RAProduções de memória: 1990-1997, percursos da invisibilidade. As primeiras mulheres no RAP feito em Portugal (afirmação e resistência)

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RAProduções de memória: 1990-1997, percursos da invisibilidade. As primeiras mulheres no RAP feito em Portugal (afirmação e resistência)

Publicado originalmente na Edição de Setembro de 2017 do Le Monde Diplomatique

Cultura

1990-1997, percursos da invisibilidade. As mulheres no RAP: afirmação e resistência, por Soraia Simões

 

Entre 1990 e 1997, houve em Portugal experiências importantes, mas muito desconhecidas, de RAP feito por mulheres. A par de temas comuns ao RAP feito por homens, as suas composições abordavam realidades quotidianas como o sexismo e a violência doméstica. Terão as criações destas mulheres, na sua maioria descendentes de imigrantes africanos, sido vítimas da mesma invisibilização de género que caracteriza outros campos?

Abram espaço que eu estou a chegar

Abram espaço que agora vou rimar

Abram espaço que agora vou falar

Abram espaço

Abram espaço…

(Djamal, Abram Espaço, BMG, 1997)

Pouco depois das suas primeiras aparições na rua, na segunda metade da década de 1980[1], a prática do RAP[2] em Portugal foi assimilando e exibindo uma grande heterogeneidade de tipologias sonoras e de recursos musicais, que se afirmou com a criação dos seus próprios estilos diferenciados, ao mesmo tempo que prevaleceu, nestes primeiros anos – e acerca deles –, uma narrativa que o apontava como um campo de produção cultural marcado especialmente por populações jovens e de género maioritariamente masculino. Mesmo existindo mulheres que participaram desde o seu começo como MC (Mestre de Cerimónias) ou flygirls – nos concertos ou noutro tipo de eventos locais realizados durante esta fase –, e sendo este o período em que pela primeira vez, de um modo explícito, temas como a igualdade de género e o sexismo ganhavam aqui território e amplificação nos media, primeiro a partir da presença do grupo Djamal no panorama discográfico nacional e depois pela actuação do grupo Divine, que voltaria a dar destaque a este assunto.

 

(…) Diz-me porque motivos

Queres então esses ouvidos

Se não os vais usar

É um desperdício

Limpar a tua mente

É esse o meu ofício

X-Sista sou a voz da consciência

(Djamal, Abram Espaço, BMG, 1997)

Quem fizer uma pesquisa num motor de busca on-line (a principal ferramenta das comunidades jovens), numa enciclopédia (reduto de curiosos, coleccionadores, biógrafos ou amantes do género) ou em repositórios científicos que demonstram a profusão ensaística e de publicações académicas neste âmbito, utilizando as palavras-chave «rap», «cultura hip-hop», «hip-hop celebridades», «protagonistas hip-hop», «protagonistas rap», «rappers emergentes», «êxitos RAP e Hip-Hop», «RAP nos EUA» ou «RAP no UK» terá uma dificuldade enorme em encontrar nomes no feminino. Eles são quase inexistentes; não aparecem sequer nas primeiras listagens. Se a mesma pesquisa for realizada acrescentando à busca «Brasil» ou «Portugal» o mesmo sucede.

Quando realizava o trabalho de campo sobre este tema – recentemente publicado num audiolivro[3] –, procurei no omisso indagar porquês; na secundarização que fui sentindo acerca da dimensão e do papel das mulheres (nascidas durante a década de 70) neste quadro histórico procurei perceber, igualmente, a razão desta descontinuidade histórica, que faz com que, para muitos(as), a experiência de fazer RAP ou ser parte integrante de uma «cultura» (o «hip-hop»), assim entendida pelos seus sujeitos, no feminino se inicie com Capicua (rapper do Porto nascida em 1982, que inicia a sua produção discográfica em 2006). No século XXI, portanto. Quando, afinal, já reunira durante este trabalho registos vários da segunda metade do século XX (entre 1988 e 1997) com mulheres como MC, rappers, flygirls em escolas secundárias com eles, no Cais do Sodré com eles, em viagens de comboio com eles, em encontros no Trópico Disco (espaço de sociabilização, festas, concertos durante a década de 90) com eles, no Bairro Alto com eles. Registos que se acumulam (fotográficos e em vídeo) durante o início da década de 90. Tendo dois dos grupos, inteiramente femininos, gravado em estúdio (Divine[4] em discos de Black Company – Filhos Da Rua, de 1995, e Geração Rasca, de 1997 –, e Djamal[5] em registo próprio – Abram Espaço, de 1997).

Feita há sete anos uma pesquisa anterior, ouvidos e reouvidos, em variadíssimos casos, todos os repertórios que enformaram este período em Portugal, percebi que o darwinismo social, o racismo, a dominação e a exclusão social foram temáticas que mereceram a atenção de grande parte da minha geração (à volta dos 40 anos), tendo sido (re)tratadas por sujeitos de ambos os sexos nesta prática cultural.

Por que motivo foi vedado reconhecimento público, com importância semelhante no pioneirismo, às primeiras mulheres a fazer RAP em Portugal, na sua maioria descendentes de imigrantes africanos, cujos repertórios versavam tópicos idênticos aos dos homens, mas também o sexismo, a violência doméstica, a diminuição da sua presença num território marcado pela masculinidade e objectificação da mulher?

anexo 1, anexo 2

O que não se responde tem, em casos particulares como este, mais força que aquilo que se diz. Ouvindo a história oral que o referido audiolivro regista[6], através da transmissão das memórias de X-Sista, Jumping e Sweetalk (Djamal), e lendo as de ZJ-Zuka (Divine), esse desconforto é tão presente quanto a vontade de falar. Fazendo parte da mesma geração destas mulheres, junto a um sentimento de reconhecimento a vontade de dialogar, de perceber e de enquadrar essas memórias num campo de percepção e intervenção maior.

«Discutíamos assuntos que nos tocavam e que possivelmente tocavam outros jovens na altura, tínhamos um tema que era o nosso preferido intitulado “A vida é Cabra”, falava de jovens que tinham sexo desprotegido e sem pensar nas consequências. Mais tarde davam conta que estavam infectados com SIDA. Falávamos também de situações que nos eram próximas, como as da pobreza e da discriminação. Vivíamos em lares, os nossos pais eram ausentes e as nossas mães passavam pouco tempo em casa porque precisavam de trabalhar para nos sustentar. Consequentemente, quando nós escrevíamos sobre o gueto, estávamos a falar das nossas experiências, de viver com pouco para comer e ver as nossas mães a lutarem sozinhas contra imagens de sexismo e discriminação racial para nos pôr comida na mesa e roupa no corpo todos os dias» (ZJ-Zuka, Divine).

 

«Eu acho que todas nós, depois de Djamal, passámos por momentos muito complicados. Já soube que a Tânia (Jumping) passou por uma depressão. Eu passei por um momento de raiva e cortei com tudo. Desliguei-me e virei costas ao hip-hop, mas depois eu e a Xana (X-Sista) tirámos um curso de jovens empresárias culturais. Foi o melhor emprego da minha vida porque aprendi e cresci muito. Fui parar à Praça das Flores onde trabalhei com o Paulo Pulido Valente, Joana Arouca, Vitorino, Sérgio Godinho e Tito Paris. Vi coisas que nós miúdas no mundo da música não sabíamos, como os contratos e quanto ganhávamos (…). Encontrei o Reiki a meio do percurso de produção de eventos. (…) Meti-me no curso de Medicina Tradicional Chinesa e a meio faço massagem ayurvédica. Nunca mais parei» (Sweetalk, Djamal).

Quando há cerca de meia dúzia de anos comecei a gravar e entrevistar rappers, junto a outros protagonistas da Música Popular do século XX, focando assuntos transversais a toda a música que foi produzida em Portugal no portal Mural Sonoro, recuperei a leitura do sociólogo Pierre Bourdieu. Isso permitiu-me relembrar a importância das concepções «invisíveis» que chegam até nós, seres sociais, e levam à formação de «esquemas de pensamentos impensados», isto é, quando acreditamos ter a liberdade de pensar alguma coisa, sem levar em conta que esse «pensamento livre» está marcado por preconceitos, interesses e opiniões alheias. Ora uma relação desigual de poder suporta uma aceitação dos grupos dominados, não sendo necessariamente uma aceitação consciente e ponderada, mas uma submissão pré-reflexiva.

Afinal, foi assim para muitas mulheres da minha geração. Quando Lauryn Hill aflorava em «Doop Wop» a coisificação de que se é alvo sendo-se mulher num meio cultural de homens, de violência doméstica, de relacionamentos abusivos (1998) grande parte da minha geração de mulheres enaltecia a presença de Kanye West em «What You Do to Me» de Infamous Syndicate um ano depois (1999). Foi assim quando Dina Di, a primeira brasileira, oriunda de Campinas, a ter sucesso no RAP, cujo percurso começara em 1989, só em 2003 atingiu um reconhecimento maior com o CD A Noiva de Chuck. Ou quando Karol Conka, que com 16 anos ganhara um «concurso de RAP» na sua escola, incidia sobre a sociedade tradicional brasileira, grande parte da minha geração de mulheres enaltecia a presença de Gabriel O Pensador e a sua forte influência neste panorama cultural em Portugal. Foi assim quando M.I.A, inglesa, filha de um activista político, que viveu no Sri Lanka e depois da guerra civil volta com a família para Londres, a cidade onde nasceu, e é recebida como refugiada, fez «Born free» ou «Borders» – onde falou sobre refugiados e empoderamento feminino –, e grande parte da minha geração de mulheres vaticinava o tão aguardado regresso de Public Enemy.

«O RAP ajudou-me a expressar frustrações, tristezas e felicidades, possivelmente a inspirar outros e outras, jovens filhos e filhas de imigrantes como nós, para seguir os seus sonhos, fossem eles quais fossem» (ZJ-Zuka, Divine).

A Música Popular não se desliga das determinações históricas e dos contextos sociais em que emerge, estando isso grosso modo explícito no conteúdo literário destas canções e nos discursos dos seus principais sujeitos na comunicação social logo a partir do início da década de 90. Mas talvez falte aos movimentos culturais o mesmo que às lutas individuais que não se revêem em movimento algum: transdisciplinaridade. Para se perceber que as primazias que incitam os longos processos de segregação e discriminação também estão, sempre estiveram, presentes nos grupos culturais, que vão beber ao mesmo rio dos abusos, da intolerância, do estigma, da cegueira moral e até da superstição, e que as formas de resistência de cada grupo cultural estão sossegadas nas suas narrativas próprias, dificultando a intersecção. Ora, só quando as conhecemos podemos denotar a pouca permeabilidade a quem pensa diferente, a opressão e o silenciamento induzidos internamente.

Tratando de feridas sociais, há ou não espaço para as tratar todas em igual medida? É uma questão de proporção, de tempo de actuação? Não é. De insipiência sonora e musical, no caso português, porque estavam a começar? Todos(as) a tinham. O espaço que o grupo feminino Djamal reivindicou não foi aberto; foi descoberto, no século XXI, na sua intenção primeira: a de fazer RAP abordando aquilo que eram as suas realidades quotidianas.

«O RAP não pode ser girl power e chega de abuso. Quer dizer, tem de haver uma evolução e o que é interessante é que nós com 18 ou 20 anos tínhamos um discurso de uma mulher de 40. Ainda hoje a minha mãe e as amigas dela dizem que nunca mais ouviram ninguém a dizer aquelas coisas» (Sweetalk, Djamal).

Segundo Pierre Bordieu, «o corpo biológico socialmente modelado» seria «um corpo politizado, ou se preferimos, uma política incorporada. Os princípios fundamentais da visão androcêntrica do mundo são naturalizados sob a forma de posições e disposições elementares do corpo que são percebidas como expressões naturais de tendências naturais»[7]. A visão do mundo cultural determinada a partir do ponto de vista masculino[8] pressupõe, afinal, que ninguém se atreva a questionar o carácter «natural» do feminino e do masculino.

Em O Rap é uma Arma (Kiluanje Liberdade, documentário de 1996) revê-se, através da fala de gerações do RAP sucedâneas à primeira a gravar em Portugal, uma censura relativamente ao contínuo descomprometimento com as realidades sociais por parte dos que iniciaram a gravação (RAPública, Sony Music, 1994) e se aproximariam da indústria cultural nos anos seguintes, «perdendo um discurso actuante» ou «vendendo-se», segundo alguns dos intervenientes no filme. Porém, não há em momento algum nesse documentário uma referência acerca dos papéis assumidos pelas primeiras mulheres a fazer RAP em Portugal e acerca da importância e actualidade dos assuntos que as mesmas levantaram num palco, o da cidade de Lisboa, em profunda transformação, sob o ponto de vista cultural (ideias, comportamentos, rituais) e social (económico, identitário, territorial).

 

(…) Eu quero sair lá do Gueto

Preciso…sair lá do Gueto

(…) O problema não é exclusivo duma raça

(Divine com Black Company, Faixa 7, «Ghetto», Geração Rasca, 1995)

 

No início da década de 90, Lisboa foi incitada a reformular o seu papel crítico sobre questões como a experiência transatlântica, a esfera socioeconómica, a educação e demais tópicos que marcariam a existência diária destas comunidades de prática artística, os quais, por via da sua expressão na indústria cultural e, por conseguinte, na cidade e na sociedade, passaram a ser parte integrante de decisões organizacionais e de tratamentos discursivos. A capital passou a colocar na ordem do dia assuntos como a exclusão social, o racismo, a despenalização do aborto ou a legalização das drogas leves, ao mesmo tempo que começou a estar receptiva a linguagens sonoras e musicais novas, que reflectiam esses temas.

