106ª Recolha de Entrevista
Quota MS_00089

Only with permission

Rights reserved - Free access


BI: Sérgio Godinho  é um dos músicos e autores mais reconhecidos da Música Popular feita em Portugal nas últimas cinco décadas.  Nascido na cidade do Porto no ano de 1945, explica neste registo de conversa, da qual se disponibiliza uma parte neste acervo online, de que modo as escolhas musicais do seu pai e irmão e o seu contacto, ainda que fugaz, com o piano foram importantes na actividade musical, que viria a abraçar de modo profissionalizante mais tarde.

Nesta recolha explica a importância das suas viagens, o que daí recolheu do ponto de vista cultural no geral e literário e musical em particular, da fase do exílio em França e dos espaços onde tocava nesse período, mas também reflecte sobre temáticas como o uso de conotações datadas no âmbito da recepção musical e/ou dos mass media , como sejam o desígnio «música de intervenção» bem como acerca de  algumas das características patentes no seu legado discográfico, nas opções que tomou e no seu repertório, explicando, entre outros aspectos, que parte sempre de uma estrutura musical quando compõe surgindo a letra ou o poema já depois nesse processo, passando pelo repertório pensado e produzido para as crianças mas que não se confina apenas a essa faixa etária (exemplificando porquê), foca ainda de que modo inscreve a sua performance em espaços distintos: o estúdio de gravação e o espectáculo ao vivo e a importância dos músicos que o acompanham nessa acção.

Ao longo do seu percurso Sérgio Godinho escreveu para outros intérpretes e compositores de destaque na sociedade portuguesa, e também alude às circunstâncias em que tal acontece no decorrer desta conversa, a sua música serviu outros domínios culturais e artísticos como o cinema, a televisão, o teatro, tendo também participado  em alguns deles quer como intérprete como realizador/dramaturgo.

A sua vivência do Maio de 68 em Paris, a participação na produção francesa do musical "Hair", onde se manteria por dois anos, bem como as suas primeiras composições, muitas ainda em francês, acabariam por ajudar aos primeiros contactos daquele que viria a ser o seu caminho  no seio da música e cultura populares.
O seu papel na escrita de canções começa a tomar forma no ano de 1971 quando participa no fonograma que marca a  estreia a solo de José Mário Branco, "Mudam-se os Tempos Mudam-se as Vontades" (apesar de José Mário Branco ter, como poderá escutar na recolha de entrevista realizada com o músico, já gravado ''Seis Cantigas de Amigo'' e o EP ''A Ronda do Soldadinho'' em condições temporo-espaciais específicas reflectidas nessa recolha), como explica ao longo deste registo, sendo autor de quatro das letras que enformam este disco (colaboraria também como letrista no fonograma de José Mário Branco "Margem de Certa Maneira" do ano seguinte, editado em França).


No ano de 1971, quando sai o EP "Romance de Um Dia na Estrada", posteriormente o seu fonograma longa-duração, Os Sobreviventes, o músico vê, apesar do sucesso granjeado (receberia um prémio da imprensa que o elegia como «melhor autor do ano») a sua edição interditada dias depois de sair, à posteriori autorizada e novamente interditada.


Após o 25 de Abril de 1974 o músico regressa a Portugal e consolida de forma notável o seu percurso, desenvolvendo o seu leque de interesses, o seu papel como autor e como músico e o envolvimento em diversos domínios da cultura popular,  tornando-se uma das referências da canção.


Do seu legado fonográfico destacam-se, por ordem cronológica, as seguintes edições originais: Os sobreviventes (1971)- Guilda da Música; Pré-histórias (1972) - Guilda da Música; À queima-roupa (1974) - Guilda da Música; De pequenino se torce o destino (1976)  - Guilda da Música; Pano-cru (1978) - Orfeu; Campolide (1979) - Orfeu; Canto da boca (1981) - Polygram; Coincidências (1983) - Polygram; Salão de festas (1984) - Polygram; Na vida real (1986) - Polygram; Os amigos de Gaspar (1988) - Polygram; Aos amores (1989) - EMI; Tinta permanente (1993) - EMI; Domingo no mundo (1997) - EMI; Lupa (2000) - EMI; Ligação Directa (2006) - EMI; Mútuo Consentimento (2011) - Universal. Mas,  outros fonogramas fixariam parte do seu percurso no imaginário de  autores e públicos especialmente em Portugal como Escritor de canções (1990) - EMI, Noites passadas (1995) - EMI, Afinidades (com os Clã) (2001) - EMI ou Nove e Meia no Maria Matos (2008) - Universal ou as suas colaborações  em projectos musicais que reuniam outros intérpretes e compositores com quem foi trabalhando ao longo da sua carreira como O irmão do Meio, colectânea de duetos com diversos artistas (2003) - EMI, Três Cantos ao Vivo (com José Mário Branco e Fausto Bordalo Dias) - (Duplo CD e DVD 2009) - EMI/Universal ou Sérgio Godinho e As Caríssimas 40 Canções , em parceria com Manuela Azevedo, entre outras parceria ou participações que pautam a renovação constante que norteia o seu caminho na música, quer no campo dos arranjos e versões como na prática performativa que o mantêm quer entre os músicos da sua geração como na esteira da sua uma das fontes referenciais quando o assunto é: a canção feita em Portugal nas últimas cinco décadas.


© 2015 Sérgio Godinho à conversa com Soraia Simões, Perspectivas e Reflexões no Campo
Pesquisa, Som, Edição, Texto: Soraia Simões
Fotografias: Alexandre Nobre
Recolha realizada em Lisboa na casa de Sérgio Godinho