27ª recolha de entrevista

 

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BI: Nataniel Melo nasceu no Porto no ano de 1976.

É um músico e autor português filho de pai açoriano e mãe transmontana, que vive em Lisboa há 14 anos.

Começou por tocar com apenas 14/15 anos teclas num grupo de rock, incentivado por um amigo, e ainda nesse início de percurso, através das referências musicais que gravitavam pelo grupo, se sentiu mais atraído, que os restantes músicos que o acompanhavam nesse seu início, pelos instrumentos de percussão e recorda Santana (atenta ao lembrar o despoletar do gosto por outro género de ritmos e instrumentos que os produziam).

Começou a sua viagem física muito cedo - e com ela a pessoal/existencial que já o inquietava no Porto - quando foi três meses para Cuba, onde se rodeou de alguns elementos culturais, próximos de África, que lhe despertaram ainda mais a sua relação com as construções rítmicas que já o cativavam, com os tambores batá, a oralidade e música associada ao culto religioso, mas também géneros como a salsa, etc.

Faz parte do grupo Terrakota (um grupo expressivo que reuniu não só músicos de outros países - como Angola, Itália, Portugal, etc - como um conjunto de manifestações culturais na sua música expressas pelas performances e instrumentos que acompanham a história do grupo, como: djambés, congas, darbuka, batà, repenique, didjeridoo, sabar, tama, balafon) e nos últimos 10 anos (naquele que designa como o 'período de Inverno' do grupo Terrakota e que vai de Dezembro a Março) viajou e fez recolhas de instrumentos, manifestações culturais e musicais em países como Senegal (onde já esteve cerca de 8 vezes), Guiné, Cuba, etc.

Esteve para ingressar no curso de Antropologia Musical (ligada aos Estudos Africanos) em Inglaterra, mas coincidiu com o ano em que se cruzou com os restantes elementos do grupo Terrakota, onde optou por ficar.

Nos últimos 14 anos, em que se radicou em Lisboa, mas com viagens anuais a outros pontos do mundo, como os já mencionados, não deixou de fazer trabalho de campo com ligação à diáspora e ao conhecimento que tem absorvido. Fez e faz Documentários baseados nas suas recolhas e utiliza-os no serviço comunitário na zona de Lisboa em que vive, sobretudo.

Nesta recolha de entrevista fala da falta de capacidade local (na cidade de Lisboa) para sustentar obras de cariz comunitário, social e cultural apesar da aparente 'multiculturalidade' lisboeta que diz até 'traiçoeira', do seu operar ser feito, apesar das contrariedades e dificuldades que o meio em que vive lhe apresenta, de um modo individual activo (nas oficinas de instrumentos com materiais reciclados que já criou, nas aulas de sabar e percussão que agiliza apesar da falta de incentivos autárquicos, etc), acredita que a viagem fornece ao indivíduo actuante neste âmbito um enriquecimento que um mundo de acesso tecnológico, aparentemente mais facilitador a essa pesquisa, jamais trará e reflecte sobre a importância em o sítio migratório que é Lisboa, no qual desenvolve o seu trabalho, estar atento, receptivo e participativo ao enriquecimento que só um conhecimento mais próximo das várias culturas que o formam e nele permanecem há um tempo vital (com as suas músicas, 'tradições' e performances) poderá possibilitar que tal aconteça.

© 2012 Nataniel Melo à conversa com Soraia Simões, Perspectivas e Reflexões no Campo

Recolha efectuada em Lisboa na casa de Nataniel