Disso foram exemplo os vários espaços de encontro cultural, sociabilização e discussão que se oficializaram: a Associação Olho Vivo (1988 até ao presente), a Associação SOS Racismo (1990 até ao presente), o Johnny Guitar (1990-1996), o Trópico Disco (1991-1993), a Associação Abraço (1992 até ao presente), o Pavilhão Carlos Lopes (1984-1993), o espaço B.Leza (1995-2007; reabre em 2012 até ao presente) ou a Fábrica da Pólvora (1995 até ao presente).

O Rap é uma Arma, mas deverá também assumir-se como uma resposta ao passado e presente do seu modus vivendi, se quiser enriquecer-se por diálogo interseccional (que não o destitui em nada daquilo que é a forma como cresce e se desenvolve a sua história), se quiser evoluir para além da evolução da sua maquinaria, dos beats ou dos modos de produção e recepção. Há perguntas que carecem de respostas, plurais, consistentes e, sobretudo, emancipatórias. Indagar silêncios e escolhas que ocorrem neste campo implicará uma imersão feita para dentro, e não só de dentro, destes grupos sociais e culturais. Tal obrigará a uma reconstituição de actos, reflexões, retóricas acomodadas, e isso é duro. Requer ir ao âmago de condutas tidas como normalizadoras, inquestionáveis; implica, algumas vezes, passar pelo desafio da auto-desautorização. Haverá outra forma de se reinventar, indo mais além?

Referências
[1] Soraia Simões, «RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada: 1986-1996», Memória, Sociedade, História Oral e Cultural Popular, Editora Caleidoscópio, Lisboa, 2017, p.15.
[2]
RAP – assumo ao longo dos trabalhos que tenho publicado acerca deste domínio a designação RAP em maiúsculas, e não em minúsculas e itálico, para demonstrar o domínio num plano central das mudanças de comportamentos e linguagens verificadas num determinado contexto histórico, e não num plano secundário ou complementar. Ou seja, onde as medidas e mudanças que se verificaram socialmente não diminuam ou tornem secundária, como habitualmente sucede,  a dimensão social ou o papel ideológico desta prática cultural e artística, a partir da qual elas acontecem durante este primeiro período em Portugal.
[3] O audiolivro inclui as entrevistas efectuadas. Cf. QR-Code (soundcloud), Editora Caleidoscópio, 2017.
[4] O grupo Divine era formado por Carla Cruz (Big Mama), Cheila Mateus (Miss Slowly), Sandra Johnston Da Cruz, Ana Sofia Sanches (Dana Dane), Maria João Sanches (Shorty), Zulaia Johnston Da Cruz (ZJ-Zuka). Idilza Santos (Breakdancer) e Etelvina Santos (Da Bomb) integram mais tarde o grupo, em 1998.
[5] Djamal, grupo inteiramente feminino formado por X-Sista (Alexandrina Matos), Jumping (Tânia), Sweetalk ( Ângela Rebelo) e Jeremy; tempo de actividade: 1990-1999. Excerto de entrevista: QR-Code (soundcloud), Editora Caleidoscópio, 2017, p. 61.
[6] Soraia Simões, Ibid., p. 61: QR-Code (soundcloud), Editora Caleidoscópio, 2017.
[7] Pierre Bourdieu, A Dominação Masculina, Relógio d’Água, Lisboa, p. 156.
[8] Charliton José dos Santos Machado, Idalina Maria Freitas Lima Santiago e Maria Lúcia da Silva Nunes (org.), Gêneros e práticas culturais: desafios históricos e saberes interdisciplinares, Campina Grande, EDUEPB, 2010 (online).

Fotografias

fotografia de capa: Soraia Simões, 27/12/2014, Coimbra.

anexo1: X-Sista e Jumping com Soraia Simões.

anexo 2: fotografia cedida por Jumping para audiolivro (Djamal com Margarida Pinto Correia, 1997).

anexo 3: Swetalk (Djamal), anexo 4: ZJ-Zuka (Divine), anexo 5: Dana Dane (Divine).

 

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COLÓQUIO INTERNACIONAL, MAPUTO (7-9-12 de Novembro)

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COLÓQUIO INTERNACIONAL, MAPUTO (7-9-12 de Novembro)

Parte da comunicação de Soraia Simões em áudio no âmbito do Colóquio Reinventar o discurso e o palco: o RAP entre saberes locais e olhares globais organizado pela Bloco4 Foundation na cidade de Maputo no passado dia 9 de Novembro. Inclui algumas fotografias do trabalho de campo entre 2012 e 2016 e temas de alguns dos grupos referenciados, creditados no vídeo:

temas-chave: a emergência do RAP em Portugal, 1986 - 1998, as mulheres no RAP, relações de poder, identidades, teor social e performático dos repertórios

O Colóquio contou com as parcerias da Universidade Eduardo Mondlane, do Centro Cultural Brasil-Moçambique (onde decorreram as apresentações deste painel), o Mural Sonoro, a Rede Brasil Cultural, a Queen’s University Belfast e a Rádio Clássico HipHop Time.

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Dossier RAProduções de memória, cultura popular, sociedade: José Falcão, 13/03/2016

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Dossier RAProduções de memória, cultura popular, sociedade: José Falcão, 13/03/2016

Dossier RAProduções de memória, cultura popular, sociedade, por Soraia Simões

JOSÉ FALCÃO

Resumo

Estas recolhas de entrevistas são resultado de uma investigação que iniciei há sete anos no âmbito do Mural Sonoro, trabalho esse que se estendeu, entre 2015 e 2016, ao projecto RAPortugal 1986-1999 (projecto transdisciplinar que coordenei apoiado pela Direcção Geral das Artes durante um ano), grande parte deste trabalho foi publicado em Junho deste ano pela Editora Caleidoscópio no audiolivro que assino com o título: RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada: 1986 - 1996 e hoje faz parte, com outras fontes e bibliografia de enquadramento, da minha investigação académica e tese (no prelo).

Resumo

Os assuntos que orientaram (e orientam) este trabalho passam pelas temáticas da memória, da sociedade, da cultura popular, mas também --- sem querer/ter como objectivo delimitar a abordagem sobre a primeira geração do RAP feito em Portugal por via de um calendário político, dada a «natureza livre/independente» do género neste período ---, relacionando o tempo em que ele dá os primeiros passos no nosso país com acontecimentos como o (designado) cavaquismo, a imigração e a extrema-direita, os discursos do território e o das influências, o papel das primeiras mulheres a fazer RAP e as suas resistências num género que ainda se estava a afirmar, o sexismo, o racismo e as desigualdades económicas como almofada para o surgimento das primeiras RAPortagens de rua e líricas transferidas para as sebentas/cadernos diários que alguns/a me cederam, antes da chegada à indústria de gravação de discos. Há em vários momentos destas entrevistas um link com o presente, não nos esquecendo de que à ideia de transmissão de testemunhos e de memórias está ligado um processo/reconstrução a partir do presente, no qual as dinâmicas entre história da música, cultura, poder e sociedade silogizam entre um conjunto de discursos hegemónicos/«media» (que se alimentam da história e a história) e onde outros discursos, subalternos/invisíveis, não figuram nas equações argumentativas. Ora esses também alimentam, ou devem, a história.

Mais do que um dever, considero necessário transferir estas conversas e os assuntos que nelas levanto à sociedade, especialmente por não serem só entrevistas, mas um conjunto de memórias e de testemunhos que desde o início congregam por um lado, um conjunto de questionamentos que este trabalho tem levantado no seio da Música Popular: do seu impacto em determinados contextos históricos e sociais e por outro lado, porque a interpretação e análise verificada durante a intersecção dos vários diálogos estabelecidos nestes anos me foi remetendo para a existência factual de uma micro-história* que ao ganhar espaço na sociedade portuguesa da segunda metade da década de 1980 e princípios da de 1990 se foi lentamente inscrevendo, muito embora de modo invisível (algo que também procurarei, ao longo da partilha deste arquivo de campo, explicar) nos tópicos que levanto, em algumas das mais importantes transformações (do ponto de vista das ideias e dos comportamentos) na história das cultura e música populares neste último decanato do século passado e em última instância, por ser um domínio que continua a atingir as camadas mais jovens, a sociedade contemporânea tanto na sua diversidade cultural como nas suas afeições de ordem identitária e/ou hierárquica.

(c) Joseph da Silva. José Falcão com Soraia Simões 

(c) Joseph da Silva. José Falcão com Soraia Simões 

 

13 de Março de 2016
Nome: José Falcão
SOS Racismo
Recolha na sede da SOS Racismo


Soraia Simões: Decides criar a SOS Racismo em 1990. Porquê?
José Falcão: A seguir à morte do José Carvalho (1989) uma série de gente juntou-se para pensar o que fazer de forma a combater aquela onda de violência que começou, sobretudo, em 1986. Eles criaram-se a partir da claque da Juve Leo, em 1984. O pessoal quando foi da morte do Zé (José Carvalho, militante do PSR), já vinha a pensar nisto. Já tinha acontecido com o Oceano (Bar situado na avenida 24 de Julho de João Grosso, entre outros, onde foi agredido em Maio de 1989) ataques vários, já tinham ido à sede do PSR (a concertos de música, desde 1983, todos os fins de semana). Mas havia dois anos que já não estavam a aparecer, nunca mais puseram lá os pés porque da última vez tinham sido corridos. E depois foram lá naquele dia para matarem alguém. Por acaso foi o Zé. Podia ter sido eu, estava ao lado dele. Podia ser o Pedro Carraca (actor), que também lá estava. E a partir daí surgiu um debate sobre o que fazer para combater esta situação (referindo-se a sucessivos ataques de integrantes de grupos de extrema-direita). Não nos estávamos a ver, apesar de termos as direcções deles, a ir a casa e aos sítios deles para bater. Isso estava completamente fora de questão (da retaliação e da vingança). Tinha de haver uma discussão política séria na sociedade portuguesa, sobre o porquê daquilo estar a acontecer. E foi isso que a gente fez. E o que se pensou foi criar uma associação que, depois de várias conversas, se formou oficialmente. A gente diz que é o 10 de Dezembro de 1990, porque foi o primeiro acto público de aparecimento da SOS. A legalização só foi em 1993. Mas fizemos uma série de actividades. Nessas, o primeiro dia foi uma reunião com o Sindicato dos Jornalistas e com a Comissão Deontológica do Sindicato dos Jornalistas. Foi uma segunda-feira (dia 07) que culminou no concerto dia 10. Dia 14 acabou num concerto grande. Fizemos o concerto no Pavilhão Carlos Lopes. Apareceu, a partir disso, a reflexão do que fazer e de como responder. O que a gente viu é que tinha de ser uma discussão política. Começámos a fazer coisas; produzir materiais; recolher informação, fazer denúncias; chatear a imprensa porque os skins eram completamente impunes. Até à morte do José Carvalho, já um grosso ridículo de queixas. Fizemos duas brochuras sobre a extrema-direita. 
Soraia Simões: Começa com este episódio em concreto. Não era um episódio, aliás, eram vários. A canção começa a inscrever-se nessa dimensão. Poderá ser encarada também (a Associação SOS Racismo) uma plataforma para muitos miúdos e miúdas ligados à música que foram surgindo?
José Falcão: Era sobretudo um ponto de contacto. O pessoal estava na Cova da Moura, Pedreira dos Húngaros, etc, o Ermelindo (Quaresma) já tinha um grupo de RAP nessa altura (TWA). O SOS ainda não tinha sede (veio a ter um espaço em 1994). Estava numa casa emprestada, de vez em quando. As primeiras reuniões até foram no Moinho da Juventude (Associação Cultural Moinho da Juventude). Apareceu também um ano antes de nós. Já tinha espaço e íamos lá muitas vezes. 

Soraia Simões: Até é mais malta que cresce na margem sul que me referenciou ao longo destes anos de trabalho de campo a SOS como uma das plataformas. 
José Falcão: Sim sim. 

Soraia Simões: Mas em que sentido? 
José Falcão: É no sentido de contacto. De fazer coisas; estarem a ser convidados para coisas e participarem nos debates. 


Soraia Simões: Inclusive darem concertos. Gravar algumas vezes. 
José Falcão: Sim. Essa foi em 1999 (referindo-se à edição do fonograma Festa da Diversidade). Entretanto, já houve outro (registo discográfico editado pela Associação). 
Quando conheci o General D (1991), estou a ter a imagem dele a passear (pausa), foi porque ele veio ter com a SOS para o primeiro contacto como Sérgio (SIMÕES: 2017) [1].
Era sobrinho do pintor. Era nosso amigo e nós já nos dávamos há muito. Do pessoal do PSR, porque estes movimentos todos (quer o movimento gay, quer o movimento anti-racista) apareciam muito na sede do Bloco (Bloco de Esquerda) e das actividades culturais que havia lá. Agora é a sede do Bloco mas antes era do PSR. Os concertos eram dentro da sede. Depois havia coisas fora, quer os grupos rock, quer o pessoal que ia aparecendo. Nos anos 80 era, sobretudo, grupos rock. Mas depois houve essa substituição. Mais final de 80 e início de 90. O Sérgio (General D) veio ter connosco para fazermos qualquer coisa de comemoração de um aniversário do Malcolm X. Depois acabámos por não fazer isso mas ficámos juntos até agora. Tirando o espaço que ele desapareceu (entre 1999 e 2014 o rapper esteve fora de Portugal sem grande parte dos que o acompanharam saberem do seu paradeiro [2]). 

