesmos, recorre às mesmas problemáticas e às mesmas conclusões e erradica quem não se interessa pelo mesmo manual de inflexão, mascarado de reflexão. Por Soraia Simões.


Há dias num encontro sobre práticas musicais, culturais e política alguém me disse que se há coisa que a passagem dos anos nos pode trazer é o aprender a lidar um pouco melhor com um conjunto de ontologias, gramáticas ou narrativas próprias e propositadamente intrincadas com as quais nunca, ou raramente, concordámos.

Aprendemos por conta e risco, por exemplo, a pelejar, por muito idiota que ele seja ou nos pareça ser, um conjunto de ideias e de dinâmicas que se procuraram superiorizar por meio de uma gramática única, que cita sempre os mesmos, recorre sempre às mesmas problemáticas e às mesmas conclusões e que erradica quem não se interessa pelo mesmo manual de inflexão, mascarado de reflexão, do seu caminho. A maioria oriundas da educação e formação mais convencionais onde os corpos que sofrem, se as mesmas se posicionarem à esquerda, são permanentemente evocados mas vivem únicamente, quase exclusivamente, na cabeça, nos corpos teóricos de quem, salvo (demasiadas) pontuais excepções, passa a falar pelos outros, aqueles corpos que efectivamente sofrem ou sofreram.

Agora imaginem esta situação:

uma vez, numa avaliação de fim de curso uma aluna, artista, corpo oprimido, bastante experiente resolve realizar um trabalho sobre o universo que melhor conhece, o seu. A ''velha'' professora dá-lhe boa nota, mas apressa-se a explicar o porquê de não lhe ter atribuído uma nota ainda melhor, quando comparada com as que distribui graciosamente pelos outros, os que professam as suas tentativas de comprometimento tardio com ''causas actuais'', pouco experientes: «você tem isto muito bem escrito, aprendi muito consigo, há coisas aqui, várias coisas, que não sabia, no entanto não encontrei a disciplina que lecciono, e a profundidade dos autores de que falámos nas aulas, no seu trabalho».

Agora imaginem que aquela professora, a uma distância inacreditável do tema em causa, nalguns dos pontos a roçar a ignorância sobre o mesmo, dizia:

- “você sabe mais disto do que eu, você recorreu a um leque de autores diferentes daqueles que falámos nas aulas fruto da sua experiência, mas isso é uma mais valia, você foi original na abordagem”.

Ou, simplesmente:

- «finalmente alguém que, depois de ler o que eu vos sugeri ao longo deste ano, consegue ter um pensamento crítico e exercer o contraditório sobre essas referências». Afinal, devia ser para isso que serve a educação, a academia: somar mentes diversas, acolher outros contributos, novas leituras e abordagens.

O texto sobejamente usado nas ciências sociais (eu inclusivé) de Gayatri Chakravorty Spivak (1988) no qual ela questionava a conversa entre Foucault e Deluze em Os Intelectuais e O Poder [2] e no qual expressava uma «indignidade do intelectual de falar pelos outros», na medida em que «aqueles que agiam poderiam falar por si mesmos» poderiam ter sido um pouco mais decisivos para esta ''velha'' professora tão ''progressista'' e tardiamente afecta às causas dos oprimidos urbanos. Quanto mais não fosse pensar que a dialéctica descrita pela autora («representation as speaking for» e «representation as re-presentation»), seria, é, poderá ser um caminho para tão «preocupada missão» da educação ao se querer aproximar do que é, ou foi «periférico» , «marginal», das artes aos corpos que sofrem, sofreram, sofrerão. Essencialmente porque nessa perspectiva se atribui relevância à intersecção de narrativas, a académica e a do legado da experiência explanada na partilha de outras (novas, renovadas) narrativas.

Mas, o problema da situação é ela ser mais do que imaginada, ter realmente acontecido e a ter presenciado. É ela me fazer compreender ao fim de alguns anos o demorado e duro que foi ''aprender'' a lidar, sem lhes virar costas, com o superiorizar das gramáticas dominantes, mesmo as que se acham (leia-se subinhado e em destaque se acham) progressistas e, até, de esquerda ao longo da nossa educação. Aquela professora representou naquele momento aquilo que o educador e filósofo Paulo Freire na célebre Pedagogia Oprimida revelou ser uma espécie de estratégia para o oprimido, ter de lidar com o opressor, para se tornar um dia o opressor: «quando a educação não é libertadora o oprimido quer-se tornar o opressor».

