Nataniel Melo (percussionista, integrante do grupo Terrakota)

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Nataniel Melo (percussionista, integrante do grupo Terrakota)

27ª recolha de entrevista

 

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BI: Nataniel Melo nasceu no Porto no ano de 1976.

É um músico e autor português filho de pai açoriano e mãe transmontana, que vive em Lisboa há 14 anos.

Começou por tocar com apenas 14/15 anos teclas num grupo de rock, incentivado por um amigo, e ainda nesse início de percurso, através das referências musicais que gravitavam pelo grupo, se sentiu mais atraído, que os restantes músicos que o acompanhavam nesse seu início, pelos instrumentos de percussão e recorda Santana (atenta ao lembrar o despoletar do gosto por outro género de ritmos e instrumentos que os produziam).

Começou a sua viagem física muito cedo - e com ela a pessoal/existencial que já o inquietava no Porto - quando foi três meses para Cuba, onde se rodeou de alguns elementos culturais, próximos de África, que lhe despertaram ainda mais a sua relação com as construções rítmicas que já o cativavam, com os tambores batá, a oralidade e música associada ao culto religioso, mas também géneros como a salsa, etc.

Faz parte do grupo Terrakota (um grupo expressivo que reuniu não só músicos de outros países - como Angola, Itália, Portugal, etc - como um conjunto de manifestações culturais na sua música expressas pelas performances e instrumentos que acompanham a história do grupo, como: djambés, congas, darbuka, batà, repenique, didjeridoo, sabar, tama, balafon) e nos últimos 10 anos (naquele que designa como o 'período de Inverno' do grupo Terrakota e que vai de Dezembro a Março) viajou e fez recolhas de instrumentos, manifestações culturais e musicais em países como Senegal (onde já esteve cerca de 8 vezes), Guiné, Cuba, etc.

Esteve para ingressar no curso de Antropologia Musical (ligada aos Estudos Africanos) em Inglaterra, mas coincidiu com o ano em que se cruzou com os restantes elementos do grupo Terrakota, onde optou por ficar.

Nos últimos 14 anos, em que se radicou em Lisboa, mas com viagens anuais a outros pontos do mundo, como os já mencionados, não deixou de fazer trabalho de campo com ligação à diáspora e ao conhecimento que tem absorvido. Fez e faz Documentários baseados nas suas recolhas e utiliza-os no serviço comunitário na zona de Lisboa em que vive, sobretudo.

Nesta recolha de entrevista fala da falta de capacidade local (na cidade de Lisboa) para sustentar obras de cariz comunitário, social e cultural apesar da aparente 'multiculturalidade' lisboeta que diz até 'traiçoeira', do seu operar ser feito, apesar das contrariedades e dificuldades que o meio em que vive lhe apresenta, de um modo individual activo (nas oficinas de instrumentos com materiais reciclados que já criou, nas aulas de sabar e percussão que agiliza apesar da falta de incentivos autárquicos, etc), acredita que a viagem fornece ao indivíduo actuante neste âmbito um enriquecimento que um mundo de acesso tecnológico, aparentemente mais facilitador a essa pesquisa, jamais trará e reflecte sobre a importância em o sítio migratório que é Lisboa, no qual desenvolve o seu trabalho, estar atento, receptivo e participativo ao enriquecimento que só um conhecimento mais próximo das várias culturas que o formam e nele permanecem há um tempo vital (com as suas músicas, 'tradições' e performances) poderá possibilitar que tal aconteça.

© 2012 Nataniel Melo à conversa com Soraia Simões, Perspectivas e Reflexões no Campo

Recolha efectuada em Lisboa na casa de Nataniel

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Né Ladeiras em Discurso Directo

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Né Ladeiras em Discurso Directo

Né Ladeiras (foto de Lauren Maganete)   para citar esta entrevista :  Né Ladeiras em Discurso Directo, entrevista de Soraia Simões, Plataforma Mural Sonoro em 20 de Agosto de 2012

Né Ladeiras (foto de Lauren Maganete)

para citar esta entrevista: Né Ladeiras em Discurso Directo, entrevista de Soraia Simões, Plataforma Mural Sonoro em 20 de Agosto de 2012

Né Ladeiras, Fonograma: 'Traz-os-Montes'

 

BI: Maria de Nazaré de Azevedo Sobral Ladeiras, nascida na cidade do Porto. A 10 de Agosto de 1959.

(Soraia Smões) Na tua casa sempre contactaste de modo activo com música. A tua mãe cantava, recordo-me de uma conversa que tivemos no ano passado em que te lembravas dela como sendo uma ‘menina da rádio’. O teu caminho ou contacto, presumo, que inicie, neste âmago, desde que te conheces...

( Né Ladeiras) O meu início musical dá-se desde que nasci. Fortes genes familiares, tendências vindas de muitas gerações, convívio tertuliano fomentado pelo avô materno, cantorias ouvidas na barriga da mãe. A música a fazer parte como fazia do quotidiano dos adultos, adolescentes e crianças só podia transformar-se como numa segunda pele.

 

E a sua prática. O querer aprender ou viver a fazer isso mesmo?

 

O salto primeiro dá-se logo após o 25 de Abril. Quando 4 amigos se juntam com uma paixão comum: a música latino-americana, com maior incidência para o Chile. Um ano antes, deu-se o golpe de estado, que salientou a arte da intervenção de nomes como Violeta Parra e Victor Jara. Já sobejamente cantados, por grupos que se tornaram a voz dos oprimidos destes idos anos 70: Quillapayun, Intti-Illimani, e que se estendia por um continente solidário num coro de vozes como a de Mercedes Sosa, Pablo Milanes, Silvio Rodrigues, Atahualpa Yupanqui.

