Quase 14 horas de entrevistas fazem parte do livro RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada: 1986 - 1996 de Soraia Simões, que será editado na última semana de Abril - início de Maio sob a chancela da Editora Caleidoscópio. O acesso às mesmas poderá ser feito através de um QR-Code que virá no interior da obra, a mesma é editada em livro físico e em ebook.


''São conversas que mantive e coordenei com vinte e quatro dos principais sujeitos da história da prática do RAP no momento em que ela se apresenta e ganha forma em território nacional. Através delas, encontrará as principais linhas de orientação deste trabalho autoral, que são igualmente os eixos de discussão deste domínio, sonoro, musical e cultural entre os seus primeiros intervenientes e participantes directos, num período histórico pautado por variáveis sociais, ideológicas e culturais importantes e que foram, na minha leitura, a primeira força motriz para que hoje se possa falar de uma transformação, a partir da cidade de Lisboa, que no contexto presente é, quiçá, a sua comunicação de auto-representação ou «bandeira indentitária» ao mundo exterior e, por arrasto, das restantes «cidades-centro», mais urbanizadas-cosmopolitas, do país. Aqui ao expressar-se, a vários olhares e vozes, uma parte significativa de mudanças discursivas e comportamentais que ocorreram no campo social e no campo cultural, que hoje enformam tantas discussões nos campos científico, jornalístico e, especialmente, no campo cultural e no campo político - sobretudo autárquico, está-se também a contar uma parte da história da cultura e da sociedade contemporânea portuguesa que os teve, quer uns queiram quer outros não, como protagonistas. Os primeiros discursos sobre o território e a experiência transatlântica expressos em forma de canção com amplificação entre as comunidades jovens da minha geração, ainda no fim do liceu ou início da vida universitária nos anos 90, a discriminação social e o racismo, as mudanças operadas na indústria de gravação, a ideia de sociabilização através de uma prática artística sem ligação aos principais centros urbanos de decisão mas onde igualmente se afirma, a vontade de emancipação num espaço cultural e fonográfico onde outras práticas já estavam representadas, a reutilização de expressões das suas culturas originárias que no período colonial estiveram condenadas ao esquecimento, a afirmação da desigualdade de género no campo cultural e artístico que emerge no repertório dos dois grupos de RAP femininos que surge neste recorte cronológico, a relação com os mass-media e com a sua paulatina aceitação na sociedade portuguesa da segunda metade do século XX, pós-revolução, entre outros, que poderão ouvir e ler ao adquirir a obra.

 

«(….) Estas recolhas de entrevistas são resultado de um trabalho de investigação que iniciei há seis anos no âmbito do Mural Sonoro, projecto de arquivo e documentação musical de que sou autora.  Recuperei-as e desenvolvi o tema no regresso de General D a Portugal, estimulada numa fase inicial pela sua parceria e comum vontade, ao fim de vinte e poucos anos de ausência deste país e domínio musical, no qual teve participação directa activa. Recomecei-o com ele, com o seu estímulo e a sua igual vontade, seguindo o que tem sido o meu trabalho no campo das música e cultura populares nestes últimos anos: a construção de um espaço onde diferentes cabeças, vozes e olhares, se conjugam e/ou complementam em torno de um fim comum. Sou uma investigadora de terreno. E só assim consigo trabalhar. Fora de alguns cânones para uns, estabelecendo uma ponte essencial entre pensamento académico e cultural que os cruza e aproxima da sociedade contribuindo para a promoção de novas leituras, para outros.
Por contrariedades imprevistas, normais nos nossos percursos, de autores, e todos os autores têm ideias distintas, mesmo que coincidam em alguns aspectos, ficou na gaveta a ideia inicial. A de um livro a quatro mãos com um amigo e a de um documentário que igualmente se pensava a duas cabeças, a duas perspectivas. E as nossas por vezes, como também é natural, colidiram umas vezes aproximaram-se outras. Por outro lado, a quantidade de solicitações de ambos e os projectos pessoais e profissionais levaram-nos para caminhos diferentes.

