89ª Recolha de Entrevista

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BI: Paulo Jorge Morais, conhecido por Makkas nome pelo qual se faz representar na cultura hip-hop [1] há cerca de vinte anos, nasceu no ano de 1976 em Angola, mas foi em Miratejo que cresceu como autor e um dos protagonistas da Música Popular no domínio do rap.

Nesta recolha de entrevista, realizada em Setembro de 2014, da qual se disponibiliza no acervo online uma parte, servindo as restantes horas como material de trabalho de um trabalho conjunto[2], expressa algumas das aspirações que estavam no início da prática em Portugal, das diferenças entre grupos que emergiram no cenário da cultura popular dos anos de 1990, no Porto e em Lisboa sobretudo, e do modo como se relacionavam e defendiam as suas idiossincrasias, nas questões territoriais e sociais que acompanhavam as suas vivências e histórias, do papel dos meios de difusão no processo de apreensão da música e do discurso que envolvia o hip-hop no início da sua recepção em Portugal, destacando na conversa, entre outros, o programa Mercado Negro na Rádio Comercial da autoria do radialista João Vaz, etc.

Makkas já estava ligado, a partir da Moita, ao universo hip-hop, mas foi quando integrou o grupo Black Company que a visibilidade como autor e compositor neste universo se efectiva de modo apreensível. O grupo, criado na década de 1980, seria composto pelos rappers Bantú (agora Gutto), Bambino e Makkas (que o integraria no ano de 1988) e incluía anteriormente os Dj´s KJB e Soon.

Vários rappers residentes nas áreas periféricas da cidade de Lisboa, como General D e Ivan Cristiano ( Beat boxer, que curiosamente integraria mais tarde o grupo de Almada UHF, com a função de baterista) passaram por Black Company.

Na colectânea Rapública, editada em 1994,  seria integrado o tema ''Nadar'', um tema que surgira espontaneamente e que seria o primeiro tema em português do grupo, marcando também a opção do grupo passar a escrever e compor em português.
De ressalvar que nesta colectânea também participariam  Boss AC, LNM (Líderes da Nova Mensagem) entre outros. 

O grupo teria um impacto importante também no movimento estudantil dos anos de 1990, da frase ''Geração Rasca'', que originaria um fonograma, ao ''Filhos da Rua'' (título de outro fonograma. Este para muitos amantes do género tido como um marco na história deste domínio em Portugal) servindo de referência em alguns processos de legitimação, tanto do ponto de vista político como social.

O álbum  "Geração Rasca",  de 1995, bem como "Filhos da Rua", de 1998, potenciaram o reconhecimento do grupo no panorama nacional, tornando os seus integrantes objectos de impacto e interesse sociológico para autores e investigadores, bem como numa espécie de ''porta vozes'' das várias comunidades em que se inseriam. A participação em "Racismo Não", editado pela AMI (Assistência Médica Internacional), é disso exemplo. 

Actuaram em Cannes, no festival MIDEM, na noite Atlântica, no Brasil, entre outros.

A 8 de Setembro de 2008 seria lançado Fora de Série, um fonograma com dezasseis temas, do qual faz parte o  single  "Só Malucos", um tema que reafirma o cariz intervencionista do grupo junto dos menos atentos. Cariz esse durante muito tempo invisível, devido à forte difusão e aceitação de ''Não Sabe Nadar'' que tornaria, para a maioria da recepção e dos mais críticos relativamente ao seu papel de comprometimento com as realidades circundantes, no domínio do hip-hop pouco claro.

À data em que esta recolha foi efectuada Makkas encontrava-se em estúdio na finalização do seu mais recente fonograma, de nome ''Rotina'', pertencente ao seu actual grupo The Raw Sample Project.

© 2014 Makkas (Paulo Jorge Morais) à conversa com Soraia Simões, Perspectivas e Reflexões no Campo

Som, Pesquisa, Texto: Soraia Simões

Fotografias: Helena Silva

Recolha para Mural Sonoro efectuada em LARGO Residências

Recolha e pesquisa para livro efectuada em Miratejo

 

[1] A designação cultura hip hop é aqui usada no sentido antropológico de cultura (o som,  as músicas e a sua utilização para beats, samplers, a performance/a dança, etcde matriz urbana com características singulares, os seus processos de produção, recepção e os seus agentes. 

[2] RAPortugal 1986 - 1999, projecto financiado pela DGArtes, 2016.

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