Antes e depois do clickbait, Soraia Simões

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Antes e depois do clickbait, Soraia Simões

[1] por Soraia Simões

Não amaremos insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha? Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra!

Nesta passagem de A Queda de Albert Camus, o último livro de ficção lançado em vida, são reveladas as mais ignomínias passagens de um homem no século XX e a sua decadência, isto por via de um discurso simultaneamente corrosivo e contundente.

Apesar de estarmos no século XXI, um século concernente à revolução digital, aos questionamentos sobre a robótica, a inteligência artificial, entre outros, Portugal, e na verdade o resto da Europa, ainda não chegaram ao século XXI. Talvez por isso as nossas referências literárias e musicais ainda aí se encontrem na sua maioria.

Dos pontos de vista político e social não fomos capazes de rasgar totalmente com as problemáticas do século passado, as quais ainda amparam frentes que foram realmente importantes no século XX (os processos de urbanização e industrialização, a transformação das forças sociais e económicas, etc), do mesmo modo que mantêm as continuidades mais bacocas, isso verifica-se essencialmente no continuísmo do patriarcado e do mandonismo.

Os poderes sociais e culturais que dominaram o país mesmo depois do 25 de Abril de 1974 percorreram-no, assumindo outras formas, em quadros hipoteticamente mais «esclarecidos», «urbanos», e/ou «cosmopolitas».

Não existindo propriamente uma ruptura, mas um continuísmo, as diversas forças que emergiram, especialmente no plano cultural e nos meios de comunicação social, desse longo processo histórico, sejamos claros, procuraram manter os seus privilégios. Mesmo que se verifiquem divergências no plano político-ideológico, é visível que estes poderes impossibilitaram aquilo que apregoaram nos seus discursos, mais e menos, populistas: um país mais justo e igualitário, congregando seja pela força do trabalho (incluindo intelectual), seja através de arranjos políticos, o que, em teoria, as dicotomias que atravessaram o século XX, mantiveram.

No Estado Novo vimos nascer um modelo capitalista sustentado pelo autoritarismo e pelo nacionalismo. No século XXI encontramo-nos entorpecidos, por vezes estagnados, ora porque «não acertamos dividendos com nosso próprio passado» ora porque «no passado não se pode já mexer, ele foi o que foi».

Parece-me grave que os argumentos e visões de defuntos queiram ministrar, governar mesmo, a trajectória do mundo dos vivos. E que tenham mortos vivos a apoiarem a iniciativa.

Começamos o ano de 2019, por exemplo, com várias demonstrações disso mesmo: um criminoso, afecto à direita radical, cadastrado é entrevistado num programa da manhã sem contraditório (parte do passado criminoso é omitido, na prática), um escritor francês refere que as mulheres depois dos vinte e cinco anos, nomeadamente as de cinquenta, são «invisíveis» e, com estas declarações, tem palco inclusivé na BBC, a ministra brasileira da Mulher, Família e Direitos Humanos refere numa das suas intervenções públicas, especificamente durante a tomada de posse, que «é uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa».

Que passado sombrio é este que mora no presente afinal?

Durante o início da minha adolescência, fins dos anos oitenta, inícios dos anos noventa do século XX, fazíamos as nossas próprias colectâneas musicais e tocávamos de ouvido. Mesmo quem tinha aprendido música de um modo formal, tocava por cima das colectâneas criadas. Não raras vezes do lado A e do lado B de cassetes que denominámos «punk rock» estavam os primeiros registos discográficos completos, que mais tarde muitos/as de nós adquirimos em CD ou vinil, de grupos americanos, ingleses e alemães.

Na quadra natalícia, fui ao sótão de família onde estão guardadas mais de três mil cassetes desse período. Numa dessas cassetes, curiosamente, pude (re) lembrar que um velho amigo me gravou o «Know Your rights» The Clash do lado A com o «California Uber Alles» Dead Kennedys do lado B.