 

[1] Soraia Simões, in Esquerda.Net, 22 de Maio, 2019. 

2] Spivak, Gayatri Chakravorty (1988) Can the Subaltern Speak?.

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Fixar o (in) visível. Fim de um ciclo e início de outro. Agradecimentos, por Soraia Simões

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Fixar o (in) visível. Fim de um ciclo e início de outro. Agradecimentos, por Soraia Simões

Bom dia!

Depois da avalanche de mensagens com felicitações desde as vésperas do vinte cinco de Abril* no meu Facebook e site, ainda não tinha conseguido vir aqui agradecer.
Aproveito agora para o fazer, desta forma que coube igualmente no corpo da tese, e para informar que será publicada em livro no fim deste ano com a chancela da Editora Caleidoscópio, com quem já tinha publicado em 2017 o audiolivro com entrevistas (RAPublicar).

Os primeiros agradecimentos são dirigidos às pessoas que tornaram esta investigação possível. Sem elas o envolvimento e o entusiasmo que atravessaram este processo não seriam possíveis.

Um agradecimento especial às Dana-Dane, X-Sista, Sweetalk dos grupos Divine e Djamal, porque o estreitar dos laços e a interacção com elas se mantiveram para lá das entrevistas gravadas permitindo que despertasse para um capítulo novo deste campo cultural, capítulo esse ainda não abordado sobre estas duas primeiras décadas de afirmação do domínio nas cultura e sociedade portuguesas do último quartel do século XX.

Um obrigada ao José Falcão, companheiro de muitas lutas, com o qual fui desenvolvendo um conjunto de debates e iniciativas ao longo deste tempo fundamentais para estruturar o olhar sobre a temática do RAP, satélite dos outros temas que a partir dele foram convergindo no desenrolar desta pesquisa, e ao professor Fernando Rosas por se ter disponibilizado a participar numa dessas iniciativas.

Um obrigada ao Edgar Pêra, ao António Contador, ao Emanuel Lemos Ferreira, ao Jazzy J, ao Biggy, ao Makkas e aos grupos Djamal e Líderes da Nova Mensagem por me terem cedido os seus cine-diários e as suas gravações em vídeo caseiras. A uns por me terem facilitado espólios fotográficos, fílmicos e recortes de imprensa que de outro modo dificilmente conseguiria, a outros por me terem confiado correspondência trocada e contratos que assinaram, o que possibilitou uma aproximação mais profunda aquele contexto particular. A todos um muito obrigada pela confiança.

Aos Ricardo Castro e Artur Patrício um obrigada pelas conversas nos intervalos dos encontros organizados, porque me foram motivando, à Ana Bezelga pela amizade e o incentivo para prosseguir nestes caminhos pela academia, ao José Fernandes por me ter acompanhado em muitos momentos com a sua câmera fotográfica durante o trabalho de campo, o que faz com que hoje tenha um arquivo difícil de imaginar de sons, imagens, entrevistas grandes e dados inéditos.

O meu reconhecimento ainda para rappers, produtores, radialistas e cineastas que entrevistei e com quem conversei ao longo de seis anos, que não sendo aqui evocados também contribuíram para o desenvolvimento deste longo processo que aqui culmina com esta leitura e este escrito.

Dedico este trabalho em primeiro lugar ao meu irmão Paulo, um amante de hip-hop e de basquetebol, ademais onde foi durante um período de tempo um desportista notável sagrando-se campeão nacional. Porque sem as suas generosas partilhas empíricas entre Coimbra, Lisboa e Cabo Verde seria hoje, certamente, uma pessoa menos rica e talvez não tivesse despertado para a importância deste campo cultural. Em segundo lugar aos meus sobrinhos Jerson e Laura por me terem ensinado o significado da palavra sodade, por ter sempre na cidade da Praia (Cabo Verde) a minha segunda, ou terceira, casa apesar de estar tantas vezes ausente. Por me terem motivado e ajudado a compreender melhor este ofício e esta paixão: de ser investigadora no campo musical e cultural, percebendo as ânsias e angústias que muitas das vezes se vedam assumindo outras faces nos universos que abordo. Em terceiro, mas não menos importante, a todos e a todas os/as entrevistados/as, motores de arranque e consolidação, que foram, do RAP na sociedade e na cultura portuguesas dos anos oitenta e noventa do século XX.