Soraia Simões: Foste tendo contacto com ele quando estava em Londres?
José Falcão: Não. Fui tendo contacto através de pessoas que me iam dizendo por onde ele andava a passear e à procura de trabalho. 

Soraia Simões: Todos diziam que ele tinha um discurso mais «afro-centrista». Verbalizava mais também, nas suas intervenções musicais/nas letras em concreto, o racismo e a exclusão social sobretudo. 
José Falcão: Sim. Mais coerente. Eles e depois aqueles que foram aparecendo depois disso. Algum pessoal, não tão famosos como o General D. Aliás, havia muita relação e contacto através disso. Da actividade que a SOS ia tendo e, como era lógico, essas pessoas estavam sempre a ser convidadas, e vice-versa. E as denúncias de violência iam aparecendo. 

Soraia Simões: As denúncias também apareciam neste conjunto de primeiros rappers** com quem falei? 
José Falcão: Apareciam em concertos onde as pessoas estavam. A malta ia sabendo. Havia uma coisa que não era propriamente uma coordenação. A SOS era a única associação anti-racista que existia. Hoje o panorama, infelizmente, não é muito grande. Era lógico que as pessoas, entretanto, iam sabendo que a SOS existia por causa dos debates nas escolas, foi publicando materiais e fazendo os dossiers para as pessoas estudarem e trabalharem. O RAP é Uma Arma (Documentário de Kiluanje Liberdade) aparece assim. Nessa altura, a primeira sede que tinha era naquela rua que vai da Praça de Londres à Alameda. 

Soraia Simões: Ao pé do Mexicana (café lisboeta).
José Falcão: Sim, exactamente. Essa sede era uma parte de cozinha de um sindicato. Nós fomos para aí em 1994/95. O RAP é uma Arma foi feito em 1995. A minha entrevista foi gravada nessa sede, porque aí havia vários colectivos que esse sindicato dos professores do ensino superior tinha. 

Soraia Simões: Nesta sede houve obras?
José Falcão: Tudo. Fomos nós todos. Muito dinheiro. O Vereador da Câmara (2012) que, entretanto, já não é foi ele que me lembrou que também estava sediado na sede do Sindicato. Nessa altura, havia muita coisa. A malta quando começou a ir aos bairros, fomos apanhando a parte cultural que não era do RAP mas que era do teatro. Ontem estive no Chapitô, na ante-estreia da peça. Estava lá o Joaquim Nicolau a falar dessa altura, anos 80 e 90.  

Soraia Simões: Depois o Joaquim Nicolau também se envolveu naquele filme do Leonel Vieira…
José Falcão: O Zona J? 

Soraia Simões: Sim. Acho que o Joaquim entra aí.
José Falcão: Sim. O Joaquim Nicolau está. Como estávamos na Comuna e o Bando (grupo de teatro) estava lá sediado havia peças particulares. Eu entrava muitas vezes com eles. Eles fizeram uma peça que se chamava “E o Zé que Zé?”. 

Soraia Simões: Lembro-me desse também. 
José Falcão: Foi o Carretas (José Carretas) que encenou. Foi esta gente toda que entrou. Os nossos amigos. 

Soraia Simões: Há uma série de coisas a acontecer na cidade de Lisboa. Cria-se a Associação SOS Racismo na primeira metade de 1990, Lisboa é capital da cultura em 1994, está  Jorge Sampaio na Câmara Municipal de Lisboa. A motivação poderá ter que ver com a criação desta e de outras organizações e com os problemas que levantavam, de certa forma «novos» (no apelo ao seu debate) para a cidade?
José Falcão: Os problemas eram os de sempre. A legalização, a discriminação racial e a extrema-direita. 

Soraia Simões: Mas começaram naquela altura a vir cá para fora, tanto nas práticas artísticas como estando patentes no discurso da autarquia. 
José Falcão: O Sampaio (Jorge Sampaio) tinha uma postura que não era a dos outros anteriores e posteriores. Apesar de serem amigos do partido. Mas o que estava a acontecer era os skins estarem completamente impunes.

Soraia Simões: E isso muda com os assassinatos de 1989 e 1995?

José Falcão: Começa aí com a abertura de inquéritos.

Soraia Simões: Estavas a dizer que não tinham subsídios. Na altura, vocês contavam com o quê além da vossa força de vontade?
José Falcão: Com a venda de material. No primeiro guia anti-racista fizemos 8 mil exemplares. Na altura, nem o Saramago andava a vender esses disparates. Agora toda a gente vende 100 mil e 200 mil. 
Soraia Simões: Onde é que vocês vendiam?
José Falcão: Na rua e nas bancas. Andava com ele (o saco) como nós agora andamos. Eu tenho no meu saco as agendas deste ano para vender.  

Soraia Simões: Não havia um sítio específico onde vender? Muitas escolas vendiam. Eu lembro-me de comprar alguns em escolas. 
José Falcão: Mas isso é porque a gente ia lá. A gente sempre que ia aos debates deixava lá. Foi como na música, tirando a tipografia e a aparelhagem de som, tudo o resto é à pala. 

Soraia Simões: Isto é, tudo pro bono?
José Falcão:
Tudo. E as pessoas sabem que isso é para ser vendido para a SOS. Como sabem perfeitamente, e como a relação sempre foi diária e quotidiana. Mas depois se eu não lhes chateio, eles dizem: “Então? Já não gostas de mim?”. A todos os níveis a malta tenta gerir o plantel. Tentamos fazer uma rotatividade para não estar sempre a chatear as mesmas pessoas. 

Soraia Simões: Porque não podem contar com recursos extra?
José Falcão: Não temos nenhum. Então, vamos chateando. 

Soraia Simões: Voltando aos anos 90, quando a SOS é criada, estávamos a falar de Jorge Sampaio (pausa). Tu não sentes que há pelo menos uma tentativa de incremento de algumas políticas reformadoras na CML face ao que estava a acontecer? 
José Falcão: Quando a SOS aparece as pessoas o que diziam era que não havia racismo se não fossemos nós. Nós é que inventámos o racismo. Ainda hoje, ainda há um parvalhão qualquer que diz esse disparate. Mas nessa altura era a política, não havia racismo. Nós somos um país de brandos costumes. Fizemos tudo e mais alguma coisa e tratámos muito bem toda a gente que vinha de África (e os que lá estavam). Durante estes 500 anos, tratámos sempre bem. A nossa história não contava que no Brasil também dávamos índios aos cães. 

Soraia Simões: Havia uma linguagem dominante…Mesmo quando Jorge Sampaio estava na Câmara de Lisboa?
José Falcão: Sim, claro. Quer dizer, esse discurso nessa altura que aparece o Cavaco (1985-1995) no poder e o Sampaio na Câmara, não houve (mudou) grande coisa. A onda de direita estava aí. Conservadora. E a violência policial imperava. 
Podia haver mais alguma coisa ou outra, mas não. Aliás, o Sampaio quando vai para Presidente da República portou-se muito mal em algumas coisas, como as leis de imigração (2000/2001). Quando ele foi eleito em 2001, houve uma lei que estava para ser assinada e que ele escondeu que ia promulgar. Todos os partidos de esquerda perguntam: “Como é que é? O que é que vai fazer à lei de imigração?” Ele já tinha promulgado e a seguir, depois da eleição, mandei vir com ele. 

Soraia Simões: Essa lei foi votada no ano de? 
José Falcão: Foi votada em 2002. E ele andava a esconder que ia promulgar. Se estava tão à vontade tinha dito: ‘'eu vou promulga-la'’. Mas não o disse. Podia ter mandado para trás. Estamos a falar de um governo de direita. Nesta altura era o Sr. Barroso. Tinha um presidente mas teve o Cavaco até 1995. O (António) Guterres entrou em 1995. Foi quando o Alcindo (Alcindo Monteiro) foi assassinado no Verão de 1995. E eu sou preso  três meses depois (Mercês), em Outubro, quando o Guterres ganha as eleições. O Dias Loureiro já tinha saído mas ainda estava em funções, porque tinha passado uma semana das eleições de 2005. A onda não variava muito. Havia uma ideologia, no discurso neo-colonialista e conservador, dos «brandos costumes».  

Soraia Simões: A maioria da malta que forma o SOS vinha do PSR. Consideravam-se uma organização apartidária? 
José Falcão: Uma das coisas que a SOS faz é mostrar que as pessoas por serem de partidos não estão com uma doença transmissível.

Soraia Simões: O que quero que me respondas é se achas, volvido este tempo, que as resistências que se criaram entre organizações, algumas que já existiam na cidade, tinham a ver com o espaço ideológico em que militavam, se isso se sobrepôs aos temas que defendiam e pelos quais lutavam e lutam.
José Falcão: Pelo contrário. Toda a gente que estava na SOS sabia que não tinha problemas em ser ateu; cristão; muçulmano; branco; amarelo; cigano; preto; Benfica; Sporting; PSR ou do PSD. Porque havia gente, inclusive destes partidos, que não eram. E sobretudo, eram gente independente. Não tinha nada a ver com os partidos. Era militante do PSR há muito tempo e já aparecia na imprensa por ser dirigente e um dos fundadores. Quando a SOS aparece eu continuo na mesma. Não sou como aquelas pessoas que dizem: “Eu vou tirar a minha camisola.” Não preciso de tirar camisolas nenhumas por estar na SOS. 

Soraia Simões: Ninguém, creio, é neutral Zé. 
José Falcão: Além dessa história, as pessoas só tiram camisolas porque não as têm assumidas. Senão não precisam de tirar.

Soraia Simões: E quando surge o ACIDI já depois destes anos, já agora (interrompe)…
José Falcão: Isso é mais tarde. Somos nós que fazemos essa lei. O ACIDI aparece em 1995/1996, com o Guterres. Eu desde essa altura que faço parte. A Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial aparece (2001) depois da lei que nós apresentámos no Parlamento em 1996. Vai sair um livro sobre o processo desta lei. Vai ter o Pedro Bacelar (Presidente da Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias); tem um texto do ex provedor (Nascimento Rodrigues); um texto de apresentação do actual provedor e depois trabalhos nossos. A lei não serve para nada. O paleio não tinha a ver com isso. O problema é que era mais de fundo. Havia, como há hoje, uma cultura racista e xenófoba na sociedade portuguesa. Existe e vê-se nos comentários das notícias que aparecem na imprensa, quer o arrastão; Vasco da Gama; os mitos; a CREL ou a Lídia Franco a precisar de emprego, etc. «Bandos horríveis que assaltavam na CREL». Dou-te um exemplo concreto: a CREL aconteceu no Verão, como estas coisas acontecem sempre quando a imprensa não tem notícias sobre o futebol ou as olimpíadas para vender, tem de haver qualquer coisa que entretenha. Este ano foram os refugiados. Infelizmente o problema não foi resolvido nessa altura e nem vai ser tão cedo. Mas nessa altura que as coisas apareciam e como nós fazemos arquivos de imprensa, vou-te dar um exemplo: em Março de 2000 ou 2001 houve três bombas de gasolina assaltadas no norte do país. Não apareceu nada a não ser dez linhas no Correio da Manhã. Três meses depois são duas bombas de gasolina assaltadas mais uma Lídia Franco, que inventou a tentativa de violação. Ainda hoje se fala do bando da CREL que assaltou as bombas de gasolina. Os do norte não eram pretos, como é evidente, e os da CREL eram pretos. Isso é um exemplo concreto. O arrastão foi outro. 

Soraia Simões: A lei da discriminação racial é inoperacional?
José Falcão: A lei discriminação racial de  não funciona. Mas existe uma lei. Isso é como as outras. É como tu não teres os mesmos direitos que as pessoas homens. A Constituição diz que sim, mas não tens. Tens de trabalhar dez ou vinte vezes mais do que os gajos.
Quando surgem a primeira vez, no Público (2007), duas páginas a dizer que nós estávamos em segundo lugar na política de acolhimento a imigrantes, três dias antes tinha saído um texto mais sério num cantinho e sem chamada de atenção a dizer que éramos o pior país a integrar. Desde 2007, nós continuamos em segundo lugar. É uma chatice! Nunca mais passamos à frente da Suécia! A Suécia que tem 10% de votos na extrema-direita. E eu pergunto: Que raio de critérios é que são estes? Não sei porque estão preocupados. Houve problemas no bairro da capital da Suécia por causa das mortes e dos motins a propósito da questão da imigração. Que rankings são estes? Ao menos da UEFA e da FIFA a gente sabe que se ganha passa para primeiro e se perde desce. Aqui é uma invenção. É o que convém. Isto tem algum sentido? Este (Joseph da Silva, investigador, também integrante da Associação SOS Racismo que se encontrava no dia desta conversa connosco) foi agora condenado por causa dos acontecimentos no Bairro de Santa Filomena. Nesse processo, eu próprio, ele e outras pessoas fomos com familiares à Igreja da Amadora perguntar se havia uma casa. Nunca tem havido casa para estas pessoas todas. Mas agora há uma lista em todas as freguesias do país para recolher refugiados que finalmente começam a aparecer desde Agosto. Contas no banco para os refugiados que só agora começam a aparecer. O que é isto? Onde está o acolhimento das pessoas? Até agora, a quota de refugiados que este país tinha era completamente ridícula comparando com todos os países da Europa (até com a Hungria). Antes da crise dos refugiados, 30, 20 ou 40 era a quota. Os 40 que vieram agora neste processo, era a quota de 2014, que já devia estar cá. 

