A Associação Mural Sonoro partilha neste vídeo uma amostra das principais questões que abrem o primeiro capítulo deste trabalho, com o título '' RAPoder no Portugal urbano pós 25 de Abril''. 

Esta foi a primeira sessão do Ciclo de Conferências e de Debates do projecto RAPortugal 1986 - 1999. Decorreu no pátio da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da FCSH NOVA, Lisboa, no passado dia 7 de Setembro.

RESUMO

Nesta sessão de abertura com duração de duas horas falou-se de uma parte da história da cidade de Lisboa da segunda metade da década de 80 e primeira da década de 90, de política e economia, de discursos e políticas discriminatórias, de racismo e exclusão social, de como a prática do RAP se inscreveu e/ou posicionou neste quadro de transformação económica, política e cultural ora de um modo auto-biográfico (escrita criativa na primeira pessoa) ora na forma de raportagem (escrita criativa sobre modos de observar a realidade na terceira pessoa).

PAINEL

Apresentação/recepção Instituto de História Contemporânea: Paulo Jorge Fernandes (Direcção IHC, Docente FCSH NOVA).

Participantes: Fernando Rosas (Investigador IHC/FCSH NOVA, Docente FCSH NOVA) José Falcão (SOS Racismo), Lince (Grupo: New Tribe, Colectânea RAPública, 1994, BIG BIT). Coordenação do ciclo e moderação: Soraia Simões (Investigadora IHC/FCSH NOVA, Direcção Associação Mural Sonoro).

Tema usado no vídeo: ''Palavras'', grupo: New Tribe, colectânea RAPública, 1994 (Sony Music).


 

Comunicação de abertura do Ciclo de Soraia Simões

 

Boa tarde. Agradeço a presença de todos e de todas.

Agradeço aos que comigo partilharam memórias e arquivos pessoais e ajudaram com isso a que me sentisse próxima do (in) visível e com vontade de realizar este trabalho.
O RAP como qualquer domínio da música popular é um produto da vida quotidiana, como tal é inevitável que haja uma confluência ou uma contrariedade dos acontecimentos, dos factos e dos elementos no seio dos quais ele decorre.

Foi curioso este caminho de encontrar respostas para algumas das minhas questões e perceber em alguns momentos que elas também se tornaram perguntas para as quais alguns dos meus interlocutores passaram a querer arranjar resposta. Recebi dezenas de emails, imagens de arquivo, fotografias pessoais, videos em VHS e outros já transcritos digitalmente.

Foi curioso o modo como entre a segunda metade da década de 80 e meados da de 90 a cidade de Lisboa reagiu a uma série de confrontos sociais e culturais vindos de áreas geográficas ora circundantes ora distantes do centro. Ora se distanciou ora se representou por via daquilo que eram as preocupações, expressas nos discursos e práticas culturais, sonoras e musicais, de gentes vindas dessas áreas.

Senti que há aqui também (pegando numa expressão de Fernando Rosas) uma «organização da ausência de memória», isto é houve e há uma tentativa de limitar as memórias que fazem parte do caderno de afectos daqueles que foram os sujeitos de uma história. Foi ainda ao circunscrevê-la, em fontes, para a maioria da sociedade ao cariz hegemónico da imprensa e do audiovisual uma tentativa de não permanência da leitura dos actores dessa história no panorama nacional da sociedade e da cultura.
Ora é aqui que julgo que a história oral pode ter, e teve, um papel fundamental. A construção de um imaginário político e social ancorado em definições cuja matriz foi parte da discussão interna de um grupo de pessoas que cresceram num espaço social distante do dominante, num domínio onde, sob o ponto de vista musical, sonoro e literário, estava ainda tudo para fazer em Portugal (o do «rap») foi também uma clara apropriação daquilo que eram as ânsias e angústias desses sujeitos e as suas vontades de emancipação no imaginário cultural nacional.

