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Transformismo

Universo de lantejoulas. Transformismo como resposta: afirmação e resistência, breve nota por Soraia Simões

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Universo de lantejoulas. Transformismo como resposta: afirmação e resistência, breve nota por Soraia Simões

nota breve

O Thomas Polly actua há dois anos, seis dias por semana, como transformista no Cabaret Michou (Montmartre, em Paris).

O transformismo é hoje uma prática artística em decadência que, segundo ele, mesmo entre o seu «público mais entusiasta», a comunidade gay, «perdeu interesse».

Actividade que foi de militância, afirmação e resistência da comunidade gay e transexual desde os anos sessenta do século XX (procurar Coccinelle, primeira travesti e transsexual em Paris que actuava no Madame Arthur, em frente ao Cabaret Michou).

 Nos últimos meses fomos falando da sua música e do que se estava a passar em Paris, de como determinados comportamentos e acções se repetem ao longo da história recente.

 O desenvolvimento acelerado do transformismo em Lisboa, tal como em Paris, deu-se no início da década de oitenta tendo coincidido com o crescimento de políticas neoliberais e das extremas-direitas na Europa.

 Thomas estudou teoria musical e canto, compõe, mas como manda a tradição deste antigo cabaret parisiense recria outras intérpretes. No seu caso especialmente a actriz e intérprete americana Liza Minelli de quem é fã. Transforma-se e canta com a sua voz, não em playback como grande parte dos transformistas. Já editou um CD em nome próprio (A Contre Coeur), mas apercebeu-se desde que assumiu a sua homossexualidade, aos 13 anos, no decorrer de uma aula numa escola secundária em Amiens (a uma hora de Paris) da dificuldade que essa pública revelação lhe foi trazendo no mundo do espectáculo.

 Com vinte anos criou uma personagem: «Eva», antes disso tinha trabalhado «como mulher» numa pré-primária nesta pequena localidade. Conta-me várias vezes que é difícil, muito difícil, socialmente. É difícil ser-se muitas coisas à procura de si, do melhor lugar para se ser mais próximo de si: transformista, actor, homem, mulher. Os meios ditos socializados e socializadores não se dão com ausências de definições ou de identificações exactas. Por outro lado, é um problema saber que o meio do qual se consegue sustentar, o do transformismo, está em franco declínio.

 

Na década de sessenta, ao contrário do espaço Madame Arthur, Michou, proprietário do Cabaret com o seu nome, nunca ergueu a «transexualidade como uma bandeira». O interesse estaria na «transformação artística plena do homem em mulher». Quando se sai do Cabaret sai-se homem. Encarna-se a personagem durante o espectáculo, despe-se a personagem e sai-se homem. Ora, isto tornou-se para muitos um «jogo traiçoeiro», perverso, o Thomas sai umas vezes mulher, «Eva».

 

Há dias no âmbito do Socialismo 2017, falei de um conjunto de organizações não governamentais que se oficializaram durante a primeira metade da década de noventa na cidade de Lisboa (Abraço, SOS Racismo) tendo como missões: a prevenção para a redução do vírus da SIDA, dirigida a todos/as que se encontravam em risco de novas infecções ou a promoção de reflexões que denunciassem e intervissem no terreno tendo em vista sociedades que respeitassem direitos sem discriminações, respectivamente, lembrei-me (e aos presentes) em diversos momentos da relevância de leituras e de questionamentos novos na Lisboa dos anos oitenta e noventa que hoje continuam à procura de respostas. Muito por obra de uma contínua desresponsabilização de alguns meios sociais e políticos que conseguiram uma inscrição dos seus discursos, das suas agendas com o corpo e o modus vivendi das comunidades em questão.

 

Há menos de um ano Thomas Polly soube que estava infectado com o vírus da SIDA. É seropositivo, portanto. Com a medicação actual logicamente houve uma considerável redução («indetectável» em 3 meses). Ele assume-o, como as restantes facetas deste seu percurso, várias vezes como uma truta que rema contra-corrente, reduto de resistência. Existirá algo mais enfermo em 2017 que sentir que ficaram tantas coisas pelas quais andámos a lutar ainda por cumprir? Isso é com certeza mais dramático que quaisquer Síndromes das imunodeficiências adquiridas, que afinal todos/as cremos despistar.

 Estas linhas pessoais precedem a vontade de as fixar num artigo (prelo) onde procurarei desenvolver o tema que dá título a esta partilha.

1) Thomas Polly

2) Eva: jantámos há uma semana em minha casa, foi opção do Thomas fotografar-se ao pé da tela grafitada do Mural Sonoro.

thomas2.jpg

Thomas Polly

Eva          Vídeo de Christine Rougemont, Inauguração de Promenade Coccinelle, em Maio deste ano

Eva

Vídeo de Christine Rougemont, Inauguração de Promenade Coccinelle, em Maio deste ano

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