Soraia Simões: E o papel da comunicação social aqui?
José Falcão: Evidente que no Verão isto «foi óptimo para refugiados e a invasão» (referindo-se às publicações da imprensa). Toda a gente fala em crise dos refugiados. Mas qual crise? Com quase 3 milhões de refugiados na Turquia. A Jordânia e o Líbano têm mais condições do que nós para atender os refugiados! Não brinquemos. E estamos a discutir 160 mil em 500 milhões (UE); 1 milhão em 500 milhões; 4 mil em 10 milhões (Portugal). O Líbano tem mais refugiados do que pessoas autóctones. Isto é ridículo! Eu dizia ao Rui Marques: “Qual é a diferença entre o que aconteceu na Líbia e o que está acontecer na Síria? Explica-me.” Ele: “O que queres dizer com isso?” “Estou eu a perguntar. Também se viam crianças mortas. Pior, viam-se pessoas na praia a banhar-se com mortos ao lado. Isso não choca? Porque é que tu não estiveste tão preocupado em fazer contas na altura? É a cor. Não dás conta?” Ele: “Não vás por aí!”. ‘’Não vou? Então explica-me lá. Na mesma reportagem onde tu falaste sobre esta questão dos refugiados, passaram vídeos na imprensa que todos os pretos eram barrados para entrar nos comboios e ir para a Alemanha. Os brancos entravam e nem lhes pediam papéis. Explica-me! É o quê’’? Isto tem cor e há discriminação racial. Aqui é que se vê  nestas coisas.  Afinal, estás a desviar-te da conversa, Soraia (risos)...

Soraia Simões: Não estou. Interessa-me tudo. Dá, aliás, para perceber o modus operandi do universo das indústrias culturais e porque é que umas práticas, os discursos que elas comportavam, foram nuns casos (a) colhidos e noutros literalmente cuspidos dos órgãos de comunicação e difusão neste período. O racismo está na sua génese. 
José Falcão: Haver uma sociedade racista e xenófoba, não quer dizer que são todos, mas de facto há uma política de neo-colonialismo, eurocentrismo, racismo e xenofobia latente. O Estado é responsável por isto. Claro que não é só. Também podemos sair de casa quando não estamos contentes. Se quisermos sair do bem-estar e aceitarmos todas estas ideias feitas que nos convém. Os ciganos são maus, está-se mesmo a ver. Nós somos muito melhores do que os alemães. Nós não matamos tanto. Como se isto tivesse alguma contabilidade, os mortos da escravatura e os do Hitler tivessem comparações. 

Soraia Simões: São no fundo formas de mascarar o problema. 
José Falcão: Exacto. Havia o Escolhas, um projecto para a reinserção dos jovens delinquentes. Era o primeiro programa. Depois apareceu o Vaz Pinto, o segundo Alto-comissário (2002) com o governo de Durão Barroso. A segunda geração dos Escolhas passa directamente para o alto-comissário. O que é que isto quer dizer? Mais uma vez, as «minorias étnicas» são pressupostas delinquentes.
Soraia Simões: É uma forma de mascarar, mais uma vez? E de catalogar. 
José Falcão: Claro! Uma pessoa olha e vê. A política do Estado português é: qual é a diferença entre os jovens delinquentes e os imigrantes? Não há nenhuma, não é? Mais uma vez. 

Soraia Simões: Fala-se também muito em ‘’políticas integracionistas’’, há  activistas africanos que contestam esta, entre outras, expressões. 
José Falcão: Sim. Inserção é o que deve ser. E multiculturalismo então é escandaloso. 

Soraia Simões: É uma das problemáticas que mais abordo no trabalho os usos de determinados «conceitos», como  multiculturalismo.
José Falcão: Sim. Nós denunciámos isso e depois a filosofia dos Escolhas mudou na «3ª geração». O Edmundo foi para a frente do Instituto e é ele que nos chateia. Estávamos na Ameixoeira e agora aquilo é um ninho para ganhar dinheiro. 

Soraia Simões: É também uma espécie de dormitório da cidade…
José Falcão: Eram todos os bairros sociais. Foi para onde a gente foi. 

Soraia Simões: Ali ao pé do Lumiar? 
José Falcão: Sim, à direita. Na Quinta da Torrinha (Ameixoeira). 

Soraia Simões: Estás-me a dizer que desde esta altura que estou a retratar nada mudou? 
José Falcão: Que muitas das coisas mudaram para pior, porque a lei de imigração tem mudado sempre e sempre para pior. Neste momento estão a decorrer reuniões para apresentar um caderno reivindicativo para as questões da imigração, como fizemos com o Sócrates em 2005. Foi feito pelo movimento associativo, só que em 2005 fazia manifestações com 2/3 mil pessoas (essencialmente imigrantes na rua). Desde essa altura, coisa que o PS não percebe, o que o Vaz Pinto fez foi alocar meios para poder comprar tudo isto e sanear quem lhe apetecia. Tentou sanear a SOS das duas comissões. Não conseguiu. Saneou de uma e da outra não conseguiu, porque a lei mesmo assim ainda protegia a nossa participação naquela comissão. Mas ele fez isso e meteu-me em tribunal por difamação. Exactamente porque eu denunciei estas coisas. Denunciei como tinha que denunciar e ele não gostou. Depois cortou-se quando viu que as minhas testemunhas eram a sério. Mesmo no Tribunal do Porto ele baixou a bolinha e desistiu da queixa. Não foi a julgamento. Esse senhor o que fez foi exactamente montar todo o sistema, que agora existe, continua e que se mantém. É o que eu digo ao PS: Não percebo! Como é que é possível que aquela elite esteja no serviço dos refugiados? Todos vieram dali. O Vaz Pinto, a Rosário Farmhouse e o Rui Marques. Agora este não sei se passou pelos Serviços (Jesuíta) dos Refugiados, mas era o Director Nacional dos Escolhas (o actual Alto-Comissário). Durante estes anos todos, aquilo não mudou absolutamente nada. Se hoje se entendem (a apresentação das queixas) quando antes ninguém percebia nada daquelas reuniões de comissões, porque aquilo estava apresentado de uma forma completamente estúpida. Em 2008, a Rosário Farmhouse despede o gajo que estava à frente dessa coisa. E eu disse: “Mas isso não é problema dele. Isso é política vossa que não quer que isto funcione.” O que apresentava e fazia seguir as queixas, um assessor, foi corrido. Por nossa pressão? Não. O que a gente pediu foi: isto tem que estar bem. Aquilo não estava bem. Continua na mesma até agora. E só agora (neste mandato) é que eles apresentam aquilo de forma perceptível. Mas, mesmo assim davam-te os números e as percentagens todas a cada reunião. Há tantas queixas que foram para tribunal e depois, no outro lado, baralhavam os dados todos. Tu não conseguias perceber nada. Em vez de ser uma coisa tão simples. Eu passei dez anos a dizer-lhes como fazer: “A queixa entrou. Onde está? Quem apresentou?”. Por exemplo, no tempo de Vaz Pinto nós apresentávamos queixas, elas desapareciam completamente, sobretudo as queixas de Alberto João Jardim; Maria José Nogueira Pinto; o Presidente da Junta de Freguesia de Benfica e os comandantes da polícia. Não há nenhuma queixa daquelas que tenha seguido para a frente, além das outras pessoas comuns. 

Soraia Simões: Mas a queixa entrava. 
José Falcão: Nós entregamos as coisas e nem sequer lá estão. Já denunciámos isso à imprensa várias vezes, mas é secundário. Nem sequer apresentar a queixa a dizer: «entrou em tal dia, foi por isto, a vítima», etc. Não está assim. Não se percebia durante anos e anos a fio. Nós a dizer como é que tinham de ser feitos. A Mónica Ribeiro (SOS Racismo) a fazer uma grelha, nós próprios a apresentámos em 2008. O PSR já tinha feito um trabalho sobre todas as queixas (referindo-se às queixas relacionadas com as agressões dos movimentos de extrema-direita) e o SOS não existia em 1989, quando o José Carvalho é assassinado. Nós não temos dossiers disso mas o PSR tinha quando apresentou à Procuradoria-Geral da República uma queixa contra o MAN. Em 1991, os skins são condenados. Um fugiu e eles não se chatearam nada com isso. Até que ele se entregou e continuou com a mesma pena, nem sequer foi condenado com mais. 

Soraia Simões: E qual foi a pena dele?
José Falcão: Foi 12 anos. 

Soraia Simões: Já cumprida então.
José Falcão: Sim. Há muito tempo. Foi em 1989. 

Soraia Simões: Estás a dizer que ele fugiu? Então não cumpriu. 
José Falcão: Não. Depois de um ano e tal entregou-se. Também não se preocuparam muito em procurá-lo.
O que se passou no Alto-Comissário serviu para montar um sistema que calou as pessoas. Na prática, deixou de haver manifestações. As leis foram piorando. Aliás, o Vaz Pinto cometeu uma ilegalidade e por isso é que eu queria ir a julgamento (recordando a queixa por difamação interposta a José Falcão). Ainda disse às minhas testemunhas e ao advogado que o que era bom era que aquilo fosse a julgamento. Eu podia ser condenado, mas ao menos a lei era questionada. Porque o gajo suspendeu a demissão e esqueceu-se que a lei do Durão Barroso (2002) tinha que ir a uma reunião daquela comissão. Todos podíamos dizer unanimemente que não. Mas tinha de haver uma reunião a pronunciar-se.  
Soraia Simões: Tinha de ser ‘revista’?
José Falcão: Tinha de haver uma posição sobre ela, como tem que haver dos governos civis. 

Soraia Simões: Neste caso não houve. Caiu?
José Falcão: Não caiu. A comissão esteve um ano e meio sem existir. Por exemplo, ele tomou posse em Março e a lei foi promulgada no ano a seguir (votada em Novembro/Dezembro de 2002). Ele estava num dilema: as comissões que tinham sido suspensas tinham de reunir. Fez uma reunião de uma Comissão que no fundo já não existia e a gente disse: “Fixe! Finalmente! Quase um ano depois, isto vai começar a funcionar.” Não, ele fez a reunião de uma Comissão que não existia. Eu considerava-me fazendo parte da Comissão. O Pedro Bacelar a mesma coisa. Ele fez a reunião só, e apenas, porque tinha que haver uma reunião daquela comissão sobre a lei, porque senão não podia ser promulgada. Imediatamente a seguir, as pessoas tomaram posição sobre a lei e depois nunca mais houve reunião.  Eu já não fazia parte daquela Comissão, porque ele já tinha corrido comigo e nós não sabíamos. As Comissões estavam suspensas. Ele reuniu e eu chamo-lhe o que tenho de chamar, porque ele mentiu às pessoas. 

Soraia Simões: Ele fez isso à má fila?
José Falcão: Completamente! Ele precisava de reunir aquilo. 
Foi incompetência. Chamei-lhe incompetente, cobarde, etc. Esses nomes todos mas documentado. Nesse período as pessoas calaram-se. Houve associações que se mexeram por nossa iniciativa. Mas, também o Pedro (Bacelar), o Zé Leitão, etc. Mas a maioria começaram a ser caladas nessa altura. 

Soraia Simões: Quais foram as associações que se mexeram nessa altura?
José Falcão: A SOS, a Amnistia, o CPR, entre outros. As que estavam na Comissão. A CGTP também e algumas personalidades que faziam parte da comissão. Fizemos esse processo, mas houve poucas porque o movimento associativo começou a ser calado nessa altura. O ACIDI serve para calar as associações. Depois há outras coisas que se continuam a perpetuar até hoje. Vou-te contar a história que aconteceu em Dezembro do ano passado. Foi apresentado um livro, na Assembleia da República, já com o Pedro Calado como Comissário. Eu vou com o livro da Ana Cristina Pereira para vender-lhe o livro. Ele vinha com o Pedro Lynce. Ainda foi antes das eleições. 

Soraia Simões: 2013?
José Falcão: 2014. Eu vou vender-lhe o livro. E ele: “Desta vez vais-me dar o livro.” E eu: “Desculpa? Vou-te dar o livro porquê? Tu nunca me deste nada.” E ele: “Não te dei nada? Então e os Escolhas?” Não sabia que os Escolhas (programa governamental de âmbito nacional, criado em 2001, promovido pela Presidência do Conselho de Ministros e integrado no Alto Comissariado para as Migrações – ACM) eram para arranjar dinheiro para as associações. Para já, têm uma conta particular, à parte, e não pode haver absolutamente nenhuma transmutação de dinheiros dos Escolhas. Há Escolhas que estão sediados nas associações, mas o dinheiro não é para a SOS. E ele: “Pois, isto é para capacitar os jovens dos bairros.” E eu: “Ainda bem que vens com essa da capacitação dos jovens, porque durante seis anos andamos a capacitar dois anos de Escolhas e agora, para a 5ª Geração, foi apresentado o mesmo projecto igual ao que apresentámos durante duas gerações, mas a única coisa que mudava era que os responsáveis eram os jovens do bairro; os parceiros eram os mesmos; a SOS deixava de ser o responsável e passava a ser um dos apoiantes e havia capacitação dos jovens. E o que tu fizeste? Deste o coiso a um consórcio. Isto é a capacitação"? 

Soraia Simões: Pois, estava lá mais gente?
José Falcão: Estava lá o Pedro Lynce. Ele estava a querer fazer brilharete com o Pedro Lynce. Nunca está à espera que as pessoas digam as coisas na cara. Sabes o que fizeram para a «5ª Geração»? As pessoas que são dirigentes associativos não podem estar como coordenadores dos Escolhas. Porquê? 

