''A dimensão material do rap como forma musical que se impôs''

Há palavras que nasceram para se cantarem e serem ''uma arma'', tal como há palavras que nasceram para se ''cuspirem'', entoarem ou dizerem sendo sub-entendidas  como ''uma possível resposta'' ao mundo que as circunda. Mas, nesse painel de atribuição de significados, há palavras que não teriam impacte se não tivessem uma componente rítmica que lhes servisse de canal ou as suportasse de forma a que elas furassem para além do espaço em que se inspiraram para aparecer e, muitas das vezes, inconscientemente chegar a mais gente.


O rap não será uma forma musical isolada, como nenhuma o é, do meio em que se insere, mas ela assumiu uma importância vital e não raras vezes se legitimou, de dentro, como tendo um papel de  "postura de resistência", pelo que o interesse e convite enviado a vários rappers (como: Hezbo MC, Chullage, LBC Soldjah e Capicua) pelo  Director do Centro de Estudos Sociais (CES), Boaventura de Sousa Santos, para estarem presentes com as suas diferentes abordagens num Colóquio na cidade de Coimbra, são uma sequência da aceitação, nem sempre fácil, que a prática foi assumindo durante o seu crescimento, entre a sociedade portuguesa.


Entre a recepção musical em Portugal, as primeiras impressões significativas do hip-hop aconteceram por volta dos anos de 1985/86. Não é novidade que o fenómeno algo efémero do break dance fortemente difundido por promotoras na Europa através de filmes produzidos nos EUA, como o célebre Beatsbreet do ano de 1984, fez com que um movimento, primeiramente de mimetização, entre jovens residentes nas periferias da cidade de Lisboa, um pouco por toda a área metropolitana de Lisboa e posteriormente (anos de 1990) no Porto, Algarve e um pouco por todo o país desabrochasse. 


Também não é novidade que especialmente nos anos de 1990 o rap tenha criado sobretudo a partir da cidade de Lisboa mecanismos de produção e recepção que geraram entre as suas distintas  comunidades de prática, que começaram a crescer, relações quer de resistência com a cidade como de dependência, assim como relações nem sempre pacíficas, dado o interesse diversificado e os propósitos dentro do género dos seus praticantes, entre todos. 


Se no seu surgimento em Portugal à prática do rap se associa um grupo de jovens descendentes de imigrantes africanos em Portugal, à medida que a prática se dissemina mais grupos sociais, praticantes e não praticantes, tornam o rap uma fonte central  de sociabilidades entre grupos. Elas atentam-se no seu início através da troca de cassetes e fonogramas em formato vinil, nas relações de rua para trocar poemas acompanhados de gravadores portáteis ou no beatboxing (ritmos percussivos transmitidos oralmente) e nos anos 2000, com a experiência tecnológica e a chegada da internet, passam a ser pertença de um leque maior de indivíduos que nesses códigos, quer culturais/sociais como musicais/artísticos, se revêem.



Ao conjunto de  expressões sonoras, plásticas, linguísticas e corporais que caracterizam o hip-hop desde a década de 1970, inicialmente sobretudo entre as comunidades latino e afro-americanas, sempre estiveram aliadas questões sociais, geográficas, políticas e económicas centrais dessas comunidades e também por isso, sobretudo a partir de meados da década de 1980 nos EUA, e posteriormente um pouco por toda a Europa, nomeadamente em França, começassem a despontar os primeiros trabalhos no domínio de áreas de estudo como as Ciências Sociais e Humanas com enfoque no hip-hop remetendo-o para uma cultura de matriz urbana e de vivência periférica. Contudo, e apesar de no início dos anos de 1980, tanto no âmbito latino-americano como no afro-americano, as figuras desempenhadas pelo MC/rapper no âmago da cultura hip-hop ganharem força e emergência notáveis permitindo o crescimento e estruturação de uma expressão musical que passa a ser conhecida a uma escala global com a sua entrada na indústria fonográfica, poucos são os trabalhos que analisam esta prática musical no domínio da cultura popular de massas.


Do mesmo modo que o domínio alargado em que se insere a cultura hip-hop não se restringe a uma expressão musical (o ‘rap’), a abordagem também não será completa se na sua leitura não se incluírem todas as vertentes que o suportam: o manusear de pratos de gira-discos por intermédio de técnicas que envolvem discos em suporte vinil (o DJ-ing), a expressão plástica e coreográfica que na cultura ganharam primeiramente destaque (o grafite  e o break dance) e o modo como um domínio musical caracterizado por interpretações vocais semi-faladas, numa expressão com características monódicas e homofónicas, composto de coplas em rima (AABB) e acompanhado pelo som de um baixo, à capela ou com materiais sonoros pré-gravados disparados através de samplers e selecionados de discos se conseguiu impor de modo paulatino na indústria fonográfica local e global mais tarde, de que modo uma cultura urbana de vivência periférica, como definida nas primeiras análises, passou a ser a identificação para muitos grupos de indivíduos, praticantes e simpatizantes, nos grandes centros urbanos, de que forma esses códigos de comportamento e de expressão extrapolaram o contexto de indústria e se encontraram com as camadas populares, de esferas diferenciadas e em espaços geográficos distintos.


