Trabalho de 1995 | ''Geração Rock Rendez Vous''

Pela sala de espectáculos da Rua da Beneficiência passaram, entre 1980 e 90 sensivelmente, vários protagonistas. Alguns de carisma reconhecível que despontavam na história da própria indústria fonográfica no momento de maior esplendor da mesma em Portugal. 

As condições oferecidas pela sala de concertos (acústicas, camarins, espaço para o estabelecimento dos primeiros contactos com editoras e órgãos de comunicação e difusão) o incentivo ao crescimento e  excentricidade de alguns dos grupos, a entrega ao  espaço, havendo elementos que se reuniam propositadamente com uma ideia: a participação nos, por esta altura, aclamados Concursos de Música Moderna, lançavam a vontade e estímulos necessários para a inclusão e divulgação de alternativas pós 25 de Abril.

As influências da geração de músicos que passaram pelo Rock Rendez-Vous já não se batiam com a militância das canções de cariz político, intervencionista do período pós Revolução dos Cravos, traziam outras formas musicais, sonoras, estéticas, outros discursos fugindo, também, à fase anterior instalada em Portugal. Bebiam todas as influências estéticas urbanas de domínios da música popular sobretudo inglesa, que os «mass-media» e as «editoras» tentavam introduzir e comercializar catalogando de «pós-punk», à semelhança de grupos musicais de Manchester da mesma altura, «electro pop», «rock glam», ou «pop vanguarda».A geração Rock Rendez Vous acolhia uma faixa de músicos da Grande Lisboa, mas cedo começou a ser frequentada por gentes de outros cantos do país, nomeadamente do Porto (Rui Veloso, GNR) e de Braga (Mão Morta). 

O que melhor definirá a filosofia do RRV terá sido, sem sombra de dúvida, o apoio - muitos foram os que se afirmaram e até gravaram com o apoio do espaço -, iniciativa/incentivo - com os concursos de música moderna - e a movimentação e «culto»  que se enraizariam procurando dar às suas músicas os traços de modernidade que iam permitindo à capital uma imagem europeia de «reinvenção» sonora, estética, discursiva e musical.O RRV foi, até 1990, através de Mário Guia, o espaço que melhor soube captar a energia intrínseca do lugar. Mário criaria, segundo Zé Pedro (Xutos e Pontapés) ''dos melhores locais, até hoje, para fazer ouvir todas as noções menos alinhadas ou ortodoxas da capital e não só''.

O carisma das gentes que fizeram o espaço e conseguiram progredir, também não pode fazer esquecer os muitos que por lá deram sinais de vontade de continuar e por ali ficariam.

Do turbilhão de sons, discursos e influências que irrompiam o RRV destacam-se (pelas mais diversas razões, que nem em todos os casos se prenderam com qualidade musical dos seus intervenientes): Adolfo Luxúria Canibal, João Peste, Heróis do Mar, Nuno Rebelo, Rádio Macau, Xana, Flak, Xutos, More República Masónica, João Aguardela e Sitiados, Radar Kadafi, Linha Geral, Anamar, Rui Reininho e GNR, Ena Pá 2000, Miguel Ângelo, Rongwrong, Pedro Ayres de Magalhães, Jovem Guarda, Ocaso épico, Mler Ife Dada, etc.

*escrito em 1995 (num trabalho curricular que foi posteriormente publicado no Diário As Beiras, Coimbra)