RAPoder em supremacia é inviável, por Soraia Simões

Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a reflectir | Michel Foucault (História da Sexualidade II. O uso dos Prazeres, 1994)

 Se qualquer um (a) fizer uma pesquisa num motor de busca on-line (a principal ferramenta das comunidades jovens), numa enciclopédia (reduto de curiosos, coleccionadores, biógrafos ou amantes do género) ou em repositórios científicos que demonstram a profusão ensaística e de publicações académicas neste âmbito, utilizando as seguintes palavras-chave: «rap», «cultura hip-hop», «hip hop celebridades», «protagonistas hip-hop», «protagonistas rap», «rappers emergentes», «êxitos RAP e Hip-Hop», «RAP nos EUA», «RAP no UK», terá uma dificuldade enorme em encontrar nomes no feminino. Eles são quase inexistentes, não aparecem sequer nas primeiras listagens. Se a mesma pesquisa for realizada acrescentando à busca «Brasil» ou «Portugal» o mesmo sucede.

 Quando realizava o meu trabalho de campo, recentemente publicado em áudio (no audiolivro) com o título RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada (1986 -1996)* - nas entrevistas que dirigi e fazem parte do mesmo -, procurei no (s) omisso (s) indagar porquês, na secundarização que fui sentindo acerca da dimensão e papel das mulheres neste quadro histórico perceber, igualmente, a razão desta descontinuidade histórica, que faz com que para muitos (as) a experiência de fazer RAP ou ser parte integrante de uma «cultura» (o 'hip-hop'), assim entendida pelos seus sujeitos, no feminino inicie na Capicua. No século XXI. Quando, afinal, já reunira registos vários de mulheres como 'MC', rappers, flygirls em escolas secundárias com eles, no Cais do Sodré com eles, em viagens de comboio com eles, em encontros no Trópico Disco (espaço de sociabilização, festas, concertos durante a década de 90) com eles, no Bairro Alto com eles. Registos que se acumulam (fotográficos e em vídeo) durante o início da década de 90. Tendo dois dos grupos, inteiramente femininos, gravado em estúdio (Divine em discos de Black Company, Djamal, em registo próprio, «Abram Espaço» de 1997).

 Feita há sete anos uma pesquisa anterior, ouvido e reouvido, em variadíssimos casos, todos os repertórios que enformaram este período em Portugal percebi claramente que o darwinismo social, o racismo, a dominação, a exclusão social foram temáticas que mereceram a atenção (não de toda mas) de grante parte da minha geração e elas foram (re) tratadas por sujeitos de ambos os sexos nesta prática.

 Porque é que às primeiras mulheres a fazer RAP [1] em Portugal, na sua maioria descendentes de imigrantes africanos, cujos repertórios versavam sobre tópicos semelhantes, mas também sobre sexismo, violência doméstica, diminuição da sua presença num território marcado pela masculinidade e objectificação da mulher foi-lhes vedado reconhecimento público de importância semelhante nesse pioneirismo? O que não se responde tem, em casos particulares como este, mais força que aquilo que se diz. Ouvindo a história oral desta obra, através da transmissão das memórias de X-Sista, Jumping e Sweetalk (Djamal) e lendo as de ZJ-Zuka (Divine) esse desconforto é tão presente quanto a vontade de falar, fruto de um sentir de reconhecimento por alguém (eu) da sua geração, mulher, com vontade de dialogar, perceber, registar e enquadrar essas memórias num campo de percepção (e acção/intervenção) maior.

 Quando há meia dúzia de anos comecei a gravar/entrevistar rappers, junto a outros protagonistas da Música Popular do século XX, focando assuntos transversais a toda a música que foi produzida em Portugal em determinado tempo no Mural Sonoro, recuperei a observação do sociólogo Pierre Bourdieu, a sua enfatização a respeito das concepções “invisíveis” que chegam a nós, seres sociais. Que nos levam à formação de «esquemas de pensamentos impensados», i.e. quando acreditamos ter a liberdade de pensar alguma coisa, sem levar em conta que esse «pensamento livre» está marcado por preconceitos, interesses e opiniões de alheios. Ora uma relação desigual de poder suporta uma aceitação dos grupos dominados, não sendo necessariamente uma aceitação consciente e ponderada, mas especialmente de submissão pré-reflexiva.
Afinal, foi assim para muitas mulheres da minha geração (40/41 anos): quando Lauryn Hill aflorava em «Doop Wop» a coisificação de que se é alvo sendo-se mulher num meio cultural de homens, de violência doméstica, de relacionamentos abusivos (1998) grande parte da minha geração de mulheres enaltecia a presença de Kanye West em "What You Do to Me" de Infamous Syndicate um ano depois (1999), foi assim quando Dina Di (a primeira brasileira, oriunda de Campinas, a ter sucesso no RAP) cujo percurso começara em 1989 (tendo só em 2003 atingido um reconhecimento maior com o CD A Noiva de Chuck) ou quando Karol Conka (que com 16 anos ganhara um 'concurso de RAP' na sua escola) incidia sobre a sociedade tradicional brasileira grande parte da minha geração de mulheres enaltecia a presença de Gabriel O Pensador e a sua forte influência neste panorama cultural em Portugal, foi assim quando M.I.A, inglesa, filha de um activista político, que viveu no Sri Lanka e depois da guerra civil volta para a cidade onde nasceu, Londres, com a familia sendo recebida aí como refugiada fez «Born free» ou «Borders» - onde falou sobre refugiados e empoderamento feminino -, e grande parte da minha geração de mulheres vaticinava o tão aguardado regresso de Public Enemy. Há que, tratando de feridas sociais, trata-las todas em igual medida. É uma questão de proporção, de tempo de actividade? Não é. De insipiência sonora e musical, no caso português, porque estavam a começar? Tinham-na todos (as). O espaço que Djamal, o grupo inteiramente feminino, reivindicou não foi aberto: foi descoberto. É tempo de falarmos sobre isso.

 Desenvolverei este tema no dia 26 de Agosto no âmbito do Forum Socialismo 2017 (comunicação com o título «Abram Espaço que elas estão a chegar, as mulheres no RAP: afirmação e resistência (1990 -1997») e num artigo que sai na edição de Setembro do Le Monde Diplomatique[2] 

Conto com presenças e leituras. Até breve.

[1] RAP; assumo ao longo dos trabalhos que tenho publicado acerca deste domínio a designação RAP em maiúsculas e não em minúsculas e itálico. Isto porque se pretende demonstrar o domínio num plano central das mudanças de comportamentos e linguagens verificadas num determinado contexto histórico, e não num plano secundário ou complementar. Ou seja, onde as medidas e mudanças que se verificaram socialmente não diminuam ou tornem secundária a dimensão social ou o papel ideológico, como habitualmente sucede, desta prática cultural e artística, a partir da qual esta investigação tem procurado demonstrar que elas acontecem durante este primeiro período em Portugal.

[2]  1990 - 1997: Percursos da invisibilidade. As mulheres no RAP: afirmação e resistência, Le Monde Diplomatique, publicação a 8 de Setembro, 2017.

Editora Caleidoscópio, 2017.

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