Não poderia, depois de tanto trabalho de campo, privar a sociedade deste pedaço de história e estava decidida a que a ideia, mesmo que ganhasse outra forma, como ganhou, ficasse por aqui. Aproveitei as recolhas de entrevistas que já tinha realizado e faziam parte do meu arquivo pessoal e de outros trabalhos de criação e de investigação e retomei esta história. Em 2015 um apoio pontual da Direcção Geral das Artes para um projecto maior, candidato pela associação que presido com o mesmo nome do projecto de que sou autora – Mural Sonoro, que incidia sobre a prática do RAP e o impacto da ''cultura hip-hop'' no período descrito na sociedade portuguesa propunha durante um ano a partilha on-line de documentação no âmbito do mesmo, um ciclo de sete conferências e debates que coordenei e para o qual convidei vários protagonistas, onde se escrutinou a três ou quatro vozes os temas que nortearam este meu trabalho de campo, os principais aspectos que guiaram este domínio no seu início, e o modo como os seus principais sujeitos da história o vivenciaram e que memória tinham sobre esse passado e sobre o que disseram e se escreveu acerca desse seu passado – a relação de poder que esta prática musical e cultural teve num período histórico preciso, a maquinaria da época, a relação com os mass-media, a visualização de filmes documentais realizados nesta época com os seus realizadores presentes e outros temas que hoje estão registados para memória presente e futura na plataforma Mural Sonoro – 3 workshops e um CD/colectânea com 10 rappers/MC da actualidade, de áreas geográficas distintas, realizado numa co-produção entre a empresa BIG BIT e a Associação Mural Sonoro (no prelo) -, achei que este projecto maior que no fundo partira de um trabalho de campo começado há seis anos deveria, para fechar o ciclo, contemplar uma edição de um audiolivro, onde estas memórias, as nossas conversas, fixadas, fossem devolvidas à sociedade, enriquecendo-a. Em primeiro lugar, por não serem só entrevistas, mas um conjunto de memórias cuja interpretação e análise verificada durante os diálogos me remeteu ao fim destes anos para a existência factual de uma micro-história que ganhou espaço na sociedade portuguesa da segunda metade dos anos 80 e princípios de 90 e que se inscreveu em algumas das mais importantes transformações da história da música da segunda metade do século XX, da cidade de Lisboa primeiramente, mas a partir dessa visibilidade central de um grupo alargado de outros espaços geográficos, como Porto, Algarve, Torres Vedras, que no mesmo período temporal se auto-representaram e definiram criando espaços temáticos, estéticos e culturais comuns de interacção, discussão e partilha a partir daí.

Agradeço os testemunhos durante este longo processo de General D, Makkas (Black Company), Francisco Rebelo (Cool Hipnoise, baixista Black Company, Mind da Gap, Boss AC, Ithaka), Marta Dias (cantora, General D&Karapinhas), Double V (Family), Maimuna Jalles (cantora, General D&Karapinhas), Lince (New Tribe), M (New Tribe), Tiago Faden (produtor executivo colectânea RAPública, Sony Music), Hernâni Miguel (manager, animador cultural, produtor colectânea RAPública), José Mariño (autor dos programas de rádio Novo RAP Jovem e Repto) Jazzy (Zona Dread), Jawst e MC Nilton (Lideres da Nova Mensagem), Ithaka, Sweetalk (Djamal), X-Sista, Jumping (Djamal), Ace (Mind da Gap), NBC (Filhos de 1 Deus Menor), Tutin di Giralda (músico General D&Karapinhas), Djone Santos (músico General D&Karapinhas), João Gomes (músico Cool Hipnoise e General D&Karapinhas), Janelo cOSTA (Kussondulola), Chullage, Zulaia Cruz (Divine), Biggy (Guardiões do Movimento Sagrado), José Falcão (SOS Racismo), Fernando Rosas (historiador).

Nesta recta final, um agradecimento muito especial ao João Megre, pela amizade e pelo apoio e companheirismo mesmo nos períodos em que achei pela primeira vez no meu percurso que não iria conseguir terminar aquilo que me propus fazer (…)», SIMÕES, Soraia, RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada: 1986 - 1996 (no prelo)

(c) todos os direitos reservados Fotografia cedida por Djone Santos para este trabalho (concerto General D & Karapinhas, 1993)

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