Assim, partíamos para cada campanha com a mensagem pronta a saír das violas, flautas e vozes, porque era preciso avisar mais gente que um novo país floria. O que acontece é que ao tomar contacto com as populações, dei-me conta – apesar de já o saber pelo trabalho inestimável de Michel Giacometti, Fernando Lopes-Graça, Jorge Dias – da riqueza da música cantada no trabalho, no amor, nas manifestações pagãs e religiosas por esse país fora. A ligação foi instantânea e em mim ficou, para sempre, a raíz profunda que alimentou o tronco principal do meu destino musical.

Entretanto, surgiu a hipótese de integrares um grupo, que acabou por assumir uma certa expressividade no contexto da música popular em Portugal.

Exacto. Depois veio a oportunidade de integrar os Trovante, em 1979. Que iniciavam uma nova era entre o ‘tradicional’ e as composições de originais com influências musicais até então inexploradas. Na verdade, sentia-me com vontade de experimentar outras sonoridades à da raíz que cuidava. A maquete de ‘Baile no Bosque’ foi assim construída, vivenciando o prazer da descoberta.

E no início da década de 1980, integras outro grupo –  Banda do Casaco – que marcou um tempo e de que ainda hoje nos lembramos. Nos cruzamentos que fez, no atentar diferente sobre recolhas e cancioneiros, no modo diferente também de compor, de como fizeram essa ligação entre o contexto urbano e as expressões musicais de carácter tradicional e culturais de ambiente rural em alguns dos casos. Para quem olha, volvidos uns anos, parece que estavas, de algum modo, entre um conjunto de outros autores que faziam parte de uma certa ‘revolução’ operada nas músicas populares do nosso país…

Em 1980, recebo o convite para fazer parte da Banda do Casaco, que estava a preparar o Jardim da Celeste. Foi uma abertura total quanto aos horizontes, que me eram desconhecidos ainda. Já admirava muitíssimo a ousadia de vanguarda, que apresentavam nos seus trabalhos discográficos. Era uma dimensão muito acima das minhas expectativas e ver-me no meio deles, observar a sua forma de criar, arranjar e produzir foi a grande aprendizagem que me daria asas para o futuro. Devo à Banda do Casaco a minha forma de estar em constante movimento, sem acomodações estéticas e fórmulas etiquetadas. Aprendi que a música não precisa de rótulos. Aprendi que se pode ter uma personalidade única desde que se siga a intuição artística e não se pese outro tipo de lixo para ficar num lugar cativo.

No meio de tudo isto, eu continuava a ter as minhas posições e credos, que provinham de uma formação de esquerda, mas que nunca me impediu de ouvir com isenção as opiniões de outros.

Muito curioso, é que uma parte do meio conotava a Banda do Casaco com a direita e uma outra com a extrema esquerda! (risos)

Eu percebi, que ser-se independente, sem ‘rabos de palha’ e assumindo que se esteve lá, no PREC, no verão quente, nas manifestações, reinvindicando a terra, o pão, a educação, fazer parte de um grupo por convicção, e um dia chegar à conclusão, que a revolução tem de passar primeiro por cada um de nós, e depois para as massas, não nos tira em nada o direito de prosseguir na luta, mesmo que de outra forma.

Tenho muito presente, pessoas que conheci e que sei terem sido as melhores que este mundo deu: Álvaro Cunhal, Dias Lourenço, Pires Jorge, Paulo Quintela. Custa-me a crer, que da minha geração algo se tenha perdido. Nunca vi tanta promiscuidade ser fomentada por quem viveu e esteve lá. Falo obviamente das ‘valsas’ e ‘foxtrots políticos’ de elementos, que sem vergonha alguma, actuaram mal e com igual desfaçatez se venderam ao poder mais obscuro deste país.

Para mim ficou registada, igualmente, a estatura humana de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. Não é preciso estar do outro lado da barricada para saber da integridade, que rege estes memoráveis da história portuguesa. O que é preciso é seguir-lhes o exemplo, no melhor que uma personalidade com carácter possui.

Mas, o que fica são as memórias, sem rugas, dos conselhos, desabafos, ideias, atitudes claras, posturas coerentes, irreverência a par com o humor, que as pessoas inteligentes nos agraciam e que com um sorriso nos fazem pensar.

E tinhas ‘personagens’ que eram assim…

O José Afonso era assim. O Adriano Correia de Oliveira, o Ary dos Santos.E para nosso bem, a permanência de pessoas como o Luís Cília, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Fausto, Vitorino, Paulo de Carvalho, Simone de Oliveira (estou a falar das minhas referências como é obvio), têm dado a sua arte de formas diferentes, claro, mas com uma extraordinária dignidade que os faz serem verdadeiros. Admiro muito quem assim é.

Falemos um pouco do teu legado discográfico.

A minha discografia resume-se nos álbuns a solo: a Alhur (1982) (EP, Valentim de Carvalho), Sonho Azul (1984) (Álbum, Valentim de Carvalho), Corsária (1989) (Álbum, Schiu!/Transmédia), Traz-os Montes (1994) (Álbum, EMI-Valentim de Carvalho), Todo Este Céu (1997) (Álbum, Sony), Da Minha Voz (2001) (Álbum, Zona Música), Anamar, Né Ladeiras, Pilar – Ao Vivo (2002).

E tens as compilações e colaborações com outros músicos, que te convidaram.

