*O modo como a cultura popular foi vivida por grande parte dos trabalhadores no Alentejo no período do Estado Novo  deu origem a uma forte mobilização socio-política  desta classe social  que por sua vez foi permitindo o aparecimento de práticas culturais (musicais, políticas  e performativas) assentes no espírito de índole colectivo.

 

À ideia sistemática de que a terra não deveria ser propriedade individual mas um meio para trabalhar/cooperar colectivamente somam-se aspectos de natureza demográfica, como a emigração, e o incentivo a uma linguagem ideológica de classe interiorizada e exteriorizada pelos operários, sobretudo agrícolas, da região.

Os operários que pertenciam, trabalhavam e se encontravam para convívio em áreas mais interiores estavam mais ‘’protegidos’’ das influências e interesses culturais externos das classes dominantes e dos organismos onde era exercido o poder do regime vigente sob a vida laboral desses trabalhadores. Nomeadamente, os Grémios, as Casas do Povo ou a União Nacional.

É precisamente nesse ambiente, à primeira vista, avesso às políticas e culturas perpetuadas pelo regime, dado pelo seu crescimento especificamente interno, que o canto colectivo surge. Ele é em si uma extensão da vida em comunidade dos trabalhadores ou operários agrícolas habitantes do Alentejo, que na sua larga maioria dele não abriram mão.

A ideia simbólica de ‘’cultura popular’’ assim como  a constituição da ideia de ‘’classe trabalhadora’’ que, embora dependentes do desenvolvimento e das decisões atribuídos pelas estruturas sociais (o Estado, as ideologias) , se reivindicaram ao longo do seu processo de estruturações próprias e surgidas pela necessidade de afirmação de uma condição de classe social longe da classe dominante, percorreram o modo de estar e até a afirmação de discursos sobre ‘’cultura popular’’. que surgiram neste contexto social e regional com estas características. Discursos sobre identidades  e território pouco permeáveis, algumas vezes, às ideias de progresso e de trocas culturais patentes hoje nas sociedades.

Por outro lado, ao desenvolvimento de ferramentas tecnológicas e da própria música popular no contexto urbano alia-se o crescimento do interesse de alguns músicos profissionais, nesse contexto de indústria, por algumas das manifestações de cariz tradicional.

 

A Sessão que preparei para dia 22 de Março no Museu da Música tem presente duas realidades que nem sempre coexistiram ao longo das mudanças patenteadas nos seus processos de origem e recriação.  Por um lado, o discurso e incentivo à dinamização de práticas musicais e culturais no Alentejo, nomeadamente no Baixo Alentejo, desde o litoral até à raia (os corais polifónicos, a dinamização da viola campaniça no âmbito dos tradicionais despiques, rodas ou animação de balhos ou acompanhamento de grupos corais) identificativos da região, por outro lado a adaptação das estruturas melódicas e harmónicas do cante alentejano  na Música Popular, com o propósito principal da valorização da sua riqueza musical e sonora intrínsecas.

De um lado, José Colaço Guerreiro um apaixonado pelo Alentejo, de onde é natural, e que tem contribuído para o incentivo, promoção e divulgação de práticas como as referidas anteriormente, do outro lado um intérprete com anos de experiência no seio da Música Popular que tem resgatado, entre outras, algumas das características do cante introduzindo-as na música que faz e veicula num contexto de indústria: fonográfica, de espectáculo e media.

José Francisco Colaço Guerreiro é um apaixonado pela região de onde é oriundo e um defensor activo de algumas das suas expressões culturais e musicais, autodidacta criou os seus métodos e dinâmicas no que concerne à defesa do Património Cultural da sua região, dedicando-se sobretudo à sua divulgação junto dos meios de comunicação. Advogado de formação, do seu currículo fazem parte o "Grupo de Estudo e Defesa do Ambiente, Cultura e Arte do concelho de Castro Verde", "Castra Castrorum"- Associação de Defesa do Património de Castro Verde que criou em 1981, a constituição do Grupo Coral e Etnográfico "As Camponesas" de Castro Verde em 1984, a criação da escola do cante alentejano: Grupo Coral e Etnográfico Infantil "Os Carapinhas de Castro Verde" no ano de 1987, além de ter integrado a Comissão Executiva da Federação das Associações de Defesa do Património (FADEPA), ser responsável e apresentador do programa “Património” da Rádio Castrense desde 1989, de ter em 1990 organizado o Grupo Coral e Etnográfico "Moda Campaniça" ou em 1992  criado o Grupo das "Violas Campaniças". Foi colaborador dos jornais "Diário do Alentejo ", "Campaniço" e "Campo", mentor e coordenador do Observatório do Cante Alentejano (ainda hoje). Entre outros foi ainda  fundador e Presidente da Direcção da MODA- Associação do Cante Alentejano e é Presidente da  Assembleia Geral da MODA - Associação do Cante Alentejano.

 

Janita Salomé é um intérprete reconhecido pertencente a uma família de outros músicos reconhecidos na Música Popular que foi feita em Portugal nos últimos 40 anos. Começou a cantar com 9 anos, incentivado pela família - especialmente pelo pai, também cantor (tarefa que acumulava com a actividade de ourives) tendo depois dos 16 anos integrado algumas orquestras (assim se chamavam ao conjunto de músicos - com instrumentos diversos, como em exemplo: contrabaixo ou piano que o formavam, todos da família de Janita: tios maternos e os irmãos mais velhos), mas foi aos 18 anos que Janita salomé saiu do Alentejo para Lisboa (onde trabalhou primeiramente como funcionário judicial).

Na recolha de entrevista que deu no ano de 2013 para o Arquivo Mural Sonoro explicou alguns dos motivos/motivações que fizeram, até hoje, parte do seu percurso na música, do que mudou, de algumas considerações que dizem respeito, entre outros domínios musicais, às 'músicas tradicionais' e às manifestações de tradição oral, mas também das principais diferenças de comportamento dos músicos que já contam com alguns anos de caminhada, das fragilidades patentes nos círculos de difusão, indústria fonográfica e de promoção (O disco do projecto Vozes do Sul, dirigido por Janita Salomé, com a intenção de celebrar o 'cante alentejano', foi editado em 2000. No disco participaram: Os Camponeses de Pias, As Camponesas de Castro Verde, Grupo da Casa do Povo de Serpa, Cantadores do Redondo, Filipa Pais, Bárbara Lagido e Catarina, Marta, Patrícia, Janita e Vitorino por parte da família Salomé.

  

*Soraia Simões, Autora Mural Sonoro





Informação Museu da Música: A Sessão do mês de Março no Museu tem como tema: Cante alentejano: a adaptação na música popular, o discurso sobre as identidades e o território


Sessão de Março Mural Sonoro no Museu da Música 
Intervenientes: Janita Salomé José Francisco Colaço 
Pesquisa, Som, Moderação da Sessão : Soraia Simões

Fotografias: Helena Silva

Mais detalhes relativos à Sessão 

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