[1] por Soraia Simões

Na obra Utopia (1516) de Thomas More, uma das obras mais críticas do contexto sociopolítico europeu, especialmente inglês, durante o Renascimento — o servilismo na corte, o mando absoluto e arbitrário das monarquias, o modo como os altos funcionários se deixam corromper, as injustiças, a ostentação da riqueza de monges e da nobreza —, o autor idealiza uma sociedade democrática, quase perfeita. Creio que terá sido aí que a palavra teve origem.

A Utopia, que pode ser entendida como uma espécie de compromisso com uma sociedade com dinâmicas sociais mais apropriadas, (a)parece-nos simultaneamente uma/como uma sociedade inexistente, apenas a imaginamos (Sargent, 1975*). Mas, se a imaginamos porque não lutar por ela?

As lutas do século XXI, aquelas de que estou próxima, são utópicas, pelo simples facto de se oporem às estruturas sociais dominantes: a luta por uma maior/melhor representação das mulheres, a luta contra o racismo, a luta contra a homofobia. São frequentemente vistas como um ataque à ordem social e às ideologias hegemónicas. Potenciam a esperança de grupos minoritários, que ao narrarem, com mais e maior exposição, as suas posições atraem e reforçam outros lugares e outras narrativas antes reprimidas.

Todas as utopias são igualmente profecia e oposição, baseiem-se na crítica empírica (do que se vive na pele), na crítica teórica/literária (daquilo que se estuda) ou quando ambas coexistem. Neste século é muito comum elas se alimentarem mutuamente.

Para quem faz a(s) luta(s), a Utopia só poderia apresentar-se como uma ameaça, no dia em que os diversos pensamentos e narrativas que se opõem a um conjunto de opressões distintas (o patriarcado, o poder económico, a religião, a desigualdade com base no género, na orientação sexual, na cor da pele, no espaço de origem) não entenderem que todas as críticas às estruturas sociais fazem parte de um mesmo desejo, de uma mesma motivação: uma sociedade um pouco mais livre, justa e igualitária. Há quem diga que é aí que ela está a falhar: num não entendimento, ainda, pleno de que a criação de uma sociedade ideal já teve muitos rostos e formas, e continuará a ter, como a literatura nos tem vindo a mostrar com New Atlantis de Francis Bacon (1627), News From Nowhere de William Morris (1890), Le Deuxiéme Sexe de Simone de Beauvoir (1972), As Mulheres de Abril de Maria Teresa Horta (1976), Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity de Judith Butler (1990), A Geração da Utopia de Pepetela (1992), Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago (1995), entre outros/a.

[1] como citar esta opinião: Simões, Soraia «Utopia(s)», Plataforma Mural Sonoro em 23 de Outubro de 2018, https://www.muralsonoro.com/recepcao.

*No artigo «Utopia - The Problem of the Definition» (1975, Extrapolation)

Sugestão de escuta

Fotografia de capa da minha autoria, Teatro Nacional Dona Maria II, Lisboa.

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