Soraia Simões está a realizar o documentário A Guitarra de Coimbra.

O desafio do documentário é contar a história deste património imaterial da Coimbra popular, “nas vozes de intérpretes homens e de intérpretes mulheres, construtores, estudiosos, documentos inéditos e espaços, desde o berço até à contemporaneidade, da tradição à modernidade”, explica a autora.

Popularizada por Carlos Paredes, a guitarra de Coimbra distingue-se da versão lisboeta por ter uma tessitura mais grave e um timbre distinto, devido às diferenças na sua construção, bem como na execução. A afinação nominal, ainda hoje usada, mantém características das cítaras do Renascimento.

O documentário conta, além da sua realização, com a produção e direcção de fotografia de José Ricardo Pinto.

O filme está a ser produzido para a RTP, com transmissão prevista para a RTP2.

Produção e Fotografias, Coimbra: João Fontes da Costa (co-fundador Associação Mural Sonoro).

INFO: Associação Mural Sonoro

making of A Guitarra de Coimbra

«(...) Dar dignidade e valorizar a guitarra de Coimbra, não só pela sua importância a um nível transnacional como local (na cidade de Coimbra), na medida em que a abordagem ao instrumento começa logo com uma questão acerca das suas origens ou radicações geográficas.

Até há muito pouco tempo houve um discurso dominante em torno da guitarra de Coimbra que circunscrevia a sua história e os caminhos que traçou a comunidades de prática fixadas na cidade de Coimbra, sobretudo nos meios académico e futrica, em alguns campos esse discurso ainda prevalece, como em alguns liceus que replicam a cultura académica de matriz conimbricense e alguns estudantes da Universidade do Porto (formações reprodutivas no interior do Orfeão Universitário).

A guitarra de morfologia moderna, semelhante  à de Paredes, não teve radicação em formações musicais frequentes nas aldeias do município de Coimbra nem nos municípios dos arredores.  Em sites e blogues pela internet encontramos a guitarra do fado (guitarra tipo Lisboa) em concelhos como Lousã e Miranda do Corvo onde há forte tradição do que alguns dos estudiosos deste intrumento designam como fados cantados e dançados.

Já a guitarra de Coimbra de morfologia tradicional teve grande radicação em grupos musicais de performers activos em Coimbra, povoados concelhios e municípios vizinhos como Montemor-o-Velho».


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Refere ainda a «história oficial», chamemos-lhe assim, que a guitarra de Coimbra é um território especialmente masculino.

Um discurso mais normativo em torno deste instrumento musical, que por um lado apenas a liga aos fados de Coimbra e ou de Lisboa, e por outro, devido talvez ao esforço, fisicalidade e força no ataque das cordas, a um universo masculino tem de evoluir. Essencialmente, porque há mulheres que em Coimbra tocavam muitíssimo bem. Temos o exemplo de Ana Sadio, que começou por tocar durante o curso de Medicina e voltou recentemente aos concertos, uma das entrevistadas.

É certo ainda que este instrumento musical esteve muito tempo associado só ao meio coimbrão, académico, futrica. Os/as estudantes tocavam-na durante o tempo de duração do curso superior, nomeadamente tentando as variações de Artur Paredes, e circunscrevia-se a isso, ou a retórica em torno deste cordofone a isso esteve durante muito tempo conectada, e de facto o berço dela é este e continuará a existir, creio. Mas, como nos demonstrou, entre outros, Carlos Paredes pode ser um instrumento de concerto.

Com uma afinação nominal mais grave que a guitarra de Lisboa, com um som quase dramático, teatral, de tradição popular mas que facilmente acompanhou, e continua a acompanhar, circuitos de cariz erudito. Assim, o professor Jorge Gomes, talvez o professor vivo mais antigo da Associação Académica de Coimbra sempre teve mulheres nas suas aulas».

«Pela evolução constante do instrumento, porque hoje em dia a guitarra de Coimbra é tocada em mais de 70% de situações no âmbito do Fado na cidade de Lisboa (guitarra de Coimbra com afinação de Lisboa abundantemente), ao mesmo tempo que mantém a sua história em Coimbra e é ensinada como instrumento de suporte nas escolas decidi embarcar nesta viagem com os seus principais dinamizadores, tocadores, intérpretes, estudiosos. Sem esquecer, nem poderia, uma parte da história de familiares ligados à construção deste instrumento musical». 

«Espero conseguir mostrar neste filme os diversos caminhos percorridos pela guitarra de Coimbra». Soraia Simões em entrevista (Associação Mural Sonoro)

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