Obrigada à Sound Club Store pela oferta. Nas mudanças, há 3 anos, a minha colecção de música clássica tinha sofrido algumas perdas importantes. Estes dois vieram de presente de uma das mais antigas lojas de Lisboa, ao Chiado, que concentra em dois pisos uma das maiores colecções de discos, vários de edições singulares, e algumas inéditas dos séculos XIX e XX.

Há uma retórica neo-hegemónica que revela que as compras de discos em Portugal, e especialmente em formato vinil, cresceram e que a maioria das pessoas até, imagine-se, regressou ao vinil.

Há uns dias aqui no meu bairro, onde costumo tomar o pequeno-almoço, um rapaz afirmava na litania usual, que «agora as reedições em vinil é que eram, só se vendia vinil». Estas declarações querem-se, agora mais do que anteriormente, até estão em consonância com as ideias de um cosmopolitismo, expansão e interesse por redescobertas e culturas do passado («comprar discos em formatos que estavam em desuso») que Portugal, e em especial a capital, abraça (m), mas que na realidade não se verificam na mesma quantificação fornecida por esses discursos. Ouvi-o na sua visão do mundo exterior a partir do seu mundo interior (o grupo de amigos, as sociabilidades) sem grande confronto. Prática, aliás, que comecei recentemente a cultivar, porque detectei que estas amostras reafirmam o que intuía, pela relação que mantenho com músicos profissionais e donos de algumas das mais antigas casas de discos, e acabo invariavelmente por comprovar. Desde logo que há um desfasamento entre o discurso da/sobre a cidade de uma determinada geração, tão alienado quanto aculturado, com «noções estreitas» de tudo o que à sua volta se passa, que não se compadece com quaisquer rigores ou bases, e que o mercado da música é uma extensão disso mesmo, como o são outros negócios nas cidades que se procuram projectar no mundo em períodos de maior procura/descoberta/visitação.

Estudos recentes revelam que o número de vendas de discos em Portugal decresceu, no último decanato, abruptamente e várias lojas pelo país fecharam. Um grupo restrito de grupos sociais, especialmente que passam discos ou são coleccionadores no campo da música popular, não é suficiente para reverter essa estatística. A maioria dos portugueses da minha geração e de gerações anteriores vende discos neste momento. Quem os compra são, sobretudo nesta fase de Lisboa, turistas.

O espaço de onde vieram estes, que aconselho vivamente a procurar/visitar, fica na Rua da Misericórdia, 12 a 20, perto do Trindade.

Com o  tempo e disponibilidade que o tema requer, hei-de voltar a  ele.

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