Meu querido e grandioso José Pracana:

É a primeira vez que finalmente, depois de tanto teres pedido, te consigo tratar por tu. Tantas horas de conversa, tanto que contigo aprendi sobre Fado e até sobre mim. Dizias quando me vias ‘’lá vem a minha Coimbrinha favorita com o punho fechado’’. Nunca gostei da expressão ‘’Coimbrinha’’, ela fazia parte das nossas saudáveis picardias. Tínhamos posições ideológicas muito distintas, mas (sem me lembrar de tal antes me ter acontecido em contraposições semelhantes) acabávamos quase sempre a concordar em alguma coisa. Sempre que vinhas a Lisboa queria saber, sabia também que perguntavas por mim ao Paulinho d' A Muralha Tasca Típica. E encontrávamo-nos lá. Eram tardes deliciosas de aprendizagem, à boa maneira da tradição oral.

No último ano não consegui andar tanto por Alfama, fruto de outros trabalhos de pesquisa que apontaram para diferentes rotas geográficas e culturais. Durante dois anos passámos muitas tardes e noites n' A Muralha Tasca Típica e na Cafetaria do Museu do Fado a discorrer sobre o estado de muitas ‘’coisas’’. Essa palavra indefinida que não gostavas que usasse e da qual, sempre que a usámos em contextos diversos, tantas vezes rimos em conjunto. Foste talvez a pessoa com quem mais aprendi sobre Fado e acerca das poesias que há no Fado. A pessoa com quem conheci tantas outras gentes do Fado. Muitas noites e tardes de guitarradas. Onde aprendi as diferenças entre o ‘’Fado Mouraria’’, o ‘’Menor’’ ou o ‘’Corrido’’.

Fui no Verão aos Açores, a tua terra, e não consegui já visitar a tua ‘’Casa Museu’’, para a qual tantas vezes me convidaste, já estavas doente e os telefonemas no último ano eram muito escassos. Soube hoje pelo Mural do Jose Manuel Neto que tinhas partido. E, ironicamente, recebo esta notícia em Coimbra, cidade de que tanto gostavas e de que tanto falaste, quer nos programas passados que tiveste na RTP exercendo um serviço público de altíssima qualidade, como nas palestras e sessões que davas, a convite, nos últimos anos. Apesar da tua extensa bibliografia e conhecimento sobre Fado e Canção de Coimbra e do teu amor pela guitarra, o teu entusiasmo, quando te falei na existência de um dos construtores de Artur Paredes - Raul Simões-, foi tal que o passaste a divulgar em todos os teus encontros e sessões muitas para as quais eras convidado, inclusive na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - FCSH NOVA
Foste um companheiro grande e uma bússola fantástica no meu trabalho de campo neste domínio e um ser humano formidável que estará sempre no meu coração.

Fiz uma selecção de alguns dos nossos momentos e de sessões que organizei e moderei no âmbito do Ciclo ‘’Conversas à volta da guitarra portuguesa’’ inserido no meu trabalho no Mural Sonoro e onde te encontrava, sempre com muito agrado, orgulho e entusiasmo, na assistência.

A bem ver, experienciar a partida física inesperada de alguém próximo não é nada mais, tenho aprendido, que experimentar a importância oferecida pela sua presença nas nossas vidas. É aí que a morte habita. Ou não. Dentro de nós.

Da ‘’Coimbrinha favorita com o punho fechado’’ um Beijo do tamanho do teu coração. Até sempre.

Soraia Simões

 

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