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Carta aberta

A hegemonia masculina do hip-hop num dia dedicado à Luta e à Resistência femininas, por Soraia Simões

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A hegemonia masculina do hip-hop num dia dedicado à Luta e à Resistência femininas, por Soraia Simões

[1] por Soraia Simões

É inconsequente, ignóbil, que num evento a 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, intitulado História do Hip-hop Tuga, o qual terá lugar no Altice Arena esteja um cartaz com quase quatro dezenas de homens, alguns precursores e vários mais recentes, e apenas uma mulher, branca, que curiosamente começa a gravar já no século XXI, Capicua.

Não deixa de ser interessante verificarmos que as primeiras rappers em Portugal, maioritariamente afrodescendentes, iniciaram as suas actividades em 1989 e editaram por multinacionais ou editoras com impacto (Sony Music, BMG) em 1995, 1997 respectivamente. Fizeram-no em discos de Black Company, o grupo da colectânea RAPública (1994, Sony Music) que mais popularidade conquistou na década de noventa, convidado para este mesmo evento (o agrupamento feminino Divine entraria em 1995 em Geração Rasca e em 1997 em Filhos da Rua), e fizeram-no a solo (o agrupamento feminino Djamal editaria Abram Espaço em 1997). Não obstante este significativo marco face à sub-representação das mulheres no hip-hop da década de noventa, no RAP em especial, grande parte do seu repertório literário se centrava desde que começaram a escrever em assuntos como: as desigualdades em função do género, no machismo e na misoginia existentes, no racismo que sentiam na sociedade portuguesa e mesmo na violência doméstica dentro de grupos racializados.

Nancy Guevara foi exímia na forma como em Women Writin Rappin Breakin nos descreveu essa invisibilidade e uma clara dupla discriminação, fora e dentro do hip-hop, a de ser negra e a de ser mulher respectivamente num grupo onde a supremacia do masculino e a masculinidade são desde o seu início evidentes (em 2019, na sequência do audiolivro RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada que congregou dezenas de entrevistas, será publicado o livro Fixar o Invisível. Os primeiros passos do RAP em Portugal, também pela Editora Caleidoscópio, que propõe uma abordagem e uma reflexão maiores acerca deste aspecto).

Com estas primeiras rappers e depois destas rappers outras surgiram, muitas delas não gravaram um disco ou tiveram a possibilidade de publicar em editoras com o alcance das etiquetas discográficas já mencionadas. Apesar de tudo, não deixaram de criar, até de gravar, sobretudo em circuitos independentes, e de promover encontros e propostas interessantes, mordazes, dir-se-iam hoje «politicamente incorrectas», no seio dos seus itinerários socioculturais: Telma T-Von, com as Red Chikas, Backwords, ZJ Zuka que integrou o grupo Divine ou alguns exemplos mais recentes como Dama Bete, Blink, Mynda Guevara ou Samantha Muleca, entre outras.

A definição de algumas práticas em universos onde os homens são maioritários poderá ou não contribuir para a criação de territórios culturais onde as práticas que os definem reflectem valores dominantes, portanto masculinos?

Sim e não.

Sim. Tais valores podem ser aceites pelas mulheres, não colocados em causa, respeitando os valores pré-definidos por estes de modo a serem aceites.

Não. Tais valores podem perfeitamente não ser aceites por estas e procurarem afirmar-se na sua diferenciação, esteja ela ou não de acordo com “noções identitárias” fundadas no género ou numa anulação imediata da estereotipação do mesmo: de como é ser mulher, e até ser homem, em universos musicais que continuam a reivindicar posições e os hoje tão reclamados «lugares de fala».

É hoje, para mim, claro que as primeiras rappers foram, pelos seus modos de actuação e de resistência e por terem ‘’ao serviço’’ da sua geração as suas gravações, sujeitos da história. Actrizes sociais de uma acção histórica visível e de uma acção histórica invisível, cujo único modo de reter e posicionar no presente, de um modo reflexivo, tomou forma durante os registos de conversas ao longo da investigação realizada e na recolha de material escrito e gravado.

Enquanto o impacto visual das presenças dos grupos femininos na comunidade juvenil foi comprovado pelas mais diversas notas de imprensa, a influência dos seus repertórios literários não teve expressão condizente nesse meio. O que é pena. Pela actualidade e por estes concentrarem uma espécie de profecia, que hoje o público merecia escutar.