Exacto. Espanta Espíritos (1995) com o tema “Estrela do mar” (CD, Dínamo), A Cantar Xabarin (1996) com o tema “Viva a música!” (CD, Boa), A Voz & Guitarra (1997) com os temas “La Molinera” e “As Asas” (2CD, Farol).O Canções de Amigo,  (1999) (CD, Sony) - Participações Especiais ainda com Heróis do Mar- Amor (EP), Sétima Legião - Volta ao Mundo (CD, Sexto Sentido), Corvos - No Canto do Olho, Depois do Mar sem Fim (CD, Medo), com Brigada Victor Jara Eito (1977) (Álbum, Mundo Novo) e Tamborileiro  (1978) (Álbum, Mundo Novo). Com a Banda do Casaco – No Jardim da Celeste (1981) (Álbum, Valentim de Carvalho) e Também Eu (1982) (Álbum, Valentim de Carvalho).

E ainda tiveste os singles. 


Sim. Os singles com Trovante - Tocar a Reunir (1979) (SP) e Ana & Suas Irmãs - Nono Andar (1988) (SP,Transmédia).Depois destes 9 anos de recolhimento, chamemos-lhe assim, denoto que as editoras estão a perder cada vez mais o poder, que tinham e que as fazia serem caprichosas quanto à individualidade dos artistas que compunham os seus “catálogos”.

Lembro-me perfeitamente que em 1982,quando estava a preparar a gravação de Alhur, bati o pé porque queria convidar os Heróis do Mar. Um dos responsáveis da editora perguntou-me com um ar com um ar muito surpreendido. “Mas, tu queres esses miúdos de plástico!?” Não são de plástico. Têm um projecto fantástico, eu gosto e é com eles ou não é com ninguém. Como se (ou) viu foi a melhor escolha que podia ter feito. A produção do Ricardo Camacho fez toda a diferença na direcção que este EP pedia e que eu pretendia que tomasse.

Depois deste episódio abordaram-me para eu começar a compôr e ser “uma Rita Lee portuguesa”! Levantei-me da cadeirinha das reuniões, com vontade de bater em quem teve essa brilhante ideia.

Não posso esquecer, que em 1984, a Valentim de Carvalho, teve a infeliz ideia de querer mudar o meu nome porque, segundo o produtor do Sonho Azul, Né Ladeiras, não era um bom nome para uma cantora e muito menos quando esta chegasse aos 40 anos (risos).

Mandei-os à fava, claro, não permiti tal pouca vergonha e as minhas relações com essas pessoas acabaram por se radicalizar num grande corte que ainda hoje permanece. Detesto o ‘Sonho Azul’ em tudo. Da capa ao conteúdo. Com excepção, que em muito me honra, da colaboração dos músicos fantásticos que nele participaram. Agradeço a cada um deles o que deram de genial a uma produção tão escoriada: António Emiliano, Mário Laginha, Tomás Pimentel, Edgar Caramelo, Caínha, Ricardo Camacho, Paulo Pedro Gonçalves, TóZé Almeida e Tó Pinheiro da Silva como técnico de som.

Por aqui se vê, o poder que detinham e como asfixiavam quem queria ser como era. Por isso o meu contentamento vai no sentido de hoje em dia quase não serem precisas para nada.

Mas, o que sentes que mudou efectivamente na indústria fonográfica?

Felizmente começou a existir um circuito alternativo de editoras mais pequenas que humanizaram as relações com os seus artistas. E a quem leva um grande não, sobre o seu projecto, há sempre a hipótese de recorrer às novas tecnologias para fazer ouvir a sua música. Isso é fantástico! Nestes casos, e se houver uma boa distribuidora, o artista detém o controle sobre o seu trabalho em todos as valências. Para isso também é preciso ter jeito! Ser além de artista, manager e homem/mulher de negócios. Nem todos são bafejados com esse ‘dom’.

No meu caso, terei sempre de precisar de uma editora com a mente aberta e acessível para me ouvir e respeitar as minhas ideias. Quando me contratam já sabem o “produto” que sou, logo não vão querer que eu seja outra coisa!

Há uma curiosidade que tenho. E sobre a qual nunca tinhamos conversado ou reflectido antes. Aquele disco de 1999, em que o Paulo de Carvalho convida mulheres a escrever para ele. A tua letra é talvez das mais expressivas que ele interpretou. Além, de não entender porque não se encontra à venda em discotecas um disco como o Mátria. A forma como é executado à época. As raízes que ali se patenteiam…

Adoro colaborar em outros ‘hemisférios musicais’. O meu nomadismo impele-me a experimentar outras formas em projectos diversos e linguagens diferentes.

Quando o Paulo de Carvalho me convidou para fazer uma letra para o seu álbum Mátria eu tremi. Eu? Porquê eu? O que posso dizer? Escrever para o Paulo de Carvalho? O meu ícone vocal? Não! (risos) Mas algumas conversas depois – e o Paulinho é uma pessoa encantadora, que defende muitíssimo bem os seus pontos de vista – lá me sosseguei a um canto e comecei a escrever.

Consegues reproduzir aquela letra?

Era assim:

Mukaji Lakanji*

Quiá lezó ngoma samí unguía tetembuca

Azan unguiá macumã riála kewala

Lezo olopi inça cafioto

Lezo ajeunsá inça liégi

Nabá fuki unguiá inça ofangê

UnguÍ duílo bogê

Quiá mabu mukutu otombô

Nafun incê muchima quiana diege caxí

Quiá azan lungo nabá menha

Quiá azan izô nabá sufí

Azan Maiála

Risne angorossi

Lunketo rongol o azan lakangi

Nabá laakangi azan unguí angomi

Unguí incé rongol o nabá bassê

Azan dodun

Infô unguiá tafusi

Unguiá curá ilaó caindé

Nabá quiá abadá nakejó abokum

Bambolassi samí moila maku

Lunketo rongol o azan lakangi

Nabá lakangi azan unguí angomi

Unguiá cafioto azan samí ezala

Unguiá riál a azan naquelê

Unguiá unketa mukí azan akodi

Nabá unketo rongol o azan gitiça

Mucossi bambelô abassá

Inkice azan noió nabá ricungo.