Há uns anos, num outro contexto, um entrevistado falava-me da importância, tão negligenciada, de nos ouvirmos: «Os estudos que têm a música como ponto de partida e/ou de chegada, na pauta, no disco, na sociedade de um dado período, só têm importância a partir do momento em que há um ouvido humano para escutar essas músicas». É também nisso que ao fim destes anos continuo a acreditar.

«Fala-se de cor/fala-se de dinheiro/ Mas há algo passivamente aceite pelo mundo inteiro/Há séculos que se vive nesta obscuridão/ de limitar a Mulher com a dor da opressão/Chega de abuso/temos direito/ é hora de tratar a mulher com respeito...Revolução Agora!, Djamal (1997 BMG)»



*defendida em 24 de Abril de 2019, dissertação aprovada com dezassete valores.

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Uma Peregrinação atípica, por Soraia Simões

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Uma Peregrinação atípica, por Soraia Simões

[1] por Soraia Simões

Paulo Branco Lima recria em “Peregrinação Crioula” o texto seminal de Fernão Mendes Pinto ensaiando uma reflexão crítica sobre o período colonial português.

Olho-me num dos espelhos da casa de banho dos praças: os meus lábios são grossos, o meu cabelo é encaracolado (ou roim!), a minha pele algo morena.

Terão amadurecido, durante esta viagem ao mosaico cabo-verdiano, substâncias escondidas que me correm nas veias?

Possuirei costela africana?

Serei também, de algum modo, crioulo?

De que mescla são as forças que interagem no meu espírito?

Com que meios poderei identificar este género de orfandade?

Como deslubrificar o conforto lusocêntrico do meu olhar?

Quem sou eu?

Qual a minha Voz? (página 157)

Li recentemente o romance Peregrinação Crioula de Paulo Branco Lima editado pela Aquarela Brasileira (Maio, 2019). Uma pequena editora independente.

Aconselho vivamente a leitura.

Trata-se de uma insólita e nada convencional reinterpretação da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto.

A história desenrola-se a bordo de um navio-escola português de traços contemporâneos nos anos noventa do século XX.

À primeira vista, desde logo pela capa, parece que estamos perante mais uma obra de glorificação do «passado quinhentista nacional», mas não. O autor, centrando-se numa rota marítima por latitudes africanas, desenvolve descrições pormenorizadas de marinharia e do funcionamento interno do veleiro que, à medida que os episódios avançam, vão ganhando contornos inesperadamente críticos do período colonial português. Esses episódios estão imbuídos de um contundente sentido de ironia, sarcástico até.

Num primeiro momento, o itinerário proposto, uma circum-navegação ao continente africano, é interrompido de um modo brusco pouco antes da chegada a Cabo Verde, alegadamente por motivos “logístico-burocráticos”.

A partir daqui, quando a tripulação inicia o seu périplo, reduzido à força, pelas ilhas crioulas, começa a instalar-se um «confronto de identidades» ao longo do qual se impõe, de forma progressiva, a cosmovisão africana.

Não é estranha a busca das raízes africanas implícitas ao narrador. Talvez por isso, utilize o dispositivo ficcional da escrita de um diário de bordo para reflectir nos fundamentos daquilo que pode ser encarado como a sua «autodescoberta».

Esta imagem faz germinar dentro de mim uma ideia desagradável, como lasca entalada na garganta. Causa-me uma impressão incómoda, amarga, semelhante à da Cidade da Praia. Nem sempre me identifico com esta gente, tão impregnada na obsolescência da Expansão. Por vezes acho-me desenquadrado, incompleto, desenraizado… Sinto um desencanto ácido: mais que a tão prestigiada embaixada itinerante, o navio-escola vai-se tornando no símbolo da minha alienação (página 127).

Fascinado inicialmente pelo universo da literatura de viagens, que o leva a querer ser marinheiro, o narrador acaba por relembrar episódios da sua adolescência durante as aulas de História, quando lhe era pedido para ler em voz alta a obra Peregrinação. Como se aquelas palavras já fizessem, de algum modo, parte da sua vida, de uma outra sua vida/vivência.