Soraia Simões: Isso é muito estranho. 
José Falcão: Não é estranho. Eles não querem pessoas que percebam o que andam a fazer. Querem é empregados. Têm de ser pessoas que as associações contratem entre aspas. 

Todas as pessoas que estão nos Escolhas são da SOS e dos outros. Nós continuamos a ter no Porto e deixámos de ter em Lisboa. Porque depois há dinheiro para comprar saquinhos. As pessoas que estão a trabalhar nos Escolhas, e que não têm mais nada, podem estar três, quatro, cinco e seis meses sem receber. Eu já perguntei aos Altos-comissários: “Vocês estão seis meses sem receber? Há problemas de tesouraria mas vocês não recebem o salário no dia? Então porque nos Escolhas as pessoas não recebem?” 

Soraia Simões: Tu disseste isso lá?
José Falcão: Eu já lhes disse isso várias vezes. 

Soraia Simões: Mas lá, nesse momento?
José Falcão: Disse bem alto: ‘’Dinheiro para estes saquinhos e canetas há mas para pagar às pessoas que estão a trabalhar nos Escolhas não há’’. 

Soraia Simões: Recuando à morte do Alcindo (Monteiro)…
José Falcão: Quero recuar ao Tribunal Constitucional porque é aqui que, para mim, está a actuação chave. O Tribunal Constitucional tinha as mãos sujas de sangue do Alcindo Monteiro porque resolveu não condenar o MAN, por se ter dissolvido. Eu perguntava: ‘’Eu posso chegar a casa de alguém, matá-lo e depois ir ao notário mudar de nome e já não me fazem nada’’? Foi o que o Tribunal fez. O Teixeira da Mota também criticou duramente o Tribunal Constitucional dessa altura. Em Janeiro de 1994, o tal processo da morte do José Carvalho, que nós fizemos um dossier sobre a extrema-direita. Toda a parafernália de casos dos skins e do MAN, porque não mataram só o José Carvalho. A polícia é que não investigou outras mortes (agressões como a Faustino na linha de comboio; a Andrea Peniche, entre outros agredidos no Porto). No fim-de-semana anterior já saia na imprensa que não ia acontecer nada. Nesse dia houve ataques dos skinheads, como quem diz: ‘’ganhámos’’! Ainda não havia a leitura oficial da sentença mas já saído no jornal. 

Soraia Simões: Isso foi por aí? Mais ou menos. 
José Falcão: Foi em Janeiro de 1994. Recusou-se extinguir o MAN porque, segundo o Ministério Público, excedeu-se no mau sentido, esclareça-se: não porque houvesse obrigação de extingui-lo, mas sim por outros motivos. Constituiu uma solução absolutamente hábil para evitar uma questão profundamente política. Numa notícia publicada no Jornal Expresso, no passado sábado, veio-se a confirmar a extensão de tal artifício. Eventualmente a extingui-lo preferiram descobrir que já estava extinto. Em vez de extinguir, não é? E eles mudaram de nome. Nesse fim-de-semana, anterior à sentença do tribunal, houve agressões. O namorado da Andrea Peniche foi agredido em Vila do Conde. Ela foi dirigente do PSR. Os skins nessa altura faziam isso. Iam todos os fins de semana para o Porto e quando vinham chegavam no comboio e iam atacar o povo. Foi para comemorar a sentença que já vinha no jornal. Nessa altura, os skins tinham feito uma série de barbaridades até à morte do José Carvalho e ao Faustino (colocado na linha do comboio). Houve ali um período em que os ataques dos skinheads estiveram directamente relacionados com oito gajos que estavam presos e quinze em julgamento. 

Soraia Simões: Foram os mesmos que depois estiveram envolvidos na morte do Alcindo?
José Falcão: Alguns sim, de uma maneira ou de outra. Aliás, há gajos como o Francisco Mascarenhas que ainda agora no Vasco da Gama aparece nos comentários (facebook). Não é o Francisco Mascarenhas, porque esse foi absolvido no processo. Era um gajo que era o dono do Chaveiro em Almada. Fernando Gabriel Oliveira Martins Pimenta. Isto foi um trabalho de investigação que nós fizemos para um relatório. Havia uma associação internacional, o CERA (Centro Europeu de Pesquisa e Accção sobre o Racismo e Anti-Semitismo), que fazia um relatório sobre a extrema-direita todos os anos sobre diferentes países. Durante dois anos o Eduardo Dâmaso fez esse relatório. Ele é que fazia a parte de Portugal. Ele disse que não fazia o relatório que ia sair em 1998. Pedem ao SOS para fazer. Recebemos uma incumbência para fazer um relatório em três semanas. Esses gajos que fazem o relatório não gostaram do que nós fizemos e fazem sugestões para alterar. Acontece que, durante esse período, já estavam programados debates e eu já estava no programa. ‘’Então e agora? Saiu do programa? Não aceitamos a chantagem. Eles são muito importantes. Nós alteramos o vosso texto e vocês assinam. Ou então, nós fazemos outro’’. Conseguimos fazer uma brochura a correr para o dia da apresentação. Os gajos disseram que isto era muito mau para Portugal e o governo português. Nós dissemos que até final de Março não conseguíamos entregar e eles não aceitaram. E eu pergunto: ‘’Gostaríamos de saber se os académicos do CERA encomendam trabalhos desta envergadura em tão pouco tempo?”. Mas mesmo assim não fomos dos últimos. O que relatamos são factos, números, acontecimentos, e para isso socorremo-nos de diferentes núcleos da SOS espalhados pelo país, de muitos jornalistas responsáveis pelos arquivos de alguns jornais, que se prontificaram a ajudar-nos e a ajudar o CERA, dada a emergência da incumbência. Um dos gajos veio ter comigo para ir lá falar. Depois «levou» no debate. 

Soraia Simões:  Conhecias o Alcindo Monteiro? Curiosamente era primo de dois dos Karapinhas (grupo de músicos que acompanhava General D: Djone Santos e Tutin di Giralda).
José Falcão: Não. O pai trabalhava no Hospital de Almada. Era amigo de um amigo meu. Eu não o conhecia. O que estava a acontecer era uma onda de violência porque ficaram impunes. O Tribunal Constitucional fez com que os skins estivessem à vontade para fazer. Os skins faziam sempre alguma coisa a 10 de Julho. Nesse ano foram atacar o Bairro Alto. Eu estava na Feira do Livro porque tínhamos bancas. Nessa noite, o José Carlos Tavares e outros foram à Feira do Livro. Depois íamos para as Catacumbas beber copos e eu a fazer contas da banca. Mas eu como estava a morrer de fome porque estive a fazer a banca o dia todo, não fui com eles imediatamente para o Bairro Alto. Fui à Cachupa e fiquei a ver um filme. Fiquei a ver na cozinha com os gajos da Cachupa e a comer. Cheguei ao Bairro às 3h00 da manhã. Aquilo estava em polvorosa. O pessoal diz que os gajos tinham matado um gajo e o Zé Carlos diz: ‘’tiveste muita sorte em não ter vindo connosco, porque eles passaram pelos skins quando foram para o Bairro’’.  No dia a seguir, no domingo, as notícias que saíam do Alcindo eram: “Está sob observação no Hospital”. E que os polícias tinham metido 40 e tal pessoas dentro. Durante o dia, imediatamente de manhã, uma fonte do hospital disse-me: “o Alcindo está ligado à máquina”. À imprensa eu disse: “Vocês perguntem ao S. José (hospital) qual é a situação dele, porque ele está morto. E se eles não dizem que ele está morto, e se isto amanhã vai ao Tribunal de Instrução Criminal (TIC), eles saem todos cá para fora.” Porque uma coisa é bater com a cabeça e ficar sob observação e outra coisa é o gajo estar ligado à máquina. 

Soraia Simões: Eles tinham ordens?
José Falcão: Claro. Porque é que o gajo está a levar porrada e toda a gente sabe e está sob observação e ninguém chateia? A partir daí, os skins estavam muito contentes e o culminar disso foi a morte do Alcindo. Depois ficaram parados mais uma vez.

consulta dossier Alcindo Monteiro durante pesquisa

consulta dossier Alcindo Monteiro durante pesquisa

 

Fontes
[1] Sérgio Matsinhe, nome real do rapper, (entrevista completa em RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada: 1986 - 1996, Editora Caleidoscópio: SIMÕES, Soraia). 
[2] SIMÕES, Soraia, MATSINHE, Sérgio: História Oral Mural Sonoro on-line, Europenana Sounds, recolha de entrevista, 3/07/2014, http://www.muralsonoro.com/qd-intro/.
[3] Fotografias várias durante trabalho de campo para tese entre 2012 - 2016

[4] SIMÕES, Soraia, coordenação, Debates e Conferências RAPortugal 1986 – 1999 (7 de Setembro de 2016 a 14 de Janeiro de 2017): ROSAS, Fernando; FALCÃO, José; LINCE, “RAPoder no Portugal urbano pós-25 de Abril”. On-line.

*Micro-história – parto da ideia de “micro-história” criada pelo historiador britânico Edward Thompson (Oxford, 3 de Fevereiro de 1924 – Worcester, 28 de Agosto de 1993), que demonstrou em vários dos seus trabalhos a relação entre história social e o desenvolvimento de alguns dos temas fundamentais da micro-história: a preocupação com a constituição dos grupos sociais, o significado cultural da acção dos grupos sociais, e as consequências, positivas e negativas, da transformação social.

** Rappers e outros/as: Agradeço os testemunhos durante este longo processo de General D, Makkas (Black Company), KJB (Black Company), Bambino (Black Company), Francisco Rebelo (Cool Hipnoise, baixista Black Company, Mind da Gap, Boss AC, Ithaka), Marta Dias (General D&Os Karapinhas), Double V (Family), Maimuna Jalles (General D&Os Karapinhas), Lince (New Tribe), M (New Tribe), Tiago Faden (produtor executivo RAPública), Hernâni Miguel (manager, animador cultural, produtor colectânea RAPública), José Mariño (autor dos programas de rádio Novo RAP Jovem e Repto), Jazzy J (Zona Dread), Jaws T e MC Nilton (Líderes da Nova Mensagem), Ithaka, Sweetalk (Djamal), X-Sista, Jumping (Djamal), Ace (Mind da Gap), NBC (Filhos de 1 Deus Menor), Tutin di Giralda (músico General D&Karapinhas), Djone Santos (músico General D&Karapinhas), João Gomes (músico Cool Hipnoise e General D&Karapinhas), Janelo da Costa (Kussondulola), Zj /Zuka (Divine), Dana - Dane (Divine), Chullage, Biggy (Afroblood, Guardiões do Movimento Sagrado), José Falcão (SOS Racismo), Maze (Dealema), Karlon (Nigga Poison), Kilu, Fernando Rosas (historiador). 

Breves notas úteis que integram a pesquisa:

MAN:  Movimento de Acção Nacional (MAN). O líder do MAN percebe que os skin podem representar a base de militância que o MAN nunca conseguiu congregar. Razão pela qual os materiais do MAN começam a circular no meio skin. Em conversa com o historiador Riccardo Marchi, cuja investigação está relacionada com as direitas radicais, ele afirma que o meio skin era «bastante impermeável porque os skin principalmente os das periferias (Margem Sul nomeadamente) não queriam ser controlados por ninguém, nem estavam muito interessados em política, apenas em cultura suburbana (música, copos, pinchadas nas paredes, confrontos violentos de rua)».

Hammerskin e  Blood&Honour: redes internacionais de extrema-direita que surgiriam na década de 1990, PHS, criado por Mário Machado (acusado da morte de Alcindo Monteiro) em 2004/5.

SIMÕES, Soraia, Punked*, Rua De Baixo, 2009: No dia da morte de Alcindo Monteiro  decorria o concerto de um dos grupos de Vanda Gonçalves (Dogue Dócil, Kassefazem), em 2009 numa entrevista à vocalista*, ela referia que «não conseguia controlar a afluência de skinheads aos concertos da banda» (...) «Este facto fez com que muita da comunicação social, mas não só, fosse abafando o meu nome e a minha imagem». Vanda recordaria nessa entrevista que depois de convidada para vocalista do grupo Peste e Sida (na altura da eminente saída de João Almendra/vocalista), chegou a fazer alguns espectáculos da digressão denominada “Portem-se Bem”, como vocalista a par de João Almendra e a entrar num trabalho de composição do novo disco “Peste e Sida é que é” tendo, entretanto, saído João Almendra. O seu nome durante muito tempo associado à cumplicidade com o caso do assassinato do dirigente político do PSR fez igualmente com que  Luís Varatojo e João San Payo (ambos membros do grupo Peste e Sida com o qual colaborava) lhe pedissem para mudar de nome e de imagem. A vocalista acabaria por sair.

Créditos
Pesquisa, Entrevista, Captação de Som: Soraia Simões
Fotografias: Soraia Simões e Joseph da Silva
Design de som e sonoplastia de entrevistas no audiolivro: João Megre


 

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Seminário Internacional Práticas de Arquivo em Artes Performativas - 16, 17 e 18 de novembro de 2017, TAGV (Coimbra) e TNSJ (Porto)

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Seminário Internacional Práticas de Arquivo em Artes Performativas - 16, 17 e 18 de novembro de 2017, TAGV (Coimbra) e TNSJ (Porto)

Seminário Internacional
PRÁTICAS DE ARQUIVO EM ARTES PERFORMATIVAS

ARCHIVE PRACTICES IN PERFORMING ARTS
Data: 16, 17 e 18 de novembro de 2017

organização: CEIS20/Universidade de Coimbra, Instituto de História da Arte - FCSH NOVA I
Locais:

TAGV - Teatro Académico Gil Vicente (Coimbra), 16 de Novembro

Teatro Nacional de São João | Centro de Documentação MSBV, Porto (17 e 18 de Novembro)

 

Dia 16 de Novembro (pelas 14.30, TAGV - Teatro Académico Gil Vicente (Coimbra), Soraia Simões (Instituto de História Contemporânea/FCSH NOVA, Mural Sonoro) participará no simpósio com a comunicação: «1955-1999. Um Arquivo para todos/as! Novos lugares: reproduções de memórias e história das músicas populares num écran», que incide nos últimos sete anos de trabalho desenvolvido no portal Mural Sonoro.

