Projecto de recolha de histórias – Pessoas com história*

Sábado, 6 de Dezembro de 2014

Publicado originalmente aqui (seguir link, imbuído no título abaixo):

Entrevista a Soraia Simões



Desenvolveu a sua Pós-graduação em Estudos de Música Popular . O que é que a atraiu para esse estudo, e ao desenvolvê-lo o que é que compreendeu, o que é que aprendeu?

Soraia Simões: Atraiu-me o facto de ser uma pós-graduação pioneira no país, que articula os estudos sobre música popular, com a antropologia moderna e a etnomusicologia, fornecendo a quem a tirou ferramentas críticas e interpretativas acerca de uma indústria complexificadora, com muitas variações, como é a indústria da música em Portugal.
Aprendi que o uso dessas ferramentas facilitam o meu trabalho de campo e o contacto com os protagonistas do mesmo.



Na sua opinião por que é que não se dá a devida importância à música da raiz tradicional do povo, de Portugal?


Do ponto de vista da investigação, a cultura popular no domínio das práticas musicais de matriz rural tem desde há algum tempo revelado algum impacto dentro de áreas de estudo como a Antropologia e a Etnomusicologia e fora dela, nomeadamente em áreas como a realização ou o incremento de elementos musicais no domínio das «culturas locais», seja do ponto de vista estritamente musical, dos instrumentos musicais usados, dos registos orais que foram utilizados e aos quais se atribuem novas leituras e significados, ou do discurso sobre as mesmas, na música popular urbana. Quero, então, com isto dizer que não considero que não se dê importância, acho é que essas práticas foram até aos anos de 1980 metidas num plano de secundarização, em que não se falava, reflexionava ou discutia sobre as mesmas pelo valor musical e cultural existentes mas por razões de ordem ou política amputando-a das outras valências que fazem com que elas sejam música, som e objectos culturais de interesse em si mesmas. Tudo isso tem de coexistir. Neste momento acho que, neste capítulo, os interesses científicos e os humanísticos têm vindo a convergir.



A sua vontade de estudar a tradição portuguesa na sua música especificamente, prende-se com a riqueza de músicos e bandas como o José Afonso, José Mário Branco, o Francisco Fanhais, a Banda do Casaco...?



O conceito de «tradição» é um conceito inoperacional em si mesmo, prefiro dizer que se prende com o facto de não existir ainda um Arquivo Sonoro, nem um centro de documentação sobre práticas musicais em Portugal realmente fundamentado, onde os intervenientes do espaço musical reflictam conjuntamente com quem elabora a pesquisa e investigação sobre as suas obras e as problemáticas que nelas se inserem e que por acreditar que o lugar dos estudos, sejam eles em que área for, é próximo e não afastado da sociedade e que posso, com outras pessoas, contribuir para esse alargamento de uma rede de trabalho séria e capacitada que trabalhe com essa finalidade.




Dizia-me Viriato Teles um grande jornalista português que os portugueses menorizam os nossos cantautores, artistas... referindo que “Zés Afonsos” são “Bob Dylans”. O seu estudo é também nesse sentido, que não é assim, que temos muita importância cultural e que devemos valorizá-la, e aos nossos autores?


Talvez haja um efeito de mimetização, natural quando inicia o percurso de qualquer músico, com aqueles que são os seus rochedos influenciadores, a rádio, os discos que ouvem, etc. E isso esteve patente, como me contaram seja o José Mário Branco seja Luís Cilia, para lhe dar exemplos concretos que pode, parte deles, encontrar no acervo do Mural Sonoro online, na música que começaram por fazer no seu período do exílio em França e onde se notam algumas dessas referências, nas suas primeiras edições, influências de alguns músicos franceses como , Georges Moustaki, Georges Brassens ou mesmo Léo Ferré, mas também brasileiros como Dorival Caymmi, alguns italianos, entre alguns mais. Pensar que os músicos não são agentes influenciadores e influenciados por outros é aliás um contra-senso até aos estudos sobre música no contexto popular, é dessas ligações à história de outros compositores, autores, à política e sociedade de época, etc que resulta a riqueza desses protagonistas. Por outro lado, e apesar de isto ser a história até de uma suposta «tradição» - a inovação, o uso das raízes e de uma certa utopia que a faz avançar em direcção ao progresso, sem o qual ela já não existia -, reduzir na retórica a um ou mais elementos comparativos é insensato. Tanto como achar que todos nós não somos o resultado da soma de muitas mentes. Agora, há talvez uma coisa que se retira dessa afirmação com a qual concordo: a obra de José Afonso ainda não está realmente estudada e aflorada. E é pena. Porque é dos maiores vultos do século XX.