Estamos de novo em alto mar.

Sinto-me massarongo, modorrento. Apenas hoje me dá para reler tudo o que escrevi no Craesbeeck. Há um pormenor a martelar-me a consciência: apesar de toda a liberdade criativa em Calempluy, também eu me deixei corromper pelo poder do ouro! Residirá nisto a causa da minha intranquilidade, deste mal-estar que me persegue a espaços? (página 146)

Alcançando aquilo que era o seu anseio, o ingresso no navio-escola São Gabriel, o júbilo primeiro dá lugar a um duro choque com a realidade que encontra a bordo: um deplorável sentido de camaradagem, uma insaciável sede capitalista (o mercantilismo de negras e de negros), os intoleráveis resquícios do colonialismo português.

[1] Soraia Simões, in Esquerda.Net, 5 de Maio, 2019. 

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Antes e depois do clickbait, Soraia Simões

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Antes e depois do clickbait, Soraia Simões

[1] por Soraia Simões

Não amaremos insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha? Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra!

Nesta passagem de A Queda de Albert Camus, o último livro de ficção lançado em vida, são reveladas as mais ignomínias passagens de um homem no século XX e a sua decadência, isto por via de um discurso simultaneamente corrosivo e contundente.

Apesar de estarmos no século XXI, um século concernente à revolução digital, aos questionamentos sobre a robótica, a inteligência artificial, entre outros, Portugal, e na verdade o resto da Europa, ainda não chegaram ao século XXI. Talvez por isso as nossas referências literárias e musicais ainda aí se encontrem na sua maioria.

Dos pontos de vista político e social não fomos capazes de rasgar totalmente com as problemáticas do século passado, as quais ainda amparam frentes que foram realmente importantes no século XX (os processos de urbanização e industrialização, a transformação das forças sociais e económicas, etc), do mesmo modo que mantêm as continuidades mais bacocas, isso verifica-se essencialmente no continuísmo do patriarcado e do mandonismo.

Os poderes sociais e culturais que dominaram o país mesmo depois do 25 de Abril de 1974 percorreram-no, assumindo outras formas, em quadros hipoteticamente mais «esclarecidos», «urbanos», e/ou «cosmopolitas».

Não existindo propriamente uma ruptura, mas um continuísmo, as diversas forças que emergiram, especialmente no plano cultural e nos meios de comunicação social, desse longo processo histórico, sejamos claros, procuraram manter os seus privilégios. Mesmo que se verifiquem divergências no plano político-ideológico, é visível que estes poderes impossibilitaram aquilo que apregoaram nos seus discursos, mais e menos, populistas: um país mais justo e igualitário, congregando seja pela força do trabalho (incluindo intelectual), seja através de arranjos políticos, o que, em teoria, as dicotomias que atravessaram o século XX, mantiveram.

No Estado Novo vimos nascer um modelo capitalista sustentado pelo autoritarismo e pelo nacionalismo. No século XXI encontramo-nos entorpecidos, por vezes estagnados, ora porque «não acertamos dividendos com nosso próprio passado» ora porque «no passado não se pode já mexer, ele foi o que foi».

Parece-me grave que os argumentos e visões de defuntos queiram ministrar, governar mesmo, a trajectória do mundo dos vivos. E que tenham mortos vivos a apoiarem a iniciativa.

Começamos o ano de 2019, por exemplo, com várias demonstrações disso mesmo: um criminoso, afecto à direita radical, cadastrado é entrevistado num programa da manhã sem contraditório (parte do passado criminoso é omitido, na prática), um escritor francês refere que as mulheres depois dos vinte e cinco anos, nomeadamente as de cinquenta, são «invisíveis» e, com estas declarações, tem palco inclusivé na BBC, a ministra brasileira da Mulher, Família e Direitos Humanos refere numa das suas intervenções públicas, especificamente durante a tomada de posse, que «é uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa».

Que passado sombrio é este que mora no presente afinal?