Resumo

As contribuições da história oral e dos testemunhos individuais no campo da música e da cultura populares ao longo da segunda metade do século XX, no relevo que elas permitem dar às «memórias subterrâneas», especialmente em contextos de transformação social, em momentos de conflito ou em períodos de intensa contestação política são, na partilha da diversidade intrínseca das experiências vividas, de grande riqueza para os Estudos Culturais no geral e para os Estudos de História da Música Popular em particular.
De um modo menos claro, por vezes silencioso, esquecido, o que é dito «de novo» ou enquadrado, conduzido e cruzado num campo ou com uma perspectiva «novos/as» para o interlocutor pode questionar e mesmo alterar uma hipotética «coerência narrativa» imposta por uma memória oficial colectiva --- pelas indústrias de publicação de conteúdos e as balizações das suas linhas editoriais ---, ou mesmo pelos próprios actores «formatados» pelos anos de interacção com essas indústrias (mass-media).
O modo como as práticas musicais de matriz urbana no contexto local se alimentaram da experiência internacional por via dos discos, do cinema, da rádio, da televisão, ao mesmo tempo que por modelos de aprendizagem formal (conservatórios nacionais, conservatórios regionais, bandas filarmónicas) e menos formais (na rua) entre 1955 e 1999 permite traçar uma linha de narrativas coincidentes acerca da emergência de algumas destas comunidades artísticas, pese embora as características individuais de cada grupo. Ora é aqui que analisar essas memórias e percursos cruzando com a própria história da indústria musical portuguesa (e mundial) se impõe levando-nos a uma busca exigente por uma actualização da história da música popular e das questões da sua performatividade e representação públicas. Ao mesmo tempo, ao convocar junto dos seus actores a exposição oral de vivências, e colocar em evidência o cruzamento e a interpretação das mesmas, preenche o ensejo por um excercício de liberdade e de cidadania permanente: onde a paisagem social, sonora, musical e científica dos nossos tempos forme um novo campo da nossa cultura, uma cultura partilhada onde o primeiro (e último) objectivo será garantir o seu acesso ao grande público nesta era digital.

Palavras-chave: arquivo digital sonoro, usos da memória, história oral, práticas musicais em contexto local e transnacional na segunda metade do século XX.

Apresentação:

Este Seminário pretende avaliar e pensar as práticas de arquivo em artes performativas, considerando simultaneamente: 

(1) os diversos contextos e ocorrências disciplinares (Teatro, Dança, Performance, Música); 

(2) as resistências e as possibilidades de constituição do arquivo na conjuntura tecnológica e mediatizada da atualidade; 

(3) as dinâmicas que se estabelecem entre o arquivo documentado/documentável e as práticas contemporâneas de criação e corporização da memória (embodied memory).  

Será dada especial atenção às diversas tecnologias de inscrição (Derrida) que determinam a constituição do arquivo, analisando as metodologias e práticas de arquivo que nas últimas décadas vêm sendo aplicadas em diversas iniciativas documentais, tanto nacionais como internacionais. Neste sentido, além de incluir palestras propondo uma reflexão mais transversal sobre as questões teóricas e conceptuais colocadas pela dinâmica entre o arquivo e o reportório (Diana Taylor), o seminário contempla a apresentação, descrição e análise de casos concretos, dando conta das possibilidades e das limitações na constituição de um arquivo em artes performativas. As tecnologias e as práticas de arquivo são também responsáveis pela estrutura e pela própria produção dos factos e dos acontecimentos arquivados, nomeadamente âmbito da contingência reconhecida às artes performativas.

O evento decorrerá no Teatro Académico de Gil Vicente (dia 16 de novembro) e no TNSJ/Mosteiro São Bento da Vitória (17 e 18 de novembro). Cada um dos dias abre com uma conferência plenária, seguindo-se a apresentação, análise e debate de casos nacionais e internacionais. Está prevista a realização de dois workshops, respetivamente sobre “Documentação e Indexação em Artes Performativas” e “Software e Gestão de Arquivos Digitais”. Numa segunda fase será publicada uma monografia com uma seleção de textos apresentados, documentando o debate e inscrevendo-o a seu modo no espaço público, junto da comunidade de criadores, investigadores, agentes e instituições do meio artístico. A complementaridade entre as diversas ações propostas com este seminário é especialmente importante num país marcado por dificuldades na relação (material e imaterial) com o arquivo e a documentação, em certo sentido relacionáveis com o “país da não inscrição” a que se referiu o filósofo José Gil.

 

Mais detalhes (programa em actualização) aqui

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CLOSE UP (punks not dead)/instalação

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CLOSE UP (punks not dead)/instalação

CLOSE UP - PUNKS NOT DEAD (1977 - 2017)
NEVERMIND de Paulo Moreira aka Boris Fortuna (Faculdade de Belas Artes, Univ do Porto)
20 de Novembro a 10 de Dezembro de 2017, Átrio principal da FCSH NOVA
Organização: Instituto de História Contemporânea
Curadoria: Soraia Simões (IHC - FCSH NOVA, Mural Sonoro)
Entidades parceiras: FCSH, IHC, Mural Sonoro

 

Acerca da exposição

No ano em que se comemoram os 40 anos decorridos do, designado pelos seus principais protagonistas como, «movimento Punk», a exposição/Instalação CLOSE UP – PUNKS NOT DEAD apresenta um conjunto de desenhos instalados, na sua maioria de grandes dimensões, onde se apontam como territórios de exploração os fenómenos associados ao consumo, à acumulação e ao excesso, numa era em que se cria e actua a partir de «uma visão positiva de caos e complexidade» (Bourriaud).

A alusão ao «Punk» enquanto fenómeno cultural e político inspira uma reflexão sobre as heranças deste movimento, a sua influência no âmbito social e estético. Da ideia de “DIY” (do it yourself), como fenómeno criativo, bem como da ideia de caos, excesso e consumo; características da contemporaneidade, actualmente eivada pelos prodígios da globalização, mas que na sua emergência (década de 1970) se enredava pela acção e postura contra determinado establishment e o emergir de uma nova modernidade.

E esse rastilho que desencadeou a pólvora deste e outros movimentos na cultura popular do século XX, da música ao cinema, da moda às artes plásticas terá morrido?

«Configurada segundo novos modelos de comunicação e relacionamento, as facilidades de viagem e os movimentos migratórios em massa: factores universalistas que colocam a criação artÍstica a partir de um estado de percepção  globalizado, e consequentemente permitem a afirmação de novos paradigmas no «modo de fazer» e «de entender a arte» reafirmam-nos que não. Numa paisagem saturada de sinais, ao artista plástico é dada a possibilidade de criar por novas vias, novos formatos, territórios que exploram os vinculos existentes entre o texto e a imagem, o tempo e o espaço. O artista transcodifica e transpõe a informação de um formato para outro, errante na história e na geografia, a partir do caos quotidiano, através da dobragem e reprodução, ou duplicação.

No seu conjunto, a instalação apresenta-se como peça única em forma de muro, elemento arquitectónico determinante de uma visão dúplice de planos, à lembrança os discos de vinil: das suas capas em particular. A forma do trabalho expressa um curso, uma errância, e não um espaço-tempo fixo. A narrativa segue num percurso circular sem início nem fim. Por outro lado, a ideia de muroconstitui-se por si só, como espécie de «altar memorabilia» onde, de forma aparentemente aleatória, automática, lembrando os cut-up de Burroughs, se organizam os diversos elementos e desenhos. Do mesmo modo, as correspondências quanto aos materiais utilizados, fotocópias, papel de fotocópia, fita adesiva, cartão, bolsas de plástico, vinil autocolante, entre outros,  bem como o próprio processo de construção, idealizam as vivências do quotidiano e os processos de acumulação, a elas associados, num tempo marcado pela globalidade relacional, as ligações em rede, os ideais de consumo, enfim, os rituais sociais da modernidade actual», refere Paulo Moreira acerca da instalação.

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Boris Fortuna (autor da exposição), Soraia Simões, Curadora do projecto

Links úteis sobre o artista:

www.paulomoreirapintor.blogspot.com

www.sindicatodocredo.blogspot.com

 

Parcerias: Mural Sonoro, Instituto de História Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa.  

NOTA: Folha de sala e outras surpresas durante a exibição

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Bandas e música para sopros: (Re)pensar histórias locais e casos de sucesso - Colóquio, 10 e 11 de Outubro

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Bandas e música para sopros: (Re)pensar histórias locais e casos de sucesso - Colóquio, 10 e 11 de Outubro

Colóquio: Bandas e Música para Sopros: (Re)Pensar Histórias Locais e Casos de Sucesso

IHC | FCSH-NOVA | 10 de Outubro (Auditório 1, torre B, piso 1, FCSH),
11 de Outubro (Sala Multiusos , edifício ID)

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Colóquio: Bandas e Música para Sopros: (Re)Pensar Histórias Locais e Casos de Sucesso

 



O colóquio Bandas e música para sopros: (Re)pensar histórias locais e casos de sucesso teve como propósito reunir investigadores/as de distintas áreas do saber, criar sinergias, cruzar ideias, reflectir e estimular o debate sobre este campo académico, particularmente relevante da cultura portuguesa, que tem vindo a ganhar visibilidade na última década. Pretende-se fomentar e divulgar a prática musical para sopros (as bandas em particular), partilhar informação e disseminar resultados de investigação, promover a inclusão desta temática no âmbito das investigações académicas e discutir questões e desafios para o futuro desenvolvimento das bandas de música. Além de serem o motivo da fundação de inúmeras colectividades locais ‒ muitas delas constituídas no século XIX ‒ uma parte significativa dos instrumentistas de sopro mais conceituados iniciou a carreira musical precisamente em bandas de música, alguns dos quais continuam a dar o seu contributo, sobretudo como maestros.

Apoio Antena 2

As comunicações apresentadas nestes dois dias ficarão, até final do ano 2017, disponíveis em formato digital sonoro neste portal, com pequenos resumos de enquadramento escrito e notas biográficas dos/as conferencistas convidados/as.

Agradecemos a tod@s que participaram nestes dois dias bastante enriquecedores.
Comissão organizadora:
Bruno Madureira
Diogo Vivas
Soraia Simões
Instituto de História ContemporâneaMural SonoroCEIS20

fotografias de Carlos Moreira

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Até sempre Daniel Bacelar, por Soraia Simões

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Até sempre Daniel Bacelar, por Soraia Simões

Deixou-nos o Daniel Bacelar, o “sempre rocker” com quem fui falando desde 2011 (na altura em que fazia a pesquisa para o meu primeiro livro, que incidiu na relação de uma boa parte do percurso de Paulo de Carvalho — intérprete e compositor —, com a indústria cultural, obra publicada em Outubro de 2012).
Já não falava desde o ano passado, as últimas vezes foram trocas de ideias por esta rede que também usava (em mensagens privadas de FB). Recordo dele a boa disposição, a frescura da memória e a agudeza de espírito que caracterizam um conjunto (pequeno) de pessoas que, fruto do meu trabalho, fui conhecendo ao longo destes anos e para as quais, tenho para mim, a idade não foi um posto e os depoimentos no decorrer das conversas configuravam um momento de reaquisição, sem esforço, de imagens e ideias que sobreviveram aos factos e às pessoas. É assim, “sempre novo”, arguto, enamorado pela vida que levou no tempo em que os “Festivais Ié Ié” organizados no Teatro Monumental faziam os serões de muitos/as jovens, que o recordo. Como diz a dada altura Paulo de Carvalho, na referida obra, esses Festivais, organizados por Vasco Morgado durante a década de 1960, foram o “Rock Rendez Vous” daquela época.
É a terceira vez que, inexplicavelmente, sinto uma sensação de grande perda. Semelhante à sentida com Hugo Ribeiro (o “senhor gravação”, primeiro técnico da Valentim de Carvalho) ou José Pracana (um dos companheiros com quem mais aprendi sobre Fado, dos poucos de quem fiquei amiga, mesmo no seio de longas horas de tertúlia e discussão motivadas pelas nossas divergências ideológicas e políticas). Há uma determinada altura em que a consciência da finitude, para quem trabalha com História e Memória enquadradas num passado recente (segunda metade do século XX), seja em que campo for, se adensa. Creio que isto tem mais que ver com algumas pessoas que a História me tem 'empurrado' a conhecer para lá dos limites da pesquisa ou das suas demarcações temáticas e temporais. Isso, na realidade, é o que não se explica.
Até sempre Daniel.

#chãoquepiso #rockemportugal #danielbacelar #conchas #paulodecarvalho#sheiks #60s #teatromonumental #iéié #popularmusicstudies#contemporanyhistory #diarynotes

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Karlon Krioulo (Rapper, MC, Produtor)

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Karlon Krioulo (Rapper, MC, Produtor)

112ª Recolha de Entrevista
Quota MS_00095


BI: Carlos Furtado Gomes, ou Karlon Krioulo – nome de baptismo no RAP e «cultura hip-hop», nasceu em 1979. Integrante do grupo Nigga Poison formado em 1994, por si e Praga, afrodescendentes, de uma família cabo-verdiana, criados no bairro Pedreira dos Húngaros.
Escreve em crioulo desde que começou a gravar RAP em Portugal. A formação no curso de Artes e Ofícios do Espetáculo (Chapitô), permitiu que apreendesse um conjunto de ferramentas que hoje aplica na sua actividade como a gestão de recursos disponíveis para a produção da sua música, como demonstra nesta conversa.