Com o projecto Mural Sonoro dá-lhe ainda mais vida através de diversas entrevistas, que passam para além da música. Conhecer as suas vidas e obras, recolher informações destes artistas, fazer com que o trabalho deles seja mais divulgado, mais reconhecido, é essencial para si?

Como referi na questão anterior, esse acervo coloca alguns protagonistas da Música Popular a falar sobre determinados temas e questões que norteiam, de modo transversal, a música que cá é feita, embora existam algumas questões mais específicas do trabalho de cada um deles, é especialmente um trabalho sobre essas práticas em Portugal, sem esquecer os grupos migratórios que na cultura alargada cá se inserem e dela fazem parte há tempo vital. É essencial que esse entendimento do património cultural, musical, imaterial, mas também tangível por onde esses protagonistas, que formam este vasto painel, gravitam seja documentado. Documentado, analisado, registado, transcrito e tornado um objecto de interesse para a sociedade. Sobretudo isso.

Entrevistou Paulo de Carvalho, manteve o contacto, criaram uma empatia, e surgiu a ideia do livro “Passado Presente- Uma viagem ao Universo de Paulo de Carvalho”. Quais foram os pontos de interesse que coincidiram com o seu estudo sobre a música popular portuguesa?

O percurso dos músicos em Portugal, mesmo que os domínios em que eles estejam inseridos sejam distintos, não é assim muito diferente. Paulo de Carvalho, é um músico, compositor e autor de letras, que atravessou 50 anos, até à data em que incidiu a obra, atravessou várias conjecturas sociais, políticas, culturais, avanços e retrocessos da indústria fonográfica, os modos de produzir e recepcionar música em Portugal, logo naturalmente que ele condensa em si, além do intérprete que é, todo o interesse para a abordagem ao modo como não só esses processos evoluíram e como um homem/autor/músico/protagonista nesse período os percepciona, como as suas mudanças do ponto de vista da linguagem sonoro-musical (esteve no ''pop-rock'', foi baterista em grupos que derivaram entre a abordagem mais ''experimental'' à ''soul'', musicou temas que se tornaram, com letras sobretudo de José Carlos Ary dos Santos, célebres na história do Fado, deu voz a outros tantos que se ligam à história da cultura em Portugal, etc) e as nuances e aparentes contrariedades do ponto de vista político também reflectidas na sua obra musical, que se podem atentar na obra que o Pedro refere.

Através das várias entrevistas e pesquisa que fez ao trabalho do Paulo de Carvalho, o que é que aprendeu, que riqueza cultural retirou desse longo e importante estudo sobre o seu percurso musical e artístico?

Que a sua obra e o modo como com ela se relaciona são demasiado relevantes para aquilo que a sociedade, através dos meios de difusão, devolveu às pessoas durante estes anos.
Mundifiquei uma série de apreensões que tinha inculcadas face a essas ideias que pairavam no ar. Fui-me surpreendendo. A riqueza que daí retirei foi especialmente o privilégio de entrar num mundo para lá do pano, com alguém que transporta um legado grande e de um valor ainda não totalmente apreendido. Carrega o dele e dos autores que com ele trabalharam e fazem inevitavelmente parte do seu caminho. Alguns, ainda vivos, também entrevistei neste processo.


Dizia na entrevista ao Bodyspace que pretendia um dia guardar as suas entrevistas para bibliotecas, museus entre outros. Guardar as entrevistas e preservá-las, trabalhar a
memória de quem ouve, de quem lê o que faz e o que fazem os seus entrevistados é para si um objectivo essencial?

É importante, como há pouco referi, o registo dessas conversas, e que o debate sobre assuntos que dizem respeito à música, do ponto de vista técnico e tecnológico, social e ideológico (sem se ser sectário nesse registo), seja efectuado e usado em diversos campos do conhecimento, de modo a chegar ao maior número de pessoas e áreas de ensino ou interesse.

Disse na mesma entrevista que a Lusofonia lhe fazia urticária pela razão de a cultura presente não ter progredido. Na sua opinião a realidade presente na Lusofonia não é idêntica à situação portuguesa? Tendo em conta que diz que não progrediu, pergunto-lhe se o que falhou foi uma falta de revolução cultural tal como ao nosso país e aos países irmãos na Lusofonia?