Durante o início da minha adolescência, fins dos anos oitenta, inícios dos anos noventa do século XX, fazíamos as nossas próprias colectâneas musicais e tocávamos de ouvido. Mesmo quem tinha aprendido música de um modo formal, tocava por cima das colectâneas criadas. Não raras vezes do lado A e do lado B de cassetes que denominámos «punk rock» estavam os primeiros registos discográficos completos, que mais tarde muitos/as de nós adquirimos em CD ou vinil, de grupos americanos, ingleses e alemães.

Na quadra natalícia, fui ao sótão de família onde estão guardadas mais de três mil cassetes desse período. Numa dessas cassetes, curiosamente, pude (re) lembrar que um velho amigo me gravou o «Know Your rights» The Clash do lado A com o «California Uber Alles» Dead Kennedys do lado B.

Ora, o «Know Your Rights», de The Clash é um pronunciamento público com guitarra eléctrica, bateria, baixo. A letra, que faz parte do meu disco preferido do grupo ao nível poético-literário (Combat Rock, 1982) é um manifesto pelo direito das minorias, dos pobres e marginalizados, que na música ganham o privilégio de não serem mortos, de se expressarem livremente, de terem o que comer. O «California Uber Alles» é uma sova política. Lançada em 1979, no formato EP, regravada em 1980 no disco Fresh Fruit for Rotting Vegetables. Na versão original a menção a Jerry Brown, governador da Califórnia entre 1975 e 1983 (voltou em 2011), como se fosse o próprio descrevendo os seus planos futuros; com ambições totalitárias, apesar da alusão ao ambientalismo que na década anterior era uma das grandes bandeiras dos hippies. A letra também expõe o receio de Biafra com o poder que Brown apresentava no início do seu percurso. Essa suposta vocação totalitária de Brown aparece nas citações ao nazismo, presente no título da canção («Über Alles» fez parte do hino da Alemanha até o fim da Segunda Guerra Mundial), a expressão «cameras de gás», ou a menção a «1984», livro de George Orwell que descreve um regime massacrante e totalitário, não deixam dúvidas.

Vejo esta cassete, gravada e oferecida quando tinha apenas 15 anos, um pouco hoje como as nossas tomadas de posição. Há formas, antes mesmo da era do clickbait, de repartirmos ideias e valores, de combatermos o discurso de ódio, de nos posicionarmos. Nas escolhas pessoais, nas profissionais. Longe de imaginar, porém, que o século XXI continuasse a preferir o da decadência reflectida por Albert Camus em A Queda: onde só a morte desperta os nossos sentimentos, só conseguimos amar os amigos que acabaram de nos deixar, ou admirarmos os nossos mestres quando eles já não falam, com a boca cheia de terra.

E nisto deveríamos pensar, já hoje.

This is a public service announcement

With guitar

Know your rights

All three of them

Number one

You have the right not to be killed

Murder is a crime

Unless it was done

By a policeman

Or an aristocrat

Oh, know your rights

And number two

You have the right to food money

Providing of course

You don't mind a little

Investigation, humiliation

And if you cross your fingers

Rehabilitation

Know your rights

These are your rights

Hey, say, Wang (The Clash, Combat Rock, 1982)

[1] Soraia Simões, in Esquerda.Net, 15 de Janeiro, 2019. 

Fotografias, making of de gravações em Coimbra, de João Fontes da Costa

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Uma breve história da livraria mais antiga do mundo,  por Luana Olliveira

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Uma breve história da livraria mais antiga do mundo, por Luana Olliveira


[1] por Luana Olliveira

Com o avanço da tecnologia, hábitos como ler um bom livro têm ficado no passado, porém é válido ressaltar que a magia de ter um livro nas mãos, sentir o cheiro das páginas, avançar cada capítulo, nos faz mergulhar num universo só nosso, onde é possível criar um mundo de fantasias e imagens que só a mente humana é capaz.

Por isso, vos venho contar um bocadinho de uma história, de um lugar mágico, por onde vários autores portugueses de reconhecimento internacional, antes da primeira guerra mundial, passaram. Um local onde outras individualidades se reuniram em segredo durante a ditadura para além de declamar poesia, falarem daquilo que era proibido. Uma história literal e portuguesa, contada pelas palavras de uma brasileira que criou amor e raízes nesse lugar.