Ora, o «Know Your Rights», de The Clash é um pronunciamento público com guitarra eléctrica, bateria, baixo. A letra, que faz parte do meu disco preferido do grupo ao nível poético-literário (Combat Rock, 1982) é um manifesto pelo direito das minorias, dos pobres e marginalizados, que na música ganham o privilégio de não serem mortos, de se expressarem livremente, de terem o que comer. O «California Uber Alles» é uma sova política. Lançada em 1979, no formato EP, regravada em 1980 no disco Fresh Fruit for Rotting Vegetables. Na versão original a menção a Jerry Brown, governador da Califórnia entre 1975 e 1983 (voltou em 2011), como se fosse o próprio descrevendo os seus planos futuros; com ambições totalitárias, apesar da alusão ao ambientalismo que na década anterior era uma das grandes bandeiras dos hippies. A letra também expõe o receio de Biafra com o poder que Brown apresentava no início do seu percurso. Essa suposta vocação totalitária de Brown aparece nas citações ao nazismo, presente no título da canção («Über Alles» fez parte do hino da Alemanha até o fim da Segunda Guerra Mundial), a expressão «cameras de gás», ou a menção a «1984», livro de George Orwell que descreve um regime massacrante e totalitário, não deixam dúvidas.

Vejo esta cassete, gravada e oferecida quando tinha apenas 15 anos, um pouco hoje como as nossas tomadas de posição. Há formas, antes mesmo da era do clickbait, de repartirmos ideias e valores, de combatermos o discurso de ódio, de nos posicionarmos. Nas escolhas pessoais, nas profissionais. Longe de imaginar, porém, que o século XXI continuasse a preferir o da decadência reflectida por Albert Camus em A Queda: onde só a morte desperta os nossos sentimentos, só conseguimos amar os amigos que acabaram de nos deixar, ou admirarmos os nossos mestres quando eles já não falam, com a boca cheia de terra.

E nisto deveríamos pensar, já hoje.

This is a public service announcement

With guitar

Know your rights

All three of them

Number one

You have the right not to be killed

Murder is a crime

Unless it was done

By a policeman

Or an aristocrat

Oh, know your rights

And number two

You have the right to food money

Providing of course

You don't mind a little

Investigation, humiliation

And if you cross your fingers

Rehabilitation

Know your rights

These are your rights

Hey, say, Wang (The Clash, Combat Rock, 1982)

[1] Soraia Simões, in Esquerda.Net, 15 de Janeiro, 2019. 

Fotografias, making of de gravações em Coimbra, de João Fontes da Costa

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Uma breve história da livraria mais antiga do mundo,  por Luana Olliveira

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Uma breve história da livraria mais antiga do mundo, por Luana Olliveira


[1] por Luana Olliveira

Com o avanço da tecnologia, hábitos como ler um bom livro têm ficado no passado, porém é válido ressaltar que a magia de ter um livro nas mãos, sentir o cheiro das páginas, avançar cada capítulo, nos faz mergulhar num universo só nosso, onde é possível criar um mundo de fantasias e imagens que só a mente humana é capaz.

Por isso, vos venho contar um bocadinho de uma história, de um lugar mágico, por onde vários autores portugueses de reconhecimento internacional, antes da primeira guerra mundial, passaram. Um local onde outras individualidades se reuniram em segredo durante a ditadura para além de declamar poesia, falarem daquilo que era proibido. Uma história literal e portuguesa, contada pelas palavras de uma brasileira que criou amor e raízes nesse lugar.

Em 1732 Pedro Faure de origem francesa, inaugura a primeira livraria na rua Direita do Loreto, em Lisboa. Depois, oferece sociedade a seu genro Pierre o irmão Jean Joseph, os “Irmãos Bertrand” que assumem o negócio após o falecimento do sócio.