*dialecto Kiribum-Kassangé dos negros bantos levados para o Brasil

Quando o Paulo viu a letra ligou-me. “Tem de ser em português, Né!”

Em português? Mas eu pensava que pudesse ser uma mulher a transmitir o sentimento em dialecto, disse-lhe.” As letras são todas em português”, disse-me ele.

Olhando para a lista de convidadas, era óbvio que eu destoava com esta intenção que, por melhor que fosse, não cabia ali. Reescrevi-a e assim ficou o sentimento de todas as mulheres,independentemente dos dialectos do mundo.

‘Mulher é Vida’ foi musicada por Paulo de Carvalho e Ivan Lins e foi o single de lançamento do álbum belíssimo que é Mátria.

A transnacionalização, as viagens, foram transversais nos momentos que acompanhei do teu percurso musical.

Tenho várias pontes para o mundo. Aliás voo sobre elas! Os meus afectos artísticos englobam Médio Oriente, Tribos Celtas, cantos de Lamas e Mongóis, Vozes Búlgaras, Ragas Indianas, Fonéticas Nórdicas, Sons da Terra Aborígene e como não podia deixar de ser, África e Brasil.

A irmandade que aprofundei, com os aromas rítmicos e musicais brasileiros, fez-me participar com as Mawaca tanto em disco como em estúdio, com Chico César desde a Expo98 e que se prolongou num album de originais, o meu último de 2001, que contou com a participação do mítico Ney Matogrosso, para além de canjinhas espontâneas sempre que me deslocava lá. Conheci muita gente boa e profissional.

Depois há toda uma afectividade musical repartida pelo continente africano devido à criação extraordinária e produção de nomes que significam muito para mim e dos quais destaco: Ruy Mingas que cantava como ninguém o ‘Poema da Farra’ e ‘Monangambé’; Filipe Mukenga, que entre um reportório de originais fabuloso adaptou o tema tradicional angolano Humbiumbi (muito divulgado por Djavan), que o internacionalizou; Eduardo Nascimento com a sua voz de ouro eternizando o que de melhor se fazia em festivais da canção; Bonga divulgador das cores sonoras angolanas pelo mundo ; o imensoTito Paris, que amo de paixão, e que tocou todos os instrumentos na faixa Sinhô (Da MInha Voz, 2001), Lura, Nancy Vieira, Ferro Gaita, de Cabo Verde; Kimi Djabaté, Tabanka Djaz da Guiné-Bissau; Stewart Sukuma a celebrar 30 anos de carreira cheia de talento, meu cantor de eleição moçambicano.

A lista é mais vasta, mas por aqui me ligo a uma parte de mim, que me faz ser um elemento do ‘mundo lusófono’.

E tens sido uma ‘mulher de causas’?

Ser mulher de causas está na ordem do meu dia-a-dia. Sempre assim fui e continuarei. Nem há como explicar porque o sou. Fui educada assim. Não posso fingir que não vejo, não viro as costas a assuntos que me tocam profundamente. Ser-se artista é principalmente isso. Ter espírito missionário e procurar conteúdos que sejam partilhados com o objectivo de chamar a atenção de mais e mais pessoas. Fazê-las pensar. Ser-se artista, é disponibilizar as ferramentas que nascem connosco, para o bem dos outros. A casa com piscina não me interessa para nada. Tudo isto é emprestado e ninguém leva nada para o outro lado. O que vai e o que fica são uma série de acções, que ficarão gravadas em cada pessoa, que se dispôs a ouvir aquele que tinha algo para dizer.

E a música? O que é para alguém com o teu legado?

A música é diversão, que toma consciência do lado justo da vida. Se for só “pra-pular”, mastigar e deitar fora não me interessa e nem perco tempo com isso. Daí que seja muito selectiva nas minhas escolhas quanto a co-autorias, parcerias, músicos e produtores, e ao que consumo enquanto ouvinte. O ruido dos léxicos e modas batidas – escrever em inglês, por exemplo, moda muito provinciana de alguns músicos portugueses vai directo para o lixo. Claro que escuto músicas anglo-saxónicas, mas sei o que me interessa. Nada de Beyoncés, Rihannas, e quejandos. Quem possui essência e verdade no que faz prende-me a atenção. Ser honesto neste “negócio” é fundamental para haver respeito.

E agora andas a percorrer rotas e destinos que outrora pisaste, outros pela primeira vez possivelmente, com o teu novo espectáculo…

Sim. E pela estrada retomo o meu caminho com dois tipos de espectáculos: “Céu da Boca” e “À Flor da Pele”.

O primeiro formato é composto por 5 músicos e inclui essencialmente o reportório das minhas raízes transmontanas assim como outros cantares que gravei sob as influências dos cantares tradicionais da Beira Baixa e Beira Alta. É um espectáculo muito vivo, suado, e bem constituído (risos). Mostra não sermos aquele povo traçado pelo xaile e de pensamento encurvado. A fusão com outras perspectivas musicais estão muito presentes nos arranjos e execução. Pedaleiras no bouzouki e no baixo, pois claro. Ambiências xamãnicas porque não? A cumplicidade é muita, porque gosto imenso desta geração de músicos sem fronteiras.

