112ª Recolha de Entrevista
Quota MS_00095


BI: Carlos Furtado Gomes, ou Karlon Krioulo – nome de baptismo no RAP e «cultura hip-hop», nasceu em 1979. Integrante do grupo Nigga Poison formado em 1994, por si e Praga, afrodescendentes, de uma família cabo-verdiana, criados no bairro Pedreira dos Húngaros.
Escreve em crioulo desde que começou a gravar RAP em Portugal. A formação no curso de Artes e Ofícios do Espetáculo (Chapitô), permitiu que apreendesse um conjunto de ferramentas que hoje aplica na sua actividade como a gestão de recursos disponíveis para a produção da sua música, como demonstra nesta conversa.


Karlon iniciou-se na adolescência nesta prática inscrevendo o seu nome como rapper e MC no ano em que sai RAPública (1994, Sony Music, 1ª colectânea de RAP editada em Portugal por uma multinacional), no entanto o seu primeiro registo fonográfico surge mais tarde. Isto deveu-se, à semelhança de outros actores/actrizes deste «movimento», às dificuldades que muitos/as dos que o fizeram crescer em Portugal tinham, sob o ponto de vista financeiro, em entrar num estúdio para gravar. No tempo em que o estúdio ainda não estava para estas comunidades (de um modo transversal)  no computador e as máquinas eram bastante dispendiosas. 
Foi no bairro, em freestyle, cyphers, que começou a chamar à atenção de outros/as rappers. Em 1997 participou com Nigga Poison na mixtape de Dj Kronik (editada em fita cassete), editaram posteriormente o primeiro EP, uma edição de autor (es), (Podia Ser Mi, Kreduson, 2001). Em 1998 entram no filme documental Outros Bairros (Filmes Tejo, da autoria de Kiluanje Liberdade, Inês Gonçalves e Vasco Pimentel), ano em que gravam três telediscos para a Expo 98 com a realizadora Teresa Villaverde. 


De 1998 em diante Karlon foi procurando criar a sua música: produzindo-a e promovendo-a,  à semelhança de vários rappers, MCs e produtores da sua geração, de um modo independente.

Em 2001 criou a sua produtora Kreduson Produson.

O grupo Nigga Poison foi marcando o seu nome e tornando-se uma fonte referencial entre pares. Entra em Ritmo & Poesia de Xeg, Poesia Urbana de Valete e Adamastor, entre outros. Colaboram também em Inoxidavel 2 (2004, de DJ Kronik). Lançam Resistentes (2006, Very Deep/Som Livre), trabalho discográfico que lhes vale uma nomeação nos Globos de Ouro na categoria de «banda revelação».
Tocaram em Paris, Luxemburgo, Nice, Bruxelas e Andorra, bem como em vários espaços de norte a sul de Portugal. 
Participaram com os temas «Yes Man» e «Onde é que tu Estás» na banda sonora do filme A esperança está onde menos se espera do realizador Joaquim Leitão e na compilação Hip Hop Fnac com Dj Bomberjack na faixa «Nigga». 
Em 2011, sob a etiqueta da Optimus Discos, lançam Simplicidadi


Desde 2012 que Karlon tem afirmado o seu percurso a solo. Em 2012 lança Nha momento e em 2013 a mixtape Paranoia. Com o selo da Kreduson Produson saem também Meskalina em 2015 e em 2016 Passaporti.

Esta conversa faz parte de um conjunto de outras entrevistas semi-dirigidas realizadas no âmbito do trabalho de investigação que desenvolvo presentemente e que tem como foco o  impacto social e cultural do RAP feito em Portugal durante este período histórico, trabalho este que inicia na segunda metade da década de 80 e termina na de 90. 
Apesar de semi-dirigidas estas conversas são realizadas num cl
ima de descontracção e com o cruzamento de outro tipo de fontes: orais e escritas que marcaram esse período. Neste pedaço disponibilizado on-line Karlon explica como viveu o primeiro período da sua afirmação no RAP, o significado de usar o crioulo na sua lírica, as vantagens do autodidactismo e produção independente (longe do modelo tradicional da indústria de gravação de discos), procurando ao mesmo tempo, quando questionado, interpretar prós e contras da dependência do modelo convencional aplicado pela indústria cultural nos primeiros anos – manifestada por uma boa parte da primeira geração de rappers em Portugal –, a descontinuidade histórica existente  quanto ao papel e problemáticas levantadas pelas primeiras mulheres a fazer RAP em Portugal, as experiências de vivência num bairro e os significados da afirmação cultural/identitária no seio da Música Popular feita em Portugal vindo de um outro território (cultural, sonoro e geográfico) ou como presencia e lê a reintrodução de expressões como nigga e gangsta, fora do contexto histórico de afirmação ou reivindicação de direitos em que as mesmas surgem, nos dias de hoje.
Mais em RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada (SIMÕES:2017)*