Os temas abordados por estas mulheres foram também apropriados por um conjunto de grupos sociais sem ligação à, designada pelas protagonistas, cultura hip-hop, nomeadamente movimentos estudantis da mesma geração, sem contacto prévio com estes territórios culturais e geográficos, no final da juventude liceal e início da vida universitária. Disso foram exemplo, a utilização de temas de Djamal nas lutas a favor da despenalização do aborto da década de noventa.

A romantização discursiva em torno do hip-hop em Portugal nos primeiros doze anos produzida abertamente pelos que prevalecem, como a narrativa que realça continuamente a sua não dependência do sistema social dominante e até um crescimento do RAP nas periferias do capitalismo, não é rigorosa, nalguns dos casos é só uma inverdade. Na realidade, foram os diálogos frequentes com as indústrias de publicação de conteúdos escritos (o semanário O Independente, o Expresso, o jornal Blitz, entre outros) e novos itinerários socioculturais que permitiram a sua existência e, para alguns, subsistência no panorama cultural e discográfico português.

Convém não esquecer que foi justamente nos primeiros anos de afirmação deste domínio cultural que essa dependência mais se fez sentir, porque os recursos eram escassos, gravar em grandes editoras a única forma possível de chegarem às massas, sobretudo a outros jovens e públicos, como almejavam e como veio a acontecer.

Os papéis assumidos por estas rappers foram prejudicados por uma visão do mundo cultural determinada a partir deste ponto de vista que pressupunha, afinal, que ninguém se atrevesse a questionar o carácter «natural» do feminino e do masculino.

Em 1974 a antropóloga Sherry Ortner mencionava que a opressão às mulheres acontecia na medida da distinção feita pelas sociedades entre «cultura» e «natureza», a qual por si estabelecia uma dicotomia entre ambos os sexos tendo como base a conexão do masculino ao cultural e do feminino à natureza. Esta ligação congregava obviamente uma desvalorização dos papéis da mulher, dado que em todas as culturas a «natureza» é colocada numa ordem da existência inferior.

Foram várias as mulheres a acompanhar rappers masculinos como cantoras, que cantavam refrões e pequenas partes de canções previamente escolhidas para elas por estes, Marta Dias e Maimuna Jalles são disso exemplo, ou mesmo bailarinas, ambas acompanharam General D, convidado também para este evento, mas foram as rappers que desafiaram e confrontaram as narrativas do universo masculino e da masculinidade presentes no hip-hop. As letras de Divine, Red Chikas e Djamal deixam-no na década de noventa às claras.

Se na década de noventa o discurso do hip-hop e a própria natureza das indústrias culturais em torno deste colocaram a discussão sobre classes sociais, desigualdades «étnicas» e «raciais» numa perspectiva exclusivamente masculina, ao mesmo tempo que amaciaram a presença das primeiras rappers evidenciando características de natureza física ou entrevistando-as em revistas femininas de moda, higienizando o que fora parte da expressão do corpo performático e crítico das suas produções escritas no RAP, em 2019 eventos como a História do Hip-Hop Tuga quase parece que nos remetem para um lugar da história recente, a do cavaquismo inevitavelmente. Acrítico, com uma boa dose de oportunismo e menos da dita punchline. Dificilmente a minha geração esquece, aliás, que um tema de Boss AC, outro convidado do evento, suportou em 1996 a campanha eleitoral de Cavaco Silva. Do mesmo modo que não esqueço que para muitos rappers na actualidade a designação hip hop tuga enceta uma dupla discriminação, há um hip-hop em Portugal, não necessariamente tuga.

Porque de bambas intenções e narrativas na sua prática inoperacionais, descomprometidas, está o mundo cultural dito intervencionista desde sempre (igualmente) carregado, não se poderá negar nunca que ao longo dos tempos houve mulheres que se destacaram nesta prática artística e que esta organização teria aqui uma oportunidade de trazer à superfície os artefactos culturais que a sociedade dominante, patriarcal, frequentemente colocou em segundo plano.

À excepção de Djamal, que não aceitaram participar neste evento, nenhuma das mencionadas, ou outras que ficaram por mencionar, foram convidadas.

Djamal não querer estar presente poderá ser visto como uma tomada de posição. Os seus repertórios viverão, ainda mais, neste novo mas bem velhinho tempo, tal como os das restantes intervenientes.

[1] como citar esta opinião: Simões, Soraia «A hegemonia masculina do hip-hop num dia dedicado à Luta e à Resistência femininas», carta aberta.

fotografia de capa: auto-retrato na penumbra num dia de luz







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