O segundo é totalmente acústico, com dois músicos multi-instrumentistas em palco (cordas e percussão), e viaja pelas canções que me fizeram crescer. Digamos que é sobre uma parte da minha vida e que inclui José Afonso e Fausto (também presentes em Céu da Boca) Victor Jara, Sérgio Godinho e José Mário Branco, Sétima Legião, Dead Can Dance, Rui Veloso, Banda do Casaco, Chico César. Enfim, compositores que faço questão de cantar por todas as razões apontadas atrás. Uma vez mais, os arranjos e execução instrumental, remetem-nos para horizontes onde tudo se recria e renasce.


Né Ladeiras em conversa com Soraia Simões Perspectivas e Reflexões no campo

 

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Kimi Djabaté (tocador de balafon e construtor)

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Kimi Djabaté (tocador de balafon e construtor)

14ª Recolha de Entrevista

 

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BI: Kimi Djabaté nasceu na aldeia de Tabato, Guiné-Bissau, em 1975. É um músico que reside desde 1995 em Lisboa.

Desde os 3 anos que toca, muitas vezes porque os pais o incitavam a isso, chegou a tocar para a Corte (um Rei) e em casamentos de ‘realeza’ e desde a adolescência que fez viagens, acompanhado sobretudo de músicos mais velhos, sempre a tocar.

A sua primeira gravação musical aconteceu na Guiné em 1989, com ‘Balafon de Tabato’(em alusão à aldeia onde nasceu) e do qual também o seu pai fez parte.

Toca e constrói os intrumentos vários que toca (balafons, koras, tamas, etc) desde que se conhece. “Um bom tocador tem de saber construir o seu instrumento”, reflecte.

Oriundo de uma família ligada à música, onde teve a possibilidade de desde cedo receber formação na área da ‘música tradicional mandinga’, foi evoluindo como músico junto de outros com quem acabou por colaborar, caso de músicos como Mory Kanté, Waldemar Bastos, Netos de Gumbé, entre outros.

Sempre cantou na sua língua originária e em conversa comigo diz: “a integração do migrante cabe ao próprio migrante”, sem se anular a si mesmo.

Em 2005, lançou o seu primeiro álbum a solo, ‘Teriké’ e em 2009 ‘Karam’.

Nesta recolha reflecte sobre a sua forte ligação com a herança da ‘música tradicional griot’, que teve o seu berço na região ocidental de África, a ‘música tradicional Mandinga’, com que cresceu, e potenciou o seu interesse por outras práticas coreográficas (como a dança local 'gumbé') e musicais (como o 'afrobeat', a 'morna' ou os 'jazz' e 'blues'), os instrumentos, os músicos com que se tem rodeado, as dificuldades de aceitação do seu primeiro fonograma em Portugal, o circuito musical em que opera em Portugal e os países onde já tocou - Senegal, Mali, Costa do Marfim, França, etc - o aspecto biográfico de um disco como ‘Karam’, as vantagens e dificuldades em chegar a um público cantando no seu dialecto e, entre outros assuntos, a vontade de regressar à Guiné-Bissau podendo ajudar na evolução cultural e económica do país (e aldeia) que o viu nascer.

© 2012 Kimi Djabaté à conversa com Soraia Simões, Perspectivas e Reflexões no Campo

nota: paisagem sonora incluída

curiosidade: O tema ‘Kodé’, do fonograma Karam, foi composto por Milton Gulli e gravado pelos Cacique´97, depois incluiu-se a kora do Brahima Galissa e a voz e balafon do Kimi Djabaté. Além do disco Karam de Kimi Djabaté, o tema acabou por figurar no disco de Cacique´97.

 

Recolha efectuada na zona do Chiado (em Lisboa)

Som, Pesquisa, Texto: Soraia Simões

Fotografia: Alexandre Simões (Flapi)

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Susana Travassos (Cantora, Compositora. Portugal-Brasil)

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Susana Travassos (Cantora, Compositora. Portugal-Brasil)

9ª Recolha de Entrevista

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BI: Susana Travassos nasceu a Maio de 1982 em Faro, onde viveu até aos 18 anos (Vila Real de Santo António mais precisamente).

Iniciou o seu percurso musical aos cinco anos estudando acordeão e aprofundando mais tarde os seus estudos com aulas de piano e de canto lírico, no Conservatório Regional do Algarve, em Faro.

Aos 18 anos, ruma até Lisboa, onde inicia e completa a sua formação em Psicologia Educacional, no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, passando ainda pelo Instituto de Análise de Movimento/Análise do Movimento – Método Cary Rick.

Estudou jazz no Hot Clube de Portugal, teve aulas de canto com Joana Rios, Ana Luiza, Adélia Issa e Maria João.

Nesta recolha de entrevista fala do seu primeiro fonograma a solo, Oi Elis, um CD de homenagem a uma das mais reconhecidas intérpretes da história da música popular no Brasil, Elis Regina, das portas que se abriram no mercado musical brasileiro com este disco, do projecto, que integra a convite em 2009, Sotaques Paulistas e da sua apresentação no Sesc Pompeia ao lado de nomes como Zeca Baleiro, Mafalda Minozzi, Fortuna e a banda Karnak, do espaço Tejo Bar onde começou por actuar quando ainda estudava no ISPA, etc.

Nos últimos anos, Susana tem estabelecido uma ligação muito forte com a cultura e a música de Minas Gerais e fala de algumas pontes, intercâmbios e diferenças entre Portugal e o Brasil no que concerne ao desempenho dos autores (foi com o Brasil que aprendeu que um intérprete/músico/compositor também pode ser o agente de si próprio), da sua participação em espectáculos diversos (onde esteve ao lado de músicos como Makely Ka, Vitor Santana e Mestre Jonas e canta ao lado de Kristoff Silva, Juliana Perdigão, Mariana Nunes, Flávio Henrique), da sua colaboração nos fonogramas “Beirute” de Vitor Santana e “Caipira no Mundo” de Chico Lobo e no DVD “Como se a vida fosse música” do poeta do Clube da Esquina Murilo Antunes, do documentário idealizado por Pierre Aderne e que passou recentemente no Cinema São Jorge (MPB - Música Portuguesa Brasileira), que conta com a participação de diferentes músicos e/ou compositores, entre eles: Fred Martins, João Afonso, Mário Laginha, Sara Tavares, Fernanda Abreu, Cuca Roseta, Jorge Palma, Luiz Caracol, Tito Paris, entre outros.