Agradeço, então, as horas de conversa, partilhas de documentos inéditos, de imagens, VHS, poemas que nunca chegaram a ser musicados ou gravações que nunca foram editadas. Em especial: General D, Makkas e Bambino (Black Company), Xana, Tânia, Ângela (Djamal), Tiago Faden e Hernani Miguel (Produtores da colectânea RAPública), Lince e M (New Tribe), Cris, MC Nilton (Lideres da Nova Mensagem), Jorge Furtado (Zona Dread), NBC (Filhos de 1 Deus Menor), João Gomes, irmãos Tozé/Tutin e Djone Santos e às cantoras Maimuma Jalles, Marta Dias (do grupo Karapinhas que acompanhou General D em estúdio e em espectáculos ao vivo), Virgilo Varela (Family), Francisco Rebelo, João Vaz (autor do programa Mercado Negro, de 1986 aos microfones do CM Rádio), José Mariño (autor dos programas Novo RAP Jovem e Repto), Ace (Mind da Gap), Nomen (writter) Janelo Costa (Kussondulola), Edgar Pêra (realizador e autor dos primeiros videoclips de Black Company e Djamal), Ithaka, António Contador e Emanuel Lemos Ferreira (autores do primeiro documento videográfico no âmbito de nome Geraçon Rap de 1995 que será visualizado nestas sessões) e do livro “Ritmo & Poesia : Os Caminhos do Rap” (Assírio & Alvim; 1997), António Pires (chefe de redacção do então jornal Blitz de 1986 até ao fim da década de 90), José Falcão (SOS Racismo), Chullage.

Agradeço também ao meu colega e amigo Ricardo Castro pelo apoio na logística de todo este projecto desde que ele iniciou, à Luísa Sales pelo grafismo dos cartazes deste ciclo, à Diana Barbosa pela comunicação e divulgação, à Mariana Castro pelas transcrições de umas boas dezenas de horas de conversa, ao João Megre pela edição do som e sonoplastia das recolhas de entrevistas que realizei e ficarão disponíveis no final deste mês no portal da Associação Mural Sonoro acompanhadas de partes de textos meus que serão publicados na integra num CD Livro, ao Hugo Silva da Associação de Estudantes da FCSH e à malta do Departamento de Comunicação pelo apoio com o material de som para a sessão de hoje, à Cláudia Montenegro, ao Luís Reis de igual modo pela divulgação. 

Podemos situar as primeiras manifestações de recepção do 'hip-hop' em Portugal entre os de 1984 e 1986. Para isso contribuiu em primeiro lugar o fenómeno passageiro de popularidade do 'break dance' desencadeado pela distribuição europeia de dois filmes produzidos nos EUA que focavam a cultura 'hip-hop' Breakin e Beatstreet de 1984 e em segundo lugar o primeiro programa de radio dedicado a este domínio de nome Mercado Negro, do radialista João Vaz aos microfones do CM Rádio.
No entanto apenas a partir do início da década de 90 é que as expressões do 'hip-hop', em particular do 'rap', começaram a formar um universo juvenil orientado para a sua recepção e para a sua produção.

Um pouco por toda a área metropolitana de Lisboa, com particular interesse em bairros circundantes da cintura de Lisboa, grupos de jovens, na sua maioria descendentes de imigrantes africanos em Portugal, tornaram o rap num objecto central das suas sociabilidades. Juntavam-se para vocalizar poemas da sua autoria, com acompanhamento de gravadores portáteis ou do 'beatboxing', uma reprodução oral de ritmos percussivos, para trocar cassetes e discos de vinil ou para partilhar ideias e experiências de vida comuns.

As primeiras manifestações com dimensões de grupo mais alargadas frequentemente localizadas entre o bairro do Miratejo e da cidade de Almada onde apareceram (as ‘’cliques’’ ou ‘’posses’’) os pioneiros B.Boys Boxer. De onde sairiam alguns dos que mais tarde compõem a primeira gravação neste domínio.
Estes encontros, marcados por momentos de sociabilidade onde era frequente acontecerem actuações de grupos ou sessões de freestyle (improvisação poética), contribuíram para a estruturação de um universo social em contexto urbano designado pelos seus actores como ‘’movimento hip-hop’’.

Ao mesmo tempo, com traços semelhantes, estruturou-se na área metropolitana do Porto um mesmo ‘’movimento’’.

Empenharam-se na organização de concertos, em escolas, associações recreativas e culturais, bares, discotecas, festivais e festas, ou nos bairros onde a popularidade do hip-hop aumentava. Viriam a tornar o rap e o hip-hop um elemento central de sociabilidade de outros que lhes seguiram.

 

Reportagem fotográfica: Hélder Lagrosse  Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - FCSH NOVA 

Filme da Sessão: José Fernandes

nota: clickar/ passar com cursor nas fotografias abaixo para visualizar álbum completo

 

Próxima Sessão:

PAINEL
Francisco Rebelo (Cool Hipnoise, Black Company)
Virgílio Varela/Double V (Grupo Family, Rapública)
Apresentação do tema em contexto, coorden. Soraia Simões (investigadora do IHC-FCSH/NOVA, Presidente da Mural Sonoro e coordenadora deste ciclo).

Mais informações: http://goo.gl/Sa3xpb

 

 

 

 

 

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