93ª Recolha de Entrevista

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BI: António Parreira nasceu no ano de 1944 em Monte das Taipas, concelho de Grândola. É um dos guitarristas mais consolidados no Fado e professor no Museu do Fado. Pai de dois guitarristas, a quem passou, cumprindo os desígnios de transmissão oral a que estão associadas as práticas musicais no domínio da cultura tradicional, o gosto pelo instrumento e pelo Fado: Paulo Parreira e Ricardo Parreira. Ambos guitarristas profissionais.

Conta nesta recolha como desperta o interesse pela prática deste instrumento musical. Primeiramente influenciado pelo tio, tinha apenas 11 anos de idade, através do único tema que o mesmo tocava com regularidade,"Fado Corrido no 5º ponto", que António consegue identificar mais tarde como o do tom 'Sol Maior', a partir do qual aprende as outras tonalidades, explica ainda o modo como a rádio, sobretudo os programas da Emissora Nacional e a forma de tocar de José Nunes, o influenciaram igualmente e como se inicia muito jovem, ainda no Alentejo e de modo amadorístico, tocando nas chamadas “tascas” situadas nas várias aldeias vizinhas. Reflecte ainda sobre outras referências, como o guitarrista Alcino Frazão e o fadista Manuel de Almeida (falecido em 3 de Dezembro de 1995), que António Parreira acompanhou, em espectáculos e gravações, durante os seus últimos 19 anos de vida, sem esquecer nesta conversa o modo como se relaciona com os seus actuais alunos, uma vez que desde 2001 integra o corpo docente da Escola de Guitarra do Museu do Fado em Alfama, bem como o papel da mulher na execução da guitarra portuguesa e de outros domínios musicais, fora do universo do Fado, nos quais a guitarra está presente.

Cedo começa a receber convites para tocar. Primeiro acompanhado por violistas da região, dos quais destaca Luís Duarte, Joaquim do Moinho da Cruz e Carlos Carvalho, depois, aos 14/15 anos, na Tasca do Faúlha de que era  proprietário Jorge Chaínho, pai de António Chaínho, ambos guitarristas. Inicia-se na viola, acompanhando o guitarrista em pequenas actuações por mais de 3 anos, especialmente pelo facto de  António Chaínho não ter à altura, para António Parreira, um violista para o acompanhar e verem em António Parreira «uma pessoa com jeito para tocar a viola de fado». 

No ano de 1965, já recuperado de uma doença renal que o obrigou a distanciar-se da prática regular ao vivo deste instrumento entre os 17 e os 19 anos, António Parreira ingressa no serviço militar e posteriormente segue-se  uma permanência em Moçambique. É neste período que reacende o seu gosto, estudo e dedicação exclusivos à guitarra portuguesa. Actuou em diversos espectáculos, com destaque para os que tiveram lugar no Malawi, ex Rodésia, África do Sul, Angola e Moçambique, sempre acompanhado pelo violista Francisco Gonçalves, seu camarada da tropa e parceiro de música, desde essa fase, ao longo de cerca de 33 anos (1965-1998) como reforça na conversa.

A profissionalização efectiva como guitarrista dar-se-ia no momento em que Augusto Damásio, um amante da guitarra portuguesa, apresenta António Parreira ao proprietário da casa de fado Guitarra da Madragoa. Estreou-se como guitarrista profissional em 9 de Maio de 1969.

Nos anos de 1970 o guitarrista integraria o elenco do restaurante típico Guitarra de Alfama, ao que se seguem a Taverna d´ El Rei, Fragata Real, Abril em Portugal, Parreirinha de Alfama, Luso, Arreda e Forte Dom Rodrigo, estes últimos situados na zona de Cascais, e na época propriedade do fadista Rodrigo. É a acompanhar Rodrigo à guitarra que António Parreira se desloca  quer em espectáculos nacionais como  internacionais, com destaque para as apresentações na Rádio Televisão Espanhola, no programa "Festival" da TV Globo, “Festival das Nações” em Joanesburgo e em actuação durante três semanas no Casino de Monte Carlo.