Não foi bem isso que eu disse. Mas antes, que o termo «lusofonia» me causava isso sim, «urticária», porque é um termo que serve sobretudo a retórica de alguma política mas que é inoperacional na abordagem a que está sujeita. Dá a ideia de que vivemos todos numa bolha, a ideia que dá é que há uma relação comum e transversal a vários discursos – tanto por referência à língua, como meio de partilha, como à referência de uma história comum. As definições de uma aparente unidade, tendo em conta a dispersão territorial e continental dos vários espaços que preenchem a geografia da chamada ''comunidade lusófona'', as suas especificidades culturais, sociais, linguísticas inerentes à historicidade que caracteriza a formação identitária de cada um desses espaços, anula-se, muitas vezes, na prática pela construção da directriz espacial, a partir da qual se imagina a ideia de uma 'comunidade lusófona' com uma língua semelhante. O que me dá urticária não é o desígnio «lusofonia», mas o que com ele fazemos.
A retórica que realça o imaginário de pertença/identidade fica tantas vezes unicamente carregada por discursos que resgatam ‘uma história semelhante’ e ‘uma língua partilhada’. Tudo isto são mitos de acessibilidade a uma linha de entendimento posta no enfoque lusófono cada vez menos integrante e cada vez mais colonizadora. Foi somente isto que quis com essa resposta dizer.



Na mesma entrevista referiu que o Paulo de Carvalho não é apenas e só “E Depois do Adeus”, isso pode-se referir também ao Zeca com a “Grândola, Vila Morena” ao Zé Mário com o “FMI”, conseguiu mostrar e vincar a importância que os artistas que entrevista/estuda não são só aquele trabalho?

Sim. Disse, porque o Paulo é também autor de letras, compositor e porque tem mais de 20 fonogramas gravados, ficar eternamente referenciado, dada a amplitude do trabalho autoral, como um tema que interpretou e, especialmente, que foi veiculado na rádio num período crucial da história do país, é uma exígua parte da história. E a sua história é, quer uns queiram quer outros não, a história da Música Popular em Portugal também. Isto refere-se, inquestionavelmente, a muitos mais autores com a sua longevidade em Portugal. O Zé Mário até me disse em conversa uma coisa engraçada «nunca querem saber de mim, agora que vem a Troika e o FMI, lá vêm todos outra vez bater à minha porta. A maior parte nem sabia o que era o FMI. É inconsequente. A música não inventa a política, é a política que inventa a música. Eu não fui para o movimento social criar movimento social. Cantei o que estava a viver.», referindo-se aos jornalistas que o procuraram há dois anos de novo.
Acho que na verdade a obra tanto de José Mário Branco como de José Afonso, cada um à sua maneira, ainda tem longo trabalho de campo para fazer. São dois dos protagonistas da Música que aqui foi feita. José Mário Branco então é um músico completo. Arranjador, produtor, compositor, autor de letras, além de um dos mais valiosos informantes vivos deste período da canção.


Na entrevista que deu ao blogue da FCSH disse que as pessoas têm fraca tradição cultural, musical e científica. O projecto Mural Sonoro, do qual é a Presidente, tenta quebrar alguma dessas lacunas? É importante que isso aconteça, porquê?

Referia-me, se reler, aos poderes políticos, às políticas culturais e às suas prioridades, e aos órgãos de decisão, se o país tem esse atraso deve sobretudo a eles.
O Projecto Mural Sonoro faz o que está na sua Missão, não pode decidir nada nessa escala, muito menos sem apoios financeiros para tal.


Um dos objectivos do Mural Sonoro é criar um espaço onde possam mostrar instrumentos, os músicos a tocá-los e a ensiná-los para as crianças, intercâmbios, congressos. Que passos se podem dar para o desenvolvimento das crianças, da cultura das pessoas? Que valor pretende que se obtenha com estes projectos a acontecerem, e a crescerem?

O mais importante: diminuir o fosso de acesso a essas temáticas e aproximar o público, independentemente do seu capital financeiro ou cultural, desses autores e eles do público a que, por essas razões, nem sempre têm acesso.


Já entrevistou rappers, músicos de protesto, fadistas e outros. Trabalhar na diversidade cultural, também é para si uma mais-valia, e uma riqueza ainda maior, quer cultural, política e social?

Sim. No fundo o património musical em Portugal é constituído por todas essas linguagens e a cultura popular vive dessas diferentes perspectivas.

Quais são os seus sonhos para Portugal?

Um sítio um pouco mais bem frequentado para eu continuar a querer cá viver.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Obrigada eu pelo convite. Igualmente.

 

 

*Entrevista: Pedro Marques, Correcção: B.T

Fotografia SIC

 

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