«A música nunca inventa a política é a política que inventa a música» disse José Mário Branco há mais de um ano em entrevista para o arquivo Mural Sonoro. « (...) é por isso que sou profundamente contra o label  música de intervenção (...) é redutor (...) eu não fui para a rua criar o movimento social, ele é que me chamou (...) cantei aquelas músicas porque era o que estava a sentir (...) sabes a ideia que me dá? É que a liberdade só existe quando é conquistada (...)». Não obstante, as ligações entre alguns indivíduos, de domínios distintos da Música Popular, quer com as políticas culturais praticadas como com o discurso dominante para quem a censura e a falta de liberdade na criação pouco existiram também foram notados. Como poderá escutar aqui, na recolha de entrevista realizada a João Braga, onde encontra algumas alusões suas sobre as músicas que passavam na rádio nos anos de 1960 e 1970,  como a respeito da intervenção da PIDE em sua casa no contexto de um episódio que marcou o início dos Festivais de Jazz em Cascais na década de 70, nos quais o actual fadista foi um dos organizadores.

Por outro lado, os centros e as margens impostos pela indústria cultural no geral e fonográfica em particular e pelos próprios músicos levaram alguns indivíduos a criar as suas dinâmicas de gravação, produção, promoção e ligação aos públicos de um modo por vezes distante dos processos tradicionais[1], mesmo antes da chegada da internet. O Associativismo, as organizações culturais de ideologias político-sociais diversas marcaram presença. Nos processos operados distantes dos modelos tradicionais, a produção musical e cultural em Portugal fez-se acompanhar de fortes movimentos sociais e políticos que apoiavam a gravação e edição discográfica (os discos de edição de autor ou pré-financiados  pelos colectivos de emigração politizados em França, como acontecera com os primeiros fonogramas gravados por José Mário Branco ou Luís Cilia, e que pode atentar melhor em parte das suas conversas gravadas para o Arquivo e disponíveis neste Portal).

O aparecimento da internet fez com que  a música feita na sociedade portuguesa não dependente das habituais estruturas organizacionais e institucionais se formasse de outras formas, permitindo uma maior contribuição para criar na sociedade valores éticos e políticos distantes dos impostos pelo Estado e que delimitavam o poder de contestação dos cidadãos[2] .

A música que se reclamava de «comprometida com uma realidade social» ultrapassou os centros académicos e encontrou-se com as camadas populares desde o século XX. Em vários domínios musicais, e com indivíduos de várias esferas da sociedade portuguesa[3] .

Seja por via de ideias expostas nas letras mais codificadas, seja pelo recurso a uma poética-metafórica («nos períodos de maior tensão socio-política você encontra as maiores canções de amor» diz Ivan Lins[4] ) seja pelo uso que as estruturas quer sociais como institucionais fazem das músicas menos óbvias em períodos marcantes, como pudemos verificar com o uso dado a «E Depois do Adeus» de José Niza (letra) e José Calvário (música) celebrizada na voz do músico Paulo de Carvalho e que serviria na Rádio ao radialista João Paulo Diniz para anunciar uma Revolução a 25 de Abril de 1974, não esquecendo as  posições tomadas sobre algumas questões prementes, como a guerra colonial (Luís Cilia seria o primeiro a denunciá-la num disco da sua autoria [5] ) ou o Estado Novo. 

Nesta Sessão que ocorrerá a 31 de Maio no Museu da Música, pelas 18h, e contará com a presença de Manuel Rocha e Ruben de Carvalho falaremos de algumas das mensagens contidas não só nas músicas como nos discursos colectivos e individuais, das mudanças significativas operadas nos campos da programação cultural e produção nos últimos 40 anos.

Com o objectivo de  ampliar o foco da Sessão analisar-se-ão também algumas das músicas, composições e arranjos que serviram de canal  para a compreensão das letras.

Contrapondo a opinião de alguns dos autores que registei em conversa para o Arquivo e já fizeram parte de algumas sessões de entrada livre no ano de 2013 às de outros também registados, e em campos de acção diferenciados,  propõe-se com mais uma Sessão Mural Sonoro abordar a ampla dimensão em que se insere esta temática no âmbito da sociedade portuguesa.

Soraia Simões 

texto de apresentação de Sessão com breves considerações a aprofundar na sessão de entrada livre. Hora e local do Evento detalhes e informação Portal Museu da Música

[1]  recolha de entrevista com José Mário Branco online com o número 53, do minuto 7 ao minuto 40 do áudio disponibilizado na área «Arquivo Mural Sonoro» neste Portal

[2] escutar recolha de entrevista a Nuno Santos (sociólogo) e rapper (com o nome artístico: Chullage) para arquivo, disponível em arquivo online e «Música Popular e Cultura, breves considerações»

[3] ver noutros domínios musicais onde a referência não é tão óbvia para a maioria da sociedade portuguesa, como o fado, em: «A Lírica do Fado antes da Censura. Antologia de poesia para Fado (1857-1926)», Lima, Paulo (selecção e estudo) ou «Fados para a República»,  Nery, Rui Vieira, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2012 

[4] recolha de entrevista realizada para Arquivo Mural Sonoro em Setembro de 2013, online com o número 65

[5] Luís Cilia foi o primeiro cantor que no exílio denunciou a guerra colonial e a falta de liberdade em Portugal. A sua actividade constante, a partir de 1964, tanto discográfica como no que diz respeito à realização de recitais, fê-lo profissionalizar-se em 1967. Durante vários anos dedicou-se ao estudo de harmonia e composição. Recolha de entrevista realizada em Agosto de 2013. Disponível em arquivo online uma parte da conversa a partir de Setembro de 2013, assinalada com o número 64 para facilitar pesquisa online

Primeira Parte, de três, da  Sessão de 31 de Maio