Em São Paulo Susana cantou com diversos músicos como, em exemplo, Luis Felipe Gama, com quem começa a compor frequentemente, Ana Luiza, Marcelo Pretto, Kiko Dinucci, Juçara Marçal, grupo vocal Vésper, Zeca Baleiro e Chico Saraiva com quem desenvolve uma parceria desde 2010 e que resulta no disco Tejo-Tietê, produzido pelo guitarrista Paulo Bellinati, com previsão de lançamento em Maio de 2013.

É ainda membro da Orquestra Todos (ouvir 7ª recolha de entrevista com o maestro Mario Tronco) um grupo constituído por músicos de várias origens, que se unem para criar algo transversal a todos: a música.

© 2012 Susana Travassos à conversa com Soraia Simões, Perspectivas e Reflexões no Campo

Som, Pesquisa, Texto: Soraia Simões
Recolha efectuada em Anjos, Lisboa

Fotografia de Dominik Picnic

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RAProduções de Memória, Cultura Popular e Sociedade: Chullage

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RAProduções de Memória, Cultura Popular e Sociedade: Chullage

Dossier RAProduções de Memória, Cultura Popular e Sociedade

 

 

Quota MS_0001 Europeana Sounds [ realizada em Julho de 2012 no âmbito do Mural Sonoro, repescada posteriormente para o audiolivro e para este Dossier]

 

"Os meus pais chamaram-me Nuno Santos, o meu bairro chamou-me Chullage", refere.

É um músico - rapper, dizedor, produtor - e sociólogo filho de pais cabo-verdianos.

Cresceu no Monte da Caparica, no Asilo 28 de Maio, onde iniciou o seu gosto e ligação ao rap, e mudou-se para a Arrentela (no Seixal) onde acaba por desenvolver trabalho de campo no âmbito social activo.

Em 1993, ano em que se mudou com a família para a Arrentela, formou o seu primeiro grupo digno desse nome De "187 Squad" e a 'crew' Red Eyes G.

Em 1997 Chullage começou a fazer notar-se pelo seu percurso a solo.

Em 1999, convidado por D-Mars (Micro), entrou na colectânea Subterrânea com os temas 'Resistência' e 'Ciclo Infernal' e colaborou no fonograma Microestática, de Micro. Foi sendo convidado para entrar em diversas mixtapes (de DJs como Bomberjack, Sas, Cruzfader ou NelAssassin).

No seu legado fonográfico contam-se: 'Rapresálias (Sangue Lágrimas Suor)' de 2001, que representou até uma mudança de paradigma no 'circuito de produção independente' ao ser a primeira edição independente do Rap português a ultrapassar os três mil discos, 'Rapensar (Passado Presente e Futuro)', lançado em 2004 (pela etiqueta Lisafonia) acabando por posteriormente ser eleito como álbum do ano pelos leitores da revista Hip Hop Nation (e o video “National Ghettographik” o segundo melhor do mesmo ano) e Rapressão (de 2012).

Nesta recolha de entrevista Chullage fala, entre outros aspectos, das suas primeiras referências musicais, que o fizeram despertar para o rap e cultura hip-hop ( como o caso do vinil de Rebel Mc da Zulu Nation), das suas primeiras improvisações e do primeiro grupo que criou com enfoque no improviso, os Black Brothers, das suas ligações à diáspora, a Cabo Verde, ao bairro onde cresceu e ao contacto enquanto morador mais recente com a cidade de Lisboa, de noções que o inquietam na urbe e lhe servem tantas vezes de mote para a criação como: a migração, as 'identidades', o espaço social e o exercício atento e crítico relativamente às suas dinâmicas, ou noções com uma parca operacionalidade como a ideia de 'multiculturalismo' na cidade, que acabou por lhe servir de deixa, num repto que lhe lanço no fim da conversa: a composição em tempo real (improviso) a partir dessa palavra/referência.

Fotografia de capa: Augusto Fernandes no âmbito do Ciclo «musicAtenta» de Mural Sonoro em Novembro de 2012 

Simões, Soraia 2017 RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adia (1986-1996). Editora Caleidoscópio. Lisboa.

Simões, Soraia 2018/9 no prelo Fixar o Invisível. Os primeiros Passos do RAP em Portugal. Editora Caleidoscópio. Lisboa.

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Romi Anauel em discurso directo

Romi Anauel em discurso directo

Romi Anauel, nasceu em Angola em 1972 e veio para Portugal aos dois anos de idade. Foi a voz feminina escolhida do grupo Terrakota. Agora vive em Barcelona e tem um disco novo (Phoenix) a sair no final do mês de Junho do ano presente.

(Soraia Simões) E pertences a uma tribo, não é assim Romi? Há, memórias que tendem a perdurar, lembras como foi quando vieste para Portugal?

 

(Romi Anauel) Nasci em Angola e pertenco a uma tribo que são os massai, mas que em Angola tem outro nome. Em Angola chamam-se Kuanhamas e é uma tribo que vem do Nilo.

Vim para Portugal, quando tinha dois anos, por causa da guerra. Os meus pais quiseram fugir para Portugal.