Karlon iniciou-se na adolescência nesta prática inscrevendo o seu nome como rapper e MC no ano em que sai RAPública (1994, Sony Music, 1ª colectânea de RAP editada em Portugal por uma multinacional), no entanto o seu primeiro registo fonográfico surge mais tarde. Isto deveu-se, à semelhança de outros actores/actrizes deste «movimento», às dificuldades que muitos/as dos que o fizeram crescer em Portugal tinham, sob o ponto de vista financeiro, em entrar num estúdio para gravar. No tempo em que o estúdio ainda não estava para estas comunidades (de um modo transversal)  no computador e as máquinas eram bastante dispendiosas. 
Foi no bairro, em freestyle, cyphers, que começou a chamar à atenção de outros/as rappers. Em 1997 participou com Nigga Poison na mixtape de Dj Kronik (editada em fita cassete), editaram posteriormente o primeiro EP, uma edição de autor (es), (Podia Ser Mi, Kreduson, 2001). Em 1998 entram no filme documental Outros Bairros (Filmes Tejo, da autoria de Kiluanje Liberdade, Inês Gonçalves e Vasco Pimentel), ano em que gravam três telediscos para a Expo 98 com a realizadora Teresa Villaverde. 


De 1998 em diante Karlon foi procurando criar a sua música: produzindo-a e promovendo-a,  à semelhança de vários rappers, MCs e produtores da sua geração, de um modo independente.

Em 2001 criou a sua produtora Kreduson Produson.

O grupo Nigga Poison foi marcando o seu nome e tornando-se uma fonte referencial entre pares. Entra em Ritmo & Poesia de Xeg, Poesia Urbana de Valete e Adamastor, entre outros. Colaboram também em Inoxidavel 2 (2004, de DJ Kronik). Lançam Resistentes (2006, Very Deep/Som Livre), trabalho discográfico que lhes vale uma nomeação nos Globos de Ouro na categoria de «banda revelação».
Tocaram em Paris, Luxemburgo, Nice, Bruxelas e Andorra, bem como em vários espaços de norte a sul de Portugal. 
Participaram com os temas «Yes Man» e «Onde é que tu Estás» na banda sonora do filme A esperança está onde menos se espera do realizador Joaquim Leitão e na compilação Hip Hop Fnac com Dj Bomberjack na faixa «Nigga». 
Em 2011, sob a etiqueta da Optimus Discos, lançam Simplicidadi


Desde 2012 que Karlon tem afirmado o seu percurso a solo. Em 2012 lança Nha momento e em 2013 a mixtape Paranoia. Com o selo da Kreduson Produson saem também Meskalina em 2015 e em 2016 Passaporti.

Esta conversa faz parte de um conjunto de outras entrevistas semi-dirigidas realizadas no âmbito do trabalho de investigação que desenvolvo presentemente e que tem como foco o  impacto social e cultural do RAP feito em Portugal durante este período histórico, trabalho este que inicia na segunda metade da década de 80 e termina na de 90. 
Apesar de semi-dirigidas estas conversas são realizadas num cl
ima de descontracção e com o cruzamento de outro tipo de fontes: orais e escritas que marcaram esse período. Neste pedaço disponibilizado on-line Karlon explica como viveu o primeiro período da sua afirmação no RAP, o significado de usar o crioulo na sua lírica, as vantagens do autodidactismo e produção independente (longe do modelo tradicional da indústria de gravação de discos), procurando ao mesmo tempo, quando questionado, interpretar prós e contras da dependência do modelo convencional aplicado pela indústria cultural nos primeiros anos – manifestada por uma boa parte da primeira geração de rappers em Portugal –, a descontinuidade histórica existente  quanto ao papel e problemáticas levantadas pelas primeiras mulheres a fazer RAP em Portugal, as experiências de vivência num bairro e os significados da afirmação cultural/identitária no seio da Música Popular feita em Portugal vindo de um outro território (cultural, sonoro e geográfico) ou como presencia e lê a reintrodução de expressões como nigga e gangsta, fora do contexto histórico de afirmação ou reivindicação de direitos em que as mesmas surgem, nos dias de hoje.
Mais em RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada (SIMÕES:2017)*

© 2017 Karlon Krioulo à conversa com Soraia Simões, Perspectivas e Reflexões no campo

Pesquisa, Som, Entrevista, Texto, Edição: Soraia Simões

Fotografias Karlon: Crossfox e Vasco Viana (2017, fotógrafo em Altas Cidades de Ossadas, de João Salaviza, curta-metragem que tem Karlon como actor principal); Recolha de entrevista realizada na casa de Karlon


*Editora Caleidoscópio, audiolivro contém:

SUMÁRIO

Nota da autora
Introdução
Memória, sociedade, história oral e cultura popular

Cavaquismo, imigração e extrema-direita
RAP, territórios, discursos e influências
Anos 90, as mulheres no RAP

História oral – transcrita
Francisco Rebelo (mentor e integrante do grupo Cool Hipnoise, baixista nos grupos Black Company, Ithaka ou Mind da Gap, entre outros)
Hernâni Miguel (produtor RAPublica)
Biggy
Zj /Zuka (Divine)

História oral – áudio
Chullage
General D
Makkas (Black Company)
Janelo da Costa (Kussondulola)
Double V (Family)
Maimuna Jalles (General D&Os Karapinhas)
Marta Dias (General D&Os Karapinhas)
José Falcão (SOS Racismo)
Lince (New Tribe)
M (New Tribe)
Jaws T e MC Nilton (Líderes da Nova Mensagem)
José Mariño (radialista – autor programas Novo RAP Jovem, Repto)
X-Sista, Jumping (Djamal)
Sweetalk (Djamal)
NBC (Filhos de 1 Deus Menor)
João Gomes (Cool Hipnoise e General D&Os Karapinhas)
Tutin di Giralda (General D&Os Karapinhas)
Djone Santos (General D&Os Karapinhas)
Ithaka
Jazzy J (Zona Dread)
Tiago Faden (produtor executivo RAPublica)
Nomen (writer – Artista urbano)
Edgar Pêra (cineasta – videoclipes Black Company: “Abreu” e Djamal)
Ace (Mind da Gap)

Fontes e Bibliografia
Créditos

NOTAS

Ataque Verbal (1996, Rádio Energia), autores: KJB (Black Company), Pacman (Da Weasel). O programa de rádio teve residência no Johnny Guitar onde havia sessões de microfone aberto. Passaram vários rappers e colectivos de RAP de uma geração sucedânea aos autores nesse palco, como Nigga Poison, TWA, Sam The Kid, entre outros.

cypher: designação atribuída a um grupo de b-boys e b-girls que actuam nessa “cultura de círculo”, especialmente na rua.

freestyle: improviso.

MC: Mestre de Cerimónias.

RAP: assumo ao longo dos trabalhos que tenho publicado acerca deste domínio a designação RAP em maiúsculas e não em minúsculas e itálico. Isto porque se pretende demonstrar o domínio num plano central das mudanças de comportamentos e linguagens verificadas num determinado contexto histórico, e não num plano secundário ou complementar. Ou seja, onde as medidas e mudanças que se verificaram socialmente não diminuam ou tornem secundária a dimensão social ou o papel ideológico, como habitualmente sucede, desta prática cultural e artística, a partir da qual esta investigação tem procurado demonstrar que elas acontecem durante este primeiro período em Portugal.

Vídeo referido durante a entrevista: 1998 - Pedreira dos Húngaros, Karlon&Barrozo

audiolivro, à venda nas livrarias habituais       

audiolivro, à venda nas livrarias habituais 

 

 

 

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O RAP é uma Arma?, 25 de Setembro, Tapada das Mercês, Sintra

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O RAP é uma Arma?, 25 de Setembro, Tapada das Mercês, Sintra

Dia 25 de Setembro (segunda-feira) Soraia Simões estará a convite do Bloco de Esquerda - Sintra na Tapada das Mercês a falar um pouco do seu trabalho de investigação e do audiolivro RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada 1986 - 1996 (Editora Caleidoscópio) procurando responder a esta questão  no âmbito desta oficina. A sessão contará ainda com o rapper, deste concelho, CADI.
Se andarem por Sintra, apareçam.

O audiolivro estará à venda no local.

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"História e Memória: cultura hip-hop na cidade de Maputo", 14 de Setembro, Fortaleza de Maputo

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"História e Memória: cultura hip-hop na cidade de Maputo", 14 de Setembro, Fortaleza de Maputo

A Associação Mural Sonoro associa-se ao seminário História e Memória: cultura hip-hop na cidade de Maputo, a realizar-se no dia 14 de Setembro (próxima quinta-feira), das 15h às 17h, na Fortaleza de Maputo.  

O  principal objectivo deste seminário consiste em reunir académicos, artistas e profissionais de meios de comunicação  a debater e reflectir sobre história e memória no universo do «hip hop» produzido nos últimos anos na cidade de Maputo, por via de uma abordagem  transdiciplinar sobre a temática nos diferentes campos do saber.

A Bloco 4 Foundation, conta com a parceria da Associação Mural Sonoro, na promoção deste seminário.

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Congresso Internacional de História Local: Conceito, práticas e desafios na contemporaneidade, Centro Cultural de Cascais, 28 e 29 de Setembro

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Congresso Internacional de História Local: Conceito, práticas e desafios na contemporaneidade, Centro Cultural de Cascais, 28 e 29 de Setembro

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Centro Cultural de Cascais, 

Avenida Rei Humberto II de Itália, S/N
2750-800

EN

International Congress | 28 and 29 September 2017 | Cascais Cultural Center

1st International Congress on Local History:

Concept, practices and challenges in contemporaneity

28 and 29 September 2017 – Cascais Cultural Center

 

Since mid-nineteenth century, local history has aroused the interest of historians and researchers who study the past of a particular region or community with the purpose of restoring their collective and individual memories. At the scientific level, this reality is manifested in the multiplication of master and doctoral thesis on themes related to local history, fostering innovative knowledge and giving birth to a new wave of historians interested in working on such topics.

The 1st International Congress on Local History proposes to create a space of interdisciplinary sharing and reflection, valuing the importance of local history in contemporary historiography, through a critical approach to the concept and opening a debate around research methodologies and practices. Contributing to problematize several issues inherent to a theoretical-methodological consideration, in the contemporary period, this initiative intends to promote an effort for the confluence of visions and solutions that hopefully will help to overcome everyone’s difficulties.

Proposals for communication on local history in the contemporaneity can be conceived around the following thematic axes, without excluding others correlated:

  • Theory and methodology of local history;
  • The role of local cultural associations;
  • The importance of local history in high school and University curricula;
  • What does this subject means and represents;
  • Themes and works involving the history of a region (18th-20th centuries);
  • Municipalities and Wars.

 

PT

I Congresso Internacional de História Local: Conceito, práticas e desafios na contemporaneidade

A história local, desde meados do século XIX, tem despertado o interesse de investigadores e curiosos que estudam o passado de uma determinada região ou comunidade com o propósito de lhes restituir a memória colectiva e individual. A nível científico, essa realidade verifica-se na multiplicação de dissertações de mestrado e teses de doutoramento sobre temáticas relacionadas com a história local, potenciando um manancial de conhecimento científico inovador e uma nova vaga de historiadores interessados em trabalhar temas de diversas zonas dos seus países.

O I Congresso Internacional de História Local propõe criar um espaço de partilha e reflexão interdisciplinar, valorizando a sua importância na historiografia contemporânea para um mais profundo entendimento da História, através de uma abordagem crítica do conceito e abrindo um debate em torno das metodologias e práticas de investigação. Contribuindo para a problematização de várias questões inerentes a uma ponderação teórico-metodológica, no período contemporâneo, pretende-se efectuar um esforço para a confluência de visões e de soluções que ajudem a superar as dificuldades de todos.