Em 1732 Pedro Faure de origem francesa, inaugura a primeira livraria na rua Direita do Loreto, em Lisboa. Depois, oferece sociedade a seu genro Pierre o irmão Jean Joseph, os “Irmãos Bertrand” que assumem o negócio após o falecimento do sócio.

Lisboa é marcada por desastres naturais, em 1755 um terramoto fez com que a cidade recomeçasse, deixando cinza e dor pelas ruas. Foram quase vinte anos entre reformas e atividades em outro sítio, para conseguir trazer para aqui, de volta, aquela que já mostrou ser mais que uma livraria.

Com a reconstrução de Lisboa, e a morte do último Bertrand, José Fontana, um imigrante suíço, escritor político e engajado em ações sociais assume a direção da livraria, porém apenas com 34 anos, já desiludido da vida política, e farto de tratar sem sucesso a tuberculose, resolve pôr fim em seu sofrimento e em 2 de setembro de 1876, nos armazéns da Livraria Bertrand suicida-se.

Contam aqui que o fantasma de Fontana ainda habita o interior da livraria, e que quando um livro cai, ou uma porta bate sem motivo, lá está ele, para ver se tudo está a correr bem.

Após a Implantação da República, houve uma sucessiva troca de administradores dispostos a manter a história da Bertrand e espalhando o seu legado, hoje existem 54 livrarias espalhadas em solo português, e todas são fruto da loja do Chiado, aquela primeira livraria, que o terramoto poderia ter destruído para sempre se não fosse a garra e a determinação dos Irmãos Bertrand.

Com o reconhecimento do Guiness Word Record, como “A livraria mais antiga do mundo em funcionamento”, a loja da Baixa do Chiado tornou-se um dos principais pontos turísticos de Lisboa, visitada diariamente por centenas de pessoas de todo o mundo, também apreciada por diversos autores, que podem aqui sentir nostalgia e ouvir histórias dos autores favoritos que por cá passaram, sendo uma atmosfera perfeita para inspiração.

Hoje tem o título de “Loja com História” oferecido pela Câmara Municipal de Lisboa, e acho que sabemos todos os que aqui trabalham o quão merecido isso é.

Essa é a mesma loja, inaugurada em 1732. Uma Bertrand com 287 anos de História entre essas grossas paredes de pedra, uma Bertrand que evoluiu, mas nunca abdicou do seu propósito principal, uma livraria, que não vende apenas livros, mas que cultiva a arte e a memória dos grandes escritores que por cá passaram, deixando suas marcas, trazendo de volta a vontade e a necessidade de nos sentarmos, tomarmos um café, de devorarmos um bom livro, uma "mania portuguesa" que contagiou o resto do mundo.

[1] Mestranda, Universidade Europeia, lojista Bertrand Chiado


Fotografias: Luana Olliveira

adenda:

Desde que vim viver para Lisboa, em 2008, que a Bertrand do Chiado faz parte das minhas rotinas. Aqui continuo a adquirir algumas das obras da minha, cada vez mais selectiva, colecção. Foi também aqui, sentada numa das mesas da Cafetaria, que iniciei e estruturei algumas ideias sobre música e cultura populares que acabaram por se tornar obras, assim dizem. Duas obras, para já, publicadas e que aqui encontram.

Mantive uma relação fantástica com os funcionários, de ontem e de hoje. Alguns, que já aqui não estão, talvez nem saibam como foram relevantes na minha adaptação, tão célere, a esta cidade. Hoje, volvidos mais de dez anos em Lisboa, mesmo com o turismo, consigo alimentar os mesmos laços sociais, uma raridade o silêncio necessário para os estabelecer, firmar. Um bem singular quando quase tudo hoje é ruído.

Com o Filipe, com quase menos metade da minha idade, tenho conversas interessantíssimas sobre música, som, política, autores russos, com a Luana sobre literaturas brasileiras, o feminismo e a vida.

Há uns dias a Luana falava-me do prazer que tem em trabalhar aqui, desenhei quase um pequeno filme na minha cabeça ao ouvi-la, tão expressiva e tocante.

Desafiei-a para escrever umas breves linhas sobre a Bertrand do Chiado, que se tornou também a sua casa em Portugal. Ontem passei na loja e tinha-as para me entregar, fiquei comovida, e contente por publicá-las aqui no Mural Sonoro (Soraia Simões)

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