Desde muito nova, 12/13 anos, que gosto de  ouvir muita música. Os meus pais acabaram por achar que me deviam meter numa escola de música.

Recordas o que ouvias em miúda?

Sim, recordo. Primeiro a que me era imposto pelos media. Pela rádio e televisão sobretudo.

 Em casa ouvíamos muita música angolana. A minha mãe era uma interessada e apaixonada por música feita em Portugal, como o fado, ou as músicas mais tradicionais.

Nessa altura, não era o que eu mais gostava. Mas, fui crescendo e a música e abertura começam a entrar no meu universo.

Tinha sonhos de olhos abertos. Era e continuo a ser uma grande sonhadora.

Aos doze anos, via-me já num palco, fazendo grandes concertos, com grandes encenações.

E os teus pais tinham mesmo de te meter numa escola de música…

Sim (risos)

Ouvias alguns músicos do teu país, porque os teus pais ouviam em casa. E começaste, nessa abertura maior, à medida que te foste apercebendo dessa ‘riqueza’, a escutar para ti mesma, sem imposição, alguns deles? Houve, ainda hoje há, nomes de forte popularidade entre nós. N’gola ritmos, Ruy Mingas, Eduardo Nascimento, Bonga…

Sem dúvida. Teta Lando, Bonga, Duo Ouro Negro, Quim zé, Ruy Mingas. Sim sim.

E desde cedo me chamaram à atenção vozes como as de Caetano veloso, no Brasil, da Maria João, em Portugal,  coisas que as crianças não entendem muito bem. Mas, que não sabendo explicar porque gostava, ouvia e gostava bastante. Num plano internacional, adorava e adoro o Prince.

Mas, sabes que, ainda hoje penso que quem me envolveu com  isto, com o que faço hoje em dia, foram simplesmente as minhas projecções mentais em criança (com uns 12, 13 anos). Posso provar que isso funciona.

As tuas projecções, são os teus sonhos em criança?

Sim. De certeza! Nem imaginas como sonhava. Via-me a cantar e a dançar.

Tive algumas aulas de noção musical,  mas que não acrescentaram ao nível do que já era nato em mim.

A música surgiu muito naturalmente. Fiz o 12º e fui para Lisboa com 18 anos.

Comecei, em Lisboa,  a trabalhar em Hotelaria e com o tempo fui conhecendo pessoas.

Fiz dança, formei-me em teatro, onde também criei, com um conjunto de outras pessoas, uma companhia. Era a companhia multi-étnica do Tiago Justino.

E depois tiveste o teu primeiro grupo musical.

Logo a seguir, sim. Com umas amigas fizemos a primeira ‘bandinha’ à capela. Eramos quatro.

E em paralelo ao que considerava, na altura, ser um ‘brincar de bandinha com amigas’, formei-me em Biodança e ainda formei uma banda de covers. Mas, tocámos muito pouco aqui, pois não gostava muito de repetir músicas, não me sentia confortável a fazer versões de canções que não eram originais.

Entretanto, quis formar um grupo só com vozes femininas, todas de origem africana. Eramos sete, mas senti que não houve muita vontade de trabalhar.

E começa a tua aventura com o grupo Terrakota.

Exacto. Um grande amigo, que considero um ‘artista completo’, formou uma banda só para me fazer feliz, pois reparou que eu tinha muita vontade de cantar e ter uma banda.

E depois o Francesco Valente, que já havia pertencido a quase todos os meus pequenos projectos, acabou também por me chamar para  iniciar em Terrakota. O grupo estava mesmo no seu início e  procuravam uma voz.

E levas, levam na verdade todos, performances incomuns para os vossos espectáculos ao vivo…

Sim. O teatro e a dança foram fundamentais, para o meu desenvolvimento como artista e performer. Foram uma grande base. Deram-me uma grande noção do que é estar em palco.

E o que se seguiu?

Com Terrakota estive desde o início. E foi onde me senti livre de criar, na medida em que é um projecto muito aberto a todos os elementos, mas por outro lado, era muito difícil, já que todos tinhamos personalidades muito fortes. Isso sentiu-se nos primeiros álbuns. O exagero das influências que cada um tinha.

E eu era um, dos poucos elementos, que vinha de uma atmosfera que não o hardrock. Um estilo que nunca consegui entender.

O ‘exagero das influências’ era/é evidente em Terrakota, mas se calhar foram ‘pioneiros’ nisso, nessa convivialidade cultural, não? Ou tem que existir uma certa harmonia de grupo e ali deixaste de o sentir? 

Sim, sem dúvida. O exagero também era muito espontâneo e marcou muito esta banda.Mas, nos últimos álbuns, todos fizeram um esforço para aprimorar, conter e ordenar um pouco mais a nossa musicalidade.

Mas, fomos, sem dúvida,  pioneiros nesse assalto à fusão de culturas, que representa no fundo um pouco de cada um de nós, de cada ser na natureza.

Já nada é totalmente puro, como sabemos, mas  uma fusão de conhecimentos, crenças hábitos.

Atenta-se, no teu percurso, esse ‘modo de pensar’, os teus rochedos referenciais também.

Também o considero, sim. As minhas influências, baseiam-se muito no soul, no funk, bem como toda a música de raíz/tradicional. Adoro. A música popular brasileira, a bossa nova, o afro-beattambém.

Sente-se, nestes últimos temas que trabalhaste, um apreço pelo ‘universo do povo de Fela Kuti’. Dos ‘yoruba’ e do ‘highlife’. Nos ritmos específicos  que procuras, sobretudo. É a tua ‘arma de arremesso’, o teu lado de ‘manifesto social’, numa realidade diferente daquela em que assentava a mensagem do povo da Rep da Kalakuta, para a música? 