Em 1973 edita o seu primeiro fonograma a solo, "Guitarras de Portugal", acompanhado à viola pelo companheiro de longa data Francisco Gonçalves. Deste registo destaca-se o arranjo musical de temas como “Milho Verde” e “Variações sobre o Fado Lopes”. 

Entre 1976-1980 António Parreira complementa a sua aprendizagem e frequenta aulas particulares com o Prof. alemão Zieg Fried Zugg, aprendendo a ler e a escrever música.

António Parreira acompanharia, além de Alfredo Marceneiro, o fadista António Mourão em espectáculos no Japão, Austrália, Macau, Nova Zelândia, toda a Europa ocidental, Estados Unidos da América, Canadá, Venezuela, Colômbia, Brasil, Argentina, Uruguai, países de África, nomeadamente a África do Sul entre outros países.

Em 1977 acompanha Amália Rodrigues que actuou durante duas semanas no Hotel Melia Castilla. Em 1978 surge um novo convite, desta vez para uma actuação com a fadista na cidade de Paris.


Actuou no espectáculo que teve lugar no “Festival da Cruz Vermelha”, em Nova Iorque, e que contou com a presença do então Presidente dos Estados Unidos da América Jimmy Carter. Ao lado de Rão Kyão no “Festival das Nações” na Coreia do Norte.


Entre os vários trabalhos fonográficos em que participou, António Parreira destaca recorrentemente em entrevistas "Saudade", com a intérprete japonesa Saki Kubota, e que contou com as presenças dos músicos António Chaínho, Martinho D`Assunção e Pedro Nóbrega.


No ano de 1989 gravaria com  Amália Rodrigues um espectáculo para a televisão espanhola, inserido num programa apresentado por Sara Montiel. Neste período colaborou frequentemente com a cantora Tonicha. Em 1992 actuaria a solo, durante cerca de três semanas, no Hotel Oton Palace (Rio de Janeiro). 



Em 1999 inicia uma recolha de 120 fados clássicos, com transcrição pelo Maestro Jorge Machado, "Notas de Música", para a edição da Ediclube “Um Século de Fado”. No ano de 2014 foi  publicado O Livro dos Fados – 180 Fados Tradicionais em Partituras, da sua autoria.

Resultado de anos de estudo e dedicação, esta obra, editada pelo Museu do Fado, reúne 180 fados tradicionais seleccionados e transcritos para partitura por si.  O musicólogo Rui Vieira Nery refere no prefácio: O Livro dos Fados, que agora nos oferece, leva ainda mais longe o contributo de António Parreira para o nosso conhecimento alargado do repertório fadista. (..) Fadistas e guitarristas, investigadores e estudiosos, profissionais e amadores poderão encontrar aqui um repositório cuidadosamente seleccionado daquilo a que poderíamos chamar “O Grande Cancioneiro do Fado”. (…) Era um trabalho essencial que estava por fazer e que não podia ter ficado confiado a melhores mãos.

Compôs variadíssimas músicas para Fados, entre as quais, "Recado'', "Fado Marina", "Ribeira Nova", "Versos do Povo", "RR Mexilhão", "Fado Inês", "Gotas de Tristeza", "Isto de ser Poeta", "Contos e Contas", "Senhor Marquês de Pombal", "Ser Português", "Zé Guitarrista", ''Violeta do Chiado"  ou Para Não ver a Realidade". 


No ano de 2007 no Teatro de S. Luiz, Mestre Parreira foi distinguido pela Casa da Imprensa com o “Prémio Carreira”. 


A 22 de Outubro de 2008 recebeu a Medalha de “Mérito Municipal” entregue pelo Concelho de Grândola.

Som, Pesquisa, Texto: Soraia Simões

Fotografias: Helena Silva

Recolha efectuada em Museu do Fado

Tema executado e captado em tempo real: «Balada ao Monte das Taipas»