Todas as dinâmicas patenteadas pela cultura hip-hop  em Portugal, nesse longo processo de avanço e retrocesso, desde as primeiras manifestações com dimensão de grupos ou indivíduos com impacte a um nível nacional a partir do bairro de  Miratejo e da cidade de Almada (relembrem-se os  diferentes papéis assumidos por B.Boy Boxers, General D ou Black Company), passando pelas  organizações de festivais com baixos recursos financeiros e técnicos, festas em escolas, associações culturais, bares e à gravação do primeiro registo fonográfico que assinala a chegada do rap  à Música Popular, isto é: a um espaço de gravação e reprodutibilidade com maior amplitude onde outros universos musicais já gravitavam há mais tempo, revelam uma enorme capacidade de perseverança por parte dos seus praticantes.


Todavia, a chegada deste género à indústria de gravação e dinamização cultural, e musical em particular, não foi homogénea, e ainda hoje  nem todo o rap chega a esse espaço onde outros universos dentro da Música Popular se apresentam, pelo que as relações de tensão entre produção cultural veiculada pelos órgãos de comunicação e produção efectiva são também várias das vezes desiguais. Decorre deste facto que, a título exemplificativo, o rap cantado na língua cabo-verdiana (o crioulo) tenha, apesar do forte impacte entre os amantes do género, uma escassa representatividade nesses meios. 


Hezbó MC, o rapper/MC ou Jakilson Pereira, o sociólogo com trabalho associativo na Biblioteca e Centro de Documentação António Ramos Rosa, situados no Bairro Cova da Moura, enviou-me há dias a letra e música com que actuou, integrado no Colóquio Internacional de Epistemologias do Sul em Coimbra no  dia 12 de Julho, lá estão os processos de reterritorialização impostos pelas  diásporas de vários elementos da sua comunidade desde que se conhece, mesmo do ponto de vista linguístico: o crioulo, o inglês e o português, a denúncia a formas de racismo praticadas institucionalmente (como a escola, personalizando com ''manuais escolares''), mas também estão os apontamentos musicais, o  sampler com um tema de um dos mais importantes intérpretes da História musical conimbricence e do movimento estudantil na cidade, Adriano Correia de Oliveira, que são a almofada que dá à sua letra contornos que a podem inserir num contexto alargado em que esta prática se insere, não deixando, pelo contrário aliás, de nela  reflectir as circunstâncias diárias da vida da sua comunidade no contexto local e global, na sociedade,  o estúdio que é outro instrumento musical e que faz da música com características monódicas e homofónicas, uma música popular rica e com notória expressão entre vários grupos sociais.


letra de Hezbo MC traduzido de crioulo para português 

Lisnave J. Pimenta
Sofrimento que o meu povo aguentou
Explorados na Cuf para os filhos Sustentar
Na Mina Panasqueira dificuldade que enfrentaram
Foi pior que ultrapassar Cabo das Tormentas
Supremacia leva a problema Social 
Ignorado quem deu contributo por Portugal
Sem lugar na história de Portugal 
Como Cigano no retrato Nacional 
Presença Silenciada como dos negros em Portugal 
Se não acreditas no Hezbo, então! 
Perguntem ao José Tinhorão 
Vários Seculos por aqui sem aceitação
Marginalizado, Escravizado sem reputação
Não é por ser vacilão 
É que a historia da preza foi sempre contado pelo Leão
Querem Ocultar a história de rebelião
Querem manter as nossas mentes na prisão
Querem manter as nossas mentes na prisão




São histórias que não aparecem nos manuais escolares
Mas são histórias de muitas famílias e muitos lares
São histórias que não aparecem nos manuais escolares
Mas são histórias de muitas famílias e muitos lares

São histórias que não aparecem nos manuais escolares
Mas são histórias de muitas famílias e muitos lares
São histórias que não aparecem nos manuais escolares
Mas são histórias de muitas famílias e muitos lares

Silenciamento do povo
Mentira Sobre um Mundo Novo
Hipocrisia do Estado Novo
Perigo de história única 
Opressão Guerra púnica 
De condenados da Terra
Há homens que as cabras 
Ensinaram a comer pedras
Capitalismo lei do mercado/ lei da Selva
África pilhada
Direito dos cidadãos atropelado
Fronteira do Ocidente controlado
Frontex à caça
Meu povo em massa
Em direcção a Europa 
Os Manos ainda não perceberam?
Que o nosso povo segue o percurso
Dos nossos recursos 
Que foram pilhados/ amontoados
No Ocidente
Passado e presente 
Pouca coisa têm de diferente
Antes era colonialismo
Agora é o neocolonialismo
E nepotismo
São histórias que não aparecem nos manuais escolares
Mas são histórias de muitas famílias e muitos lares
São histórias que não aparecem nos manuais escolares
Mas são histórias de muitas famílias e muitos lares

São histórias que não aparecem nos manuais escolares
Mas são histórias de muitas famílias e muitos lares
São histórias que não aparecem nos manuais escolares
Mas são histórias de muitas famílias e muitos lares

Tema, áudio

 

 

As fotografias do evento, uma delas usada neste texto, foram tiradas por autores diversos como Gionanni, José Manuel Pinheiro, Segundo e Susan de Oliveira