originalmente publicado aqui

As características específicas de determinados trabalhos realizados no campo do património nem sempre, quase nunca diria, assumem a visibilidade que mais agrada aos poderes locais.

A falta de sensibilidade relativamente aos assuntos que se relacionam com o património imaterial é expressa fundamentalmente na utilização que esse poder faz destes assuntos para fins propagandístico-turísticos. A integração dos mesmos em políticas claramente definidas é quase inexistente, enquanto que o seu crescimento no âmbito de realizações sazonais, como mostras, feiras e romarias com fins turísticos, assinaladas por elevadas doses de etnocentrismo que as caracteriza, se faz cada vez mais sentir.

A construção de imaginários de «identidade local» ou «identidade regional» a partir dos quais se vão enquadrando as mais diversas iniciativas de «valorização do local», apresentado como único e distintivo, não me parece que lhes permita atingir o protagonismo que sempre visam com as suas iniciativas e realizações.

Ao clientelismo político-partidário, a contratação de funcionários para os seus quadros por esta via, e a vontade inequívoca das autarquias em apoiar não propriamente o que se faz, mas o que fazemos (nós autarquia ou nós sob a alçada da autarquia) acresce um esforço da sociedade – objecto de uma política baseada em apoios e subsídios que tem potenciado práticas de subserviência e de dependência absolutamente fustigantes.

Parece-me também que cabe aos agentes culturais mais independentes nas suas condutas abarcar as responsabilidades patentes no exercício das suas actividades,  confrontando os poderes instituídos com as suas reais responsabilidades. Não contestar esta ditadura da chamada «subsidiodependência» ou disfarçá-la através de uma cultura de dependência dos órgãos estatais é, quanto a mim, o reflexo de uma sociedade do faz-de-conta em que vivemos e à qual eu me recuso pertencer.