107ª Recolha de Entrevista

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BI: Carlos Martins nasceu no Alentejo, numa aldeia chamada Etiópia, no ano de 1961. É  um dos mais activos e consolidados músicos em Portugal.


Saxofonista, compositor e formador conta nesta recolha maior, da qual se disponibiliza uma parte no acervo deste projecto online, que começou por tocar percussões na rua em criança e que o ensino da música de modo 'oficial' é encetado na Banda Filarmónica de Grândola, onde estudaria clarinete, música e teoria musical.

O ambiente em que aprendeu música (a importância, entre outros, da perseverança do maestro Jorge Picoito para a sua aprendizagem de música) no Alentejo foi, como recorda, de um valor inestimável, mas o quadro social, cultural e ideológico em que cresce revelaram-se de igual importância. É neste campo que Carlos Martins fala dos desejos, ânsias e angústias que se viviam nesse período:  a suposição, utopia e  desejo de liberdade, a vontade e curiosidade do 25 de Abril de 1974, o incentivo à leitura de Karl Marx e Friedrich Engels, o estudo e a reflexão de disciplinas como a filosofia, as relações de proximidade e ambiente colaborativo, o lado afectivo e um sentido de transformação e idealismos fora do que apelida de 'determinismo revolucionário',  mas que convivia com o lado mais impenetrável do poder local partidário de esquerda. Foi líder dos estudantes comunistas, integrou um grupo de baile tendo como ideia inicial tocar bateria, o Conjunto Inovação, mas rapidamente passaria para os saxofone alto, emprestado para o efeito, e clarinete, onde chegou a tocar repertório do caboverdiano Luís Morais. Neste contexto, intuitivamente,  arriscaria as primeiras improvisações, sem saber exactamente que o fazia. 


Lembra ainda que com 19 anos, já em Lisboa, tocava com um conjunto alargado de músicos oriundos de Cabo Verde, vendo aí uma possibilidade de ficar  a tocar até tarde, desenvolvendo as suas capacidades interpretativas.

Os papéis assumidos, no seu crescimento como músico e indivíduo participativo na sociedade, que a sua passagem, de cerca de ano e meio, pela Banda da GNR, destacando os músicos de vários instrumentos de sopro que dali saíram e integravam neste período orquestras clássicas reconhecidas, ou pela Orquestra de Jazz do Hot Clube, com a facilidade que já tinha ganho em ler música - elemento decisivo para a sua integração -, os livros de solfejo que se estudavam na banda, são fundamentais e também por isso aflorados nesta conversa. Viria a juntar à sua formação os estudos realizados na Escola de Música do Conservatório Nacional.


Diz que se apercebeu nestes anos que é o ritmo que «faz a diferença da música entre os mundos», o ritmo inclusivé da voz em vários domínios musicais, dando de igual forma na fundamentação desta sua ideia o Fado (cantar Fado) como exemplo.


O racismo durante a década de 1990 na cidade de Lisboa, a criação da  Orquestra Sons da Lusofonia, Lisboa Capital da Cultura no ano de 1994, que teve Ruben de Carvalho como programador da área musical, e as primeiras tentativas de incentivo à organização de encontros e sessões, tendo a prática musical como motor, de fomento à reunião das diversidades de credos, espaços de origem, línguas e etnias, a entrada na UE,  são outros aspectos que enformam temporo-espacialmente o seu percurso e também por isso abordados e reflectidos nesta conversa.


Fez parte da Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal, da Academia de Música de Setúbal, da New Jersey Performing Arts Center e foi responsável pela fundação do Quinteto de Maria João, do Quarteto de Jazz de Lisboa e do Sexteto de Jazz de Lisboa.

Trabalhou e gravou com músicos  como Cindy Blackman, Ralph Peterson Jr., John Stubblefield, Don Pullen e Bill Goodwin,  com o Grupo Colectiva (Teatro e Música) colaboraria com a compositora Constança Capdeville, actuou em vários concertos da Oficina Musical do Porto, dirigida pelo maestro Álvaro Salazar, bem como com os músicos solistas do Teatro Nacional de São Carlos, dirigidos pelo maestro João Paulo Santos. Tais actividades marcam indelevelmente o seu caminho como músico.


Em 1992 fundou o Festival Lisboa em Jazz, que deu origem à Festa do Jazz  que dura, até à data em que é realizada esta recolha, há 13 anos, o primeiro festival dedicado à apresentação de músicos portugueses de jazz, organizado em Portugal.

É presidente há 20 anos da Associação Sons da Lusofonia e foi nesta condição que iniciou há 10 anos o Lisboa Mistura, dirigindo-o até ao presente.


Escreveu música para teatro, cinema e bailado, tendo colaborado com o coreógrafo Rui Horta, ou com a bailarina e coreógrafa Vera Mantero. No cinema fez a banda sonora do filme "Filha da Mãe" de João Canijo, a banda sonora e a música da exposição "A Queda de um Anjo" do escultor António Quina e bandas sonoras do filme ‘PAX’ de Eduardo Guedes (1994) e do vídeo "Sétima Colina", de Lisboa 94.

Do seu legado discográfico em nome próprio fazem parte até à data em que este registo é realizado:
Lisboa em Jazz 90 - Quarteto Carlos Martins (1990) - CML/Pelouro Cultura
Passagem - Quarteto Carlos Martins (1996 - Grav. 1995) - ENJA
Outras Índias - Carlos Martins e Vasco Martins - EMI-Valentim de Carvalho (1997)
Sempre - Carlos Martins (1999) - Valentim de Carvalho
Caminho Longe - Orquestra Sons da Lusofonia (1998) - EMI-Valentim de Carvalho
Do Outro Lado - Carlos Martins (2006) - Som Livre
Água - Carlos Martins (2008) - iPlay
Absence - Quarteto Carlos Martins (2014) - Associação Sons da Lusofonia
Na sua ligação a outros intérpretes ou compositores:
Cem Caminhos, Quinteto de Maria João (1991/1985) MOV / ORF-RT [CD/LP]
Maria João, Quinteto Maria João (1983) ORF/RT [LP]

© 2015 Carlos Martins à conversa com Soraia Simões, Perspectivas e Reflexões no Campo
Pesquisa, Som, Edição, Texto: Soraia Simões
Fotografias: Helena Silva
Recolha efectuada em LARGO Residências, Lisboa