Lisboa é marcada por desastres naturais, em 1755 um terramoto fez com que a cidade recomeçasse, deixando cinza e dor pelas ruas. Foram quase vinte anos entre reformas e atividades em outro sítio, para conseguir trazer para aqui, de volta, aquela que já mostrou ser mais que uma livraria.

Com a reconstrução de Lisboa, e a morte do último Bertrand, José Fontana, um imigrante suíço, escritor político e engajado em ações sociais assume a direção da livraria, porém apenas com 34 anos, já desiludido da vida política, e farto de tratar sem sucesso a tuberculose, resolve pôr fim em seu sofrimento e em 2 de setembro de 1876, nos armazéns da Livraria Bertrand suicida-se.

Contam aqui que o fantasma de Fontana ainda habita o interior da livraria, e que quando um livro cai, ou uma porta bate sem motivo, lá está ele, para ver se tudo está a correr bem.

Após a Implantação da República, houve uma sucessiva troca de administradores dispostos a manter a história da Bertrand e espalhando o seu legado, hoje existem 54 livrarias espalhadas em solo português, e todas são fruto da loja do Chiado, aquela primeira livraria, que o terramoto poderia ter destruído para sempre se não fosse a garra e a determinação dos Irmãos Bertrand.

Com o reconhecimento do Guiness Word Record, como “A livraria mais antiga do mundo em funcionamento”, a loja da Baixa do Chiado tornou-se um dos principais pontos turísticos de Lisboa, visitada diariamente por centenas de pessoas de todo o mundo, também apreciada por diversos autores, que podem aqui sentir nostalgia e ouvir histórias dos autores favoritos que por cá passaram, sendo uma atmosfera perfeita para inspiração.

Hoje tem o título de “Loja com História” oferecido pela Câmara Municipal de Lisboa, e acho que sabemos todos os que aqui trabalham o quão merecido isso é.

Essa é a mesma loja, inaugurada em 1732. Uma Bertrand com 287 anos de História entre essas grossas paredes de pedra, uma Bertrand que evoluiu, mas nunca abdicou do seu propósito principal, uma livraria, que não vende apenas livros, mas que cultiva a arte e a memória dos grandes escritores que por cá passaram, deixando suas marcas, trazendo de volta a vontade e a necessidade de nos sentarmos, tomarmos um café, de devorarmos um bom livro, uma "mania portuguesa" que contagiou o resto do mundo.

[1] Mestranda, Universidade Europeia, lojista Bertrand Chiado


Fotografias: Luana Olliveira

adenda:

Desde que vim viver para Lisboa, em 2008, que a Bertrand do Chiado faz parte das minhas rotinas. Aqui continuo a adquirir algumas das obras da minha, cada vez mais selectiva, colecção. Foi também aqui, sentada numa das mesas da Cafetaria, que iniciei e estruturei algumas ideias sobre música e cultura populares que acabaram por se tornar obras, assim dizem. Duas obras, para já, publicadas e que aqui encontram.

Mantive uma relação fantástica com os funcionários, de ontem e de hoje. Alguns, que já aqui não estão, talvez nem saibam como foram relevantes na minha adaptação, tão célere, a esta cidade. Hoje, volvidos mais de dez anos em Lisboa, mesmo com o turismo, consigo alimentar os mesmos laços sociais, uma raridade o silêncio necessário para os estabelecer, firmar. Um bem singular quando quase tudo hoje é ruído.

Com o Filipe, com quase menos metade da minha idade, tenho conversas interessantíssimas sobre música, som, política, autores russos, com a Luana sobre literaturas brasileiras, o feminismo e a vida.

Há uns dias a Luana falava-me do prazer que tem em trabalhar aqui, desenhei quase um pequeno filme na minha cabeça ao ouvi-la, tão expressiva e tocante.

Desafiei-a para escrever umas breves linhas sobre a Bertrand do Chiado, que se tornou também a sua casa em Portugal. Ontem passei na loja e tinha-as para me entregar, fiquei comovida, e contente por publicá-las aqui no Mural Sonoro (Soraia Simões)

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