Deixou-nos o Daniel Bacelar, o “sempre rocker” com quem fui falando desde 2011 (na altura em que fazia a pesquisa para o meu primeiro livro, que incidiu na relação de uma boa parte do percurso de Paulo de Carvalho — intérprete e compositor —, com a indústria cultural, obra publicada em Outubro de 2012).
Já não falava desde o ano passado, as últimas vezes foram trocas de ideias por esta rede que também usava (em mensagens privadas de FB). Recordo dele a boa disposição, a frescura da memória e a agudeza de espírito que caracterizam um conjunto (pequeno) de pessoas que, fruto do meu trabalho, fui conhecendo ao longo destes anos e para as quais, tenho para mim, a idade não foi um posto e os depoimentos no decorrer das conversas configuravam um momento de reaquisição, sem esforço, de imagens e ideias que sobreviveram aos factos e às pessoas. É assim, “sempre novo”, arguto, enamorado pela vida que levou no tempo em que os “Festivais Ié Ié” organizados no Teatro Monumental faziam os serões de muitos/as jovens, que o recordo. Como diz a dada altura Paulo de Carvalho, na referida obra, esses Festivais, organizados por Vasco Morgado durante a década de 1960, foram o “Rock Rendez Vous” daquela época.
É a terceira vez que, inexplicavelmente, sinto uma sensação de grande perda. Semelhante à sentida com Hugo Ribeiro (o “senhor gravação”, primeiro técnico da Valentim de Carvalho) ou José Pracana (um dos companheiros com quem mais aprendi sobre Fado, dos poucos de quem fiquei amiga, mesmo no seio de longas horas de tertúlia e discussão motivadas pelas nossas divergências ideológicas e políticas). Há uma determinada altura em que a consciência da finitude, para quem trabalha com História e Memória enquadradas num passado recente (segunda metade do século XX), seja em que campo for, se adensa. Creio que isto tem mais que ver com algumas pessoas que a História me tem 'empurrado' a conhecer para lá dos limites da pesquisa ou das suas demarcações temáticas e temporais. Isso, na realidade, é o que não se explica.
Até sempre Daniel.

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