Sim.Adoro highlife, é um bom sinal que o sintas neste tema que escutámos.

Fela kuti é um grande exemplo. Para mim, a música tem também que ser usada como uma mensagem, que lhe esteja associada. É onde poderei dar meu contributo a esta sociedade.

Sinto que a nossa sociedade, nos está espremendo cada vez mais. Quase não nos podemos expressar como cidadãos de um modo natural. Não vou usar a música para ‘decorar’. Tento que sirva de passagem para um plano mais consciente. Não  que  ache que consiga mudar efectivamente, mas sinto que posso ser um grão dentro do cosmos a incendiar outros grãos que incendiarão outros. É uma forma de protesto. Como ser humano que vive num estado ‘in-natural’ do que se poderia chamar ser humano.

É assaz curioso entender, que preservas a reunião cultural abrangente que já se via e escutava em Terrakota com os outros integrantes de algum modo,  através dos instrumentos que entram agora no teu novo repertório.

Sim. Eu adoro os intrumentos de raíz.  O ’ violino africano’, a ‘kora’, o ‘tama’ (ou ‘talking drum’), o ‘ferro’ e a ‘gaita’ de Cabo Verde, o ‘violino da música balcanica’, a ‘guitarra portuguesa’. Adoro Carlos paredes. Mas, gosto muito de outros, como a ‘guitarra flamenca’, ‘o alaude’,  o ‘Sitar’, o ‘violino ethiope’, que é dos que mais me encanta.

E estás em Barcelona agora. Quiseste sair de Portugal?

A minha vinda para Barcelona, teve que ver com isso mesmo. No início, queria simplesmente sair de Portugal. Meti isto na cabeça. Sentia que precisava experienciar outras coisas, respirar outros ares. E aqui reencontrei- me com o Alberto Perez, que é um músico que tinha conhecido anos antes. Tinhamos comentado, na altura, que poderiamos fazer algo juntos para o meu projecto a solo. Contactei-o, e mesmo no dia a seguir começamos a trabalhar.

Em princípio queria muito criar uma banda mais calma, onde se ouvisse a minha voz com calma e profundidade. Tenho até dois fados meus! Mas, rapidamente, durante uma conversa percebemos que não fazia muito sentido. Já que tinha deixado Terrakota, o que deveria criar era um estilo mais ‘contemporâneo’ mesmo que com as raízes africanas.

Foram surgindo os temas. Baseamo-nos nas influências tradicionais africanas e  demos-lhe um ‘toque mais sofisticado’. O dialecto que ouves nessa música, por exemplo, é o kimbundo e um trecho deyoruba.

Temos outro tema ‘dub’, que me chama a atenção. Canto para soldados. A  banda que me acompanha aqui chama-se ‘Soldiers of Rá’ e o nome do tema também. soldiers of rá dont give yourself to this un-natural man, a letra está baseada no discurso do Charlie Chaplin, no seu famoso filme, O Grande Ditador. É um tema de que gosto muito.Faz-me ‘pele de galinha’.Chamo a esse tema a ponte entre os dois mundos.

E criaste aí já uns conhecimentos que te ajudam no desenvolvimento do teu trabalho…

Sim (risos). No início apresentei a Alberto Perez e Raul Del Moral (que juntamente comigo formamos a  base deste projecto) 4 /5 temas meus, os quais já tinha começado a trabalhar.

O Alberto e o Raul são muito criativos. Complementámo-nos muito bem.

Eles são muito exigentes comigo.Tenho aprendido muitas coisas com eles, coisas que me irão fazer crescer concerteza a nível musical.

A minha prestação neste projecto, tem uma função completamente diferente, com uma nova abordagem na vocalização. Bem diferente do que eu tinha desenvolvido com Terrakota.

As letras são todas minhas. As músicas são nossas. Trabalhámos conjuntamente em cada uma delas.Os dois também cantam, para além de tocarem, são os meus back vocals.

Ah, e o Alberto, que vem do flamenco, canta noutro tema que se chama ‘Ojo Por Ojo’. Digo-te mesmo:Wow, como canta este rapaz!

Há também outro tema de que gosto muito. Chama-se ‘Let the money goes’, no qual há uma passagem dedicada ao ser mulher. Que é aqui vista, além do papel social, que também tem, como a chave de toda a criação. Como uma espécie de ‘deusa co-criadora’, ligada às esferas mais elevadas da criaçao, sempre sunstentada pelo amor.

Tens o álbum já pronto, com dez faixas. Consegues explicá-lo um pouco.

Este disco sairá completo no final de Junho.Está quase pronto.

Entretanto, vão estar disponíveis algumas músicas, para escutar muito em breve. Na web.

É, como dizes, um álbum que tem 10 temas e que viaja por géneros diversos. Do ‘deep funky’ aos sons, que referias, do ‘highlife’, passando pelo ‘dub’.

É muito ‘jazzístico’ também. Não aponto apenas para o ‘afrobeat’, porque não quero ser pretensiosa. É que acho o ‘afrobeat’  bastante especifico e nós, de facto, viajamos por outras atmosferas musicais.

Usamos outros elementos no disco também, como sopros, percussões.

Saxofone, Trombone, Trompete, nos sopros, cajon do flamenco, tímbilas e batás de Cuba, nas percussões, mas também bateria, baixo, guitarra e teclas.

© Romi Anauel em conversa com Soraia Simões, Perspectivas e Reflexões no campo

crédito foto: Isa Egea

para citar esta entrevista: Entrevista de Soraia Simões a Romi Ananuel, Plataforma Mural Sonoro em 17 de Maio de 2012.