A memória, essa que é quanto a mim das faculdades mais interessantes. Como é que pode ela, em territórios de ''fontes oficiais'' inexistentes, não ser uma das ferramentas mais apetecíveis no trabalho de um investigador no âmbito das ciências sociais?

À investigação conscienciosa das fontes e dos arquivos diz-se de um modo generalista, em vários campos sociais, trabalho de carácter impassível, desapaixonado, impessoal. Como se em qualquer resultado ou resposta procurada para um problema existissem dois universos intransportáveis.
É uma discussão – afirmação que embora ainda presente no universo académico poderá descair nos próximos anos. A de que a ciência deve ser imparcial ou que a história pode não o ser. Uma ciência. Quando ela é de facto talvez das poucas de fronteira e em permanente diálogo com todas as outras. Da História da Música ou Musicologia Histórica à Ciência Política, da História dos Fascismos à História do Trabalho, da História das Ideias à História da Medicina Tropical, da História Militar e das Elites à História da Cultura e das Instituições, etc, etc. Lembro-me sempre de um professor que tive há muitos anos em Coimbra que me dizia: «nem interessa se a História ou outros domínios do conhecimento são ou não uma ciência, mas o método de investigação deve ser rigoroso, o trabalho produzido pelo investigador uma aproximação o mais possível da realidade. O investigador deve procurar ser imparcial, mas há sempre uma carga subjectiva em tudo o que faz, porque a sua experiência tem uma perspectiva que influencia a interpretação dos dados que possui».

A ideia de que a ciência (as ciências sociais e humanas) não deverá adoptar ou se orientar por impulsos do foro ideológico, no contexto das mudanças sociais drásticas a que temos assistido, parece uma demanda inalcançável.

Num palco histórico em permanente transformação - social, cultural e económica -, no resultado almejado deverá também residir o empirismo. Não como o «único» guia seguro, mas como «mais uma» prática metodológica que permite ao investigador através de um conjunto de fontes que tem ao seu dispor, selecionar as que, de acordo com a sua experiência no campo que trabalha, considera mais lógicas na defesa da sua tese ou da sua leitura sobre determinado campo.

Há uma outra discussão – afirmação que embora ainda presente em alguns grupos sociais, especialmente no domínio público de alguma imprensa e do audiovisual, urge cair. A de que existe «a» história. Não. Existe «uma história» em cada defesa.

Por outro lado, um conjunto de fontes dos domínios escrito, oral, gráfico, oficial ou documental agrupado não faz por si «uma história», a ela se juntará interpretação, enquadramento e narrativa histórica do investigador. A ele se exige a compreensão dos factos narrados ou das memórias recolhidas como várias peças de um puzzle maior. Peças essas que importará no decurso da sua investigação perceber se condicionadas por razões de ordem pessoal, social, política, (anti) ética ou ideológica dos seus interlocutores. E há formas de o depreender. No cruzamento de fontes, entre outros.

Uma história será inevitavelmente defendida de acordo com aquilo que são os padrões de quem a estudou, quis abordar e contar, das suas ideias sem, contudo, deixar de interagir, mesmo que discordando, com as fontes que selecionou.

A «ideologia» é também ela uma ciência. Que incentiva a formação de ideias e que antevê, desde logo, as representações ou as percepções de uma mesma realidade de acordo com múltiplos sentidos que acompanham as experiências de cada um.

A estereotipagem de conceitos e ideias não será uma prática para quem procura acrescentar uma história , fruto do seu trabalho, dos recursos que dispõe, da consciência dos resultados a que chega e do interesse pela pluralidade de visões na sociedade contemporânea, mas é e será com quase grande certeza prática regular dos arautos detentores ''DA história''.