© 2017 Karlon Krioulo à conversa com Soraia Simões, Perspectivas e Reflexões no campo

Pesquisa, Som, Entrevista, Texto, Edição: Soraia Simões

Fotografias Karlon: Crossfox e Vasco Viana (2017, fotógrafo em Altas Cidades de Ossadas, de João Salaviza, curta-metragem que tem Karlon como actor principal); Recolha de entrevista realizada na casa de Karlon


*Editora Caleidoscópio, audiolivro contém:

SUMÁRIO

Nota da autora
Introdução
Memória, sociedade, história oral e cultura popular

Cavaquismo, imigração e extrema-direita
RAP, territórios, discursos e influências
Anos 90, as mulheres no RAP

História oral – transcrita
Francisco Rebelo (mentor e integrante do grupo Cool Hipnoise, baixista nos grupos Black Company, Ithaka ou Mind da Gap, entre outros)
Hernâni Miguel (produtor RAPublica)
Biggy
Zj /Zuka (Divine)

História oral – áudio
Chullage
General D
Makkas (Black Company)
Janelo da Costa (Kussondulola)
Double V (Family)
Maimuna Jalles (General D&Os Karapinhas)
Marta Dias (General D&Os Karapinhas)
José Falcão (SOS Racismo)
Lince (New Tribe)
M (New Tribe)
Jaws T e MC Nilton (Líderes da Nova Mensagem)
José Mariño (radialista – autor programas Novo RAP Jovem, Repto)
X-Sista, Jumping (Djamal)
Sweetalk (Djamal)
NBC (Filhos de 1 Deus Menor)
João Gomes (Cool Hipnoise e General D&Os Karapinhas)
Tutin di Giralda (General D&Os Karapinhas)
Djone Santos (General D&Os Karapinhas)
Ithaka
Jazzy J (Zona Dread)
Tiago Faden (produtor executivo RAPublica)
Nomen (writer – Artista urbano)
Edgar Pêra (cineasta – videoclipes Black Company: “Abreu” e Djamal)
Ace (Mind da Gap)

Fontes e Bibliografia
Créditos

NOTAS

Ataque Verbal (1996, Rádio Energia), autores: KJB (Black Company), Pacman (Da Weasel). O programa de rádio teve residência no Johnny Guitar onde havia sessões de microfone aberto. Passaram vários rappers e colectivos de RAP de uma geração sucedânea aos autores nesse palco, como Nigga Poison, TWA, Sam The Kid, entre outros.

cypher: designação atribuída a um grupo de b-boys e b-girls que actuam nessa “cultura de círculo”, especialmente na rua.

freestyle: improviso.

MC: Mestre de Cerimónias.

RAP: assumo ao longo dos trabalhos que tenho publicado acerca deste domínio a designação RAP em maiúsculas e não em minúsculas e itálico. Isto porque se pretende demonstrar o domínio num plano central das mudanças de comportamentos e linguagens verificadas num determinado contexto histórico, e não num plano secundário ou complementar. Ou seja, onde as medidas e mudanças que se verificaram socialmente não diminuam ou tornem secundária a dimensão social ou o papel ideológico, como habitualmente sucede, desta prática cultural e artística, a partir da qual esta investigação tem procurado demonstrar que elas acontecem durante este primeiro período em Portugal.

Vídeo referido durante a entrevista: 1998 - Pedreira dos Húngaros, Karlon&Barrozo

audiolivro, à venda nas livrarias habituais       

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