Programme

Day 1 – 28 de Setembro de 2017

Registration of participants – 8h30 às 9h00

Opening session – 9h00 às 9h15

Conference – 9h15 às 9h45

Chair: João Miguel Henriques (Câmara Municipal de Cascais e IHC)

“História Local. Percurso e desafios na contemporaneidade” (Margarida Sobral Neto – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)

Panel 1 – “Local History: Theory and Practice (s)” – 09h45 às 11h15

Chair: Alice Cunha (IHC-FCSH-UNL)

  • Sarottama Majumdar (University of Calcutta – Jadavpur University) – “The production of local history through comparing disparate texts”
  • Aaron McArthur (Arkansas Tech University) – “Civic Engagement and the Noble Pioneers”
  • Serkan Kelesoglu (University of Ankara) / Ismail Güven (University of Ankara) – “Contribution of local history in social studies teacher training programs”
  • Kanta Chatterjee (Basirhat College – Índia) – “In Lieu of “History” (‘Itihas’): Many Titles of Regional and Local Histories of Bengal 1860-1950”
  • Arjab Roy (The English and Foreign Languages University – Hyderabad, Índia) – “The Role of Local Histories in Bengal during 1970s: Countering New Histories and Moderating Kolkata”
  • Vikram Bhardwaj (Centre of Historical Studies – Jawaharlal Nehru University) – “Interface between Oral Narrative and local History: A Case Study of Shimla Hills”

Coffee-Break – 11h15 às 11h30

Panel 2 – “The I Republic in the local spaces” – 11h30 às 12h45

Chair: Diogo Ferreira (IHC-FCSH-UNL)

  • Jorge Ricardo Pinto (ISCET e UTAD) – “A memória de um lugar desaparecido do Porto republicano do princípio do século XX”
  • Soraia M. Marques Carvalho (FLUL) – “A República em Sacavém. O movimento político na vida da localidade nos primeiros anos”
  • João Lázaro (CIES-IUL) – “O Republicanismo na Póvoa de Santa Iria na Alvorada do 5 de Outubro de 1910. Uma história local”
  • Luís Carvalho (FCSH-UNL) – “Carlos Rates na história de Setúbal: sindicalismo e imprensa na Iª República”
  • Isabel Melo (Universidade Complutense de Madrid e LASA) – “Orfanato Municipal Presidente Sidónio Pais em Setúbal”

Lunch – 12h45 às 13h30

Panel 3 – “Methodological Challenges” – 13h30 às 15h00

Chair: Ivo Veiga (IHC-FCSH-UNL)

  • João Paulo Avelãs Nunes (DHEEAA/FLUC e CEIS20/UC) / Pedro Carvalho (DHEEAA/FLUC e CEIS20/UC) / Ana Isabel Ribeiro (DHEEAA/FLUC e CEIS20/UC) / António Rochette Cordeiro (DGT/FLUC e CEIS20/UC) / Luís Alcoforado (FPCEUC e CEIS20/UC) – “História local, interdisciplinaridade e rentabilização social do conhecimento”
  • Diogo Ferreira (IHC-FCSH-UNL) – “História Local: Reflexões em torno do seu percurso, importância e potencialidades”
  • Marco Oliveira Borges (Centro de História e Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa) – “Historiografia marítima de Cascais (1873-1974): metodologias, divulgação histórica e legado cultural”
  • Patrícia de Almeida (CEIS20-UC) – “Biblioteca Escolar e História Local: as relações (im)previstas”
  • Ana Mendes (FLUL) – “O Património dos Condes de Azevedo: usos e funcionalidades na contemporaneidade”
  • Inês Castaño (IHC-FCSH-UNL) / Maria Inês Queiroz (IHC-FCSH-UNL) – “L3-Lisboa Laboratório Comum de Aprendizagem: Uma experiência colaborativa de investigação/aprendizagem em História Local”

Coffee-Break – 15h00 às 15h15

Panel 4 – “The Wars and their regional impacts” – 15h15 às 16h30

Chair: Pedro Leal (FLUL)

  • Eunice Relvas (IHC-FCSH-UNL) – “Governação Municipal de Lisboa na Grande Guerra (1914-1918): Problemas e Soluções”
  • José Pedro Reis (FLUP) – “O impacto da Iª Guerra Mundial no futuro concelho da Trofa”
  • Fátima Afonso (C.M. do Seixal) – “O jornal A Voz d’Amora (1916-1919) e o concelho do Seixal durante a Grande Guerra”
  • Mariana Castro (IHC-FCSH-UNL) – “O Contrabando em Elvas no Pós I Guerra Mundial (1919-1922): nas malhas da ilegalidade”
  • Simeone Del Prete (University of Rome «Tor Vergata») – “The “triangle of death”: postwar violence in Emilia-Romagna (1945-1948)”

Conference – 16h30 às 17h00

Chair: Teresa Nunes (IHC e FLUL)

“História Local – um pretexto de para falar de História” (Professora Doutora Maria da Conceição Meireles Pereira – Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

 Day 2 – 29 de Setembro de 2017

Conference – 9h00 às 9h30

Chair: António Paulo Duarte (IHC e IDN)

“História da Maçonaria numa perpectiva local: fontes e métodos” (António Ventura – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

Panel 4 – “Spaces, Memory and Patrimony” – 9h30 às 11h00

Chair: Inês José (IHC-FCSH-UNL)

  • Maria João Pereira Coutinho (IHA-FCSH-UNL) / Inês Gato de Pinho (Civil Engineering Research and Innovation for Sustainability – IST-UL) – “Planta da vila de Setúbal em 1793: Das portas e postigos do edificado religioso e civil”
  • Souradip Bhattacharyya (National University of Singapore) – “«We want equal rights to public space!»: The role of local cultural associations of the migrant communities in asserting their belonging to Serampore”
  • Alexia Shellard (Universidade Federal do Rio de Janeiro) – “Bororos e a história do Mato Grosso”
  • Timóteo Cavaco (IHC-FCSH-UNL) – “A Análise de redes aplicada às famílias nas Igrejas Batistas de Viseu e de Tondela (1930-1945)”
  • João Santos (IHC-FCSH-UNL) – “Memória Operária e História Local – O caso da região (pós) industrial de Setúbal”
  • Luísa Seixas (IHC-FCSH-UNL) / Filipe Silva (IHC-FCSH-UNL) – “Memória das Avenidas. História em comunidade – enquadramento e desafios”

Coffee-Break – 11h00 às 11h15

Panel 6 – “Identities in Local History” – 11h15 às 12h30

Chair: João Pedro Santos (IHC-FCSH-UNL)

  • Nulita Andrade (IHC-FCSH-UNL) – “Visconde da Ribeira Brava na Assembleia Nacional Constituinte: o político nas redes que teceu com seus pares (1882-1884)”
  • Frederico De Sousa Ribeiro Benvinda (FLUL) – “A vereação de Zófimo Consiglieri Pedroso na Câmara Municipal de Lisboa (1886-1889): Propostas e modificações locais”
  • Cristóvão Mata (FLUC) – “A Casa de Aveiro: entre o estudo do regime senhorial e a história local”
  • Pedro Pires (FLUL e IDN) – “General Alberto Ilharco e a sua visão da cidade do Porto no ataque à Monarquia do Norte em 1919”
  • Maria Mota Almeida (IHC-FCSH-UNL e ESHTE) – “Diz-me como ages, dir-te-ei quem és’: João Couto e a génese do Museu-Biblioteca Condes de Castro de Guimarães-Cascais.”

Lunch – 12h30 às 13h15

Panel 7 – “Musical practices in local contexts” – 13h15 às 14h45

Chair: Soraia Simões (IHC-FCSH-UNL)

  • João Pedro Costa (Universidade de Évora) – “Os espaços públicos de sociabilidade musical na Évora Oitocentista: Passeio Público, Rossio de São Braz e Praça do Geraldo”
  • Rita Faleiro (CESEM-FCSH-UNL) – “A presença musical no Algarve oitocentista: o tavirense Tomás de Aquino Abreu e a sua actividade musical sacra da segunda metade do século XVIII.”
  • Bruno Madureira (IHC-FCSH-UNL e Conservatório d’Artes de Loures) – “O movimento filarmónico no concelho de Oeiras – tradição, declínio e revitalização”
  • Luís Henriques (CESEM-Universidade de Évora) – “A ideia de local e global na história musical açoriana: O caso da cidade da Horta na segunda metade do século XIX”
  • Daniela Alves (CIIIC-ISCET) / Hélder Barbosa (CIIIC-ISCET) / Jorge Ricardo Pinto (ISCET e UTAD) – “Percursos e Lugares da violoncelista Guilhermina Suggia, entre o Porto e a Maia, na primeira metade do século XX”
  • Luís M. Santos (CESEM-FCSH-UNL) – “O movimento orquestral na província durante a I República”

Coffee-Break – 14h45 às 15h00

Panel 8 – “Local economic and social challenges in national panoramas”– 15h00 às 16h30

Chair: Ana Paula Pires (IHC-FCSH-UNL)

  • Mariana Silva (ISCTE-IUL, FCSH-NOVA e CRIA) – “A Cidade do Trabalho: Contributo para uma genealogia dos contextos discursivos da identidade local em S. João da Madeira”
  • Vanessa Pereira (IHC-FCSH-UNL) – “Elementos para a história local de sítios mineiros: a penetração do capital estrangeiro e a construção da Mina de São Domingos”
  • Rúben Lopes (FCSH-UNL) – “Um «concelho de feição corporativa»: a implementação e o funcionamento dos organismos corporativos no concelho do Seixal (1933-1974)”
  • Leonardo Aboim Pires (IHC-FCSH-UNL) – “Dimensões da mudança socioeconómica no mundo rural português: Vinhais, 1950-1974”
  • Pedro Leal (FLUL) – “«Nem tudo é burguesia, nem tudo é riqueza e luz nesta terra»: a mobilização popular e o conflito social no concelho de Cascais após o 25 de Abril de 1974.”
  • Júlio Ernesto Souza de Oliveira (UFBA e Institut d’Études Politiques de Rennes) – “«Fogo e bala contra os posseiros»: Grilagem e luta pela terra no médio São Francisco (1971-1984)”

Closing Session – 16h30 às 17h00

Chair: Teresa Nunes (IHC_e FLUL)

“Histoire, histoire locale, histoire économique: de la monographie territoriale à la considération des jeux d’échelle. De quoi «l’histoire locale» peut-elle être le nom aujourd’hui?” (Alexandre Fernandez – Université Bordeaux Montaigne)

Organizing Committee

Ana Paula Pires (IHC-FCSH/UNL e Universidade de Stanford)

Diogo Ferreira (IHC-FCSH/UNL)

Inês José (IHC-FCSH/UNL)

João Pedro Santos (FCSH/UNL)

Mariana Castro (IHC – FCSH/UNL)

Pedro Leal (FLUL)

Teresa Nunes (FLUL e IHC – FCSH/UNL)

Scientific Committee

Albérico Afonso da Costa Alho (ESE/IPS e IHC – FCSH/NOVA)

Ana Paula Pires (IHC – FCSH/NOVA e Universidade de Stanford)

António José Queiroz (CEFi-UCP e CEPESE)

António Ventura (FLUL)

Fernando Rosas (IHC-FCSH/NOVA)

João Miguel Henriques (CMC e IHC-FCSH/NOVA)

Jorge Fernandes Alves (FLUP)

Luís Espinha da Silveira (IHC-FCSH/NOVA)

Maria Conceição Meireles (FLUP)

Maria João Raminhos Duarte (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes e IHC – FCSH/NOVA)

Margarida Sobral Neto (FLUC)

Norberto Ferreira da Cunha (Museu Bernardino Machado e Universidade do Minho)

Paula Godinho (IHC-FCSH/NOVA)

Paulo Miguel Rodrigues (Universidade da Madeira)

Sérgio Rezendes (Universidade dos Açores e IHC – FCSH/NOVA)

Teresa Nunes (FLUL e IHC – FCSH/NOVA)

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Mais informação em: https://congresslocalhistory2017.wordpress.com/about/

 

 

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Entrevistas cedidas por Soraia Simões acerca de RAPublicar (1986-1996), notas e recensões ao audiolivro

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Entrevistas cedidas por Soraia Simões acerca de RAPublicar (1986-1996), notas e recensões ao audiolivro

 

FONTES
ENTREVISTAS CEDIDAS PELA AUTORA ACERCA DA OBRA, NOTAS E RECENSÕES AO AUDIOLIVRO:

(no prelo) Recensão audiolivro RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada: 1986 - 1996, por Ana Estevens, investigadora IGOT, Le Monde Diplomatique, Outubro, 2017.

(no prelo) Recensão audiolivro RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada: 1986 - 1996, por Joana Bárbara, Doutoranda Materialidades da Literatura, Universidade de Coimbra, Setembro de 2017.

 

Página2, RTP2, 9 de Setembro, 2017.
Germano Campos Entrevista, RDP Internacional 24 de Julho, 2017.
Brandos Costumes, 12 de Julho, 2017.
Oub'lá, Antena 3, 11 de Julho, 2017.
É a Vida Alvim - Canal Q, 30 de Junho de 2017.
Escritores Online, 30 de Junho de 2017.
Um audiolivro da História do RAP português, Schifter.pt, 30 de Junho de 2017.
RAPublicar, FCSH NOVA, 27 de Junho de 2016.
A dor do silêncio e a força das vozes, Nuno Pacheco, Público edição impressa e digital, 22 de Junho de 2017.
Manhãs da 3 - Antena 3 da RTP, 6 de Junho de 2017.
Prova Oral - Antena 3 da RTP, 13 de Junho de 2017.
O início do rap português num livro apresentado em Lisboa que é também para ouvir, Lusa, DN, Observador, P3 Público, 6/06/2017.
Caravelas - Núcleo de Estudos de História da Música Luso-Brasileira (CESEM), Edição Março-Abril de 2017.
Entrevista objectivos e resultados alcançados com projecto RAPortugal 1986-1999, 01/04/2017.
VOX Media da Universidade de Coimbra - Centro de Literatura Portuguesa - CPLP, acerca de RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada: 1986 - 1996, 28/03/2017.
Os primeiros passos do rap em Portugal, in Revista Fórum Estudante, edição de Dezembro de 2016.

Links úteis: 

https://www.rtp.pt/play/p3037/pagina-2

http://media.rtp.pt/antena3/ler/soraia-simoes/

https://www.rtp.pt/play/p260/e293418/prova-oral

https://www.youtube.com/watch?v=hsSWnRLXcAE

http://www.brandoscostumes.pt/

http://observador.pt/2017/06/06/o-inicio-do-rap-portugues-num-livro-apresentado-em-lisboa-que-e-tambem-para-ouvir/

https://www.publico.pt/2017/06/22/sociedade/noticia/a-dor-do-silencio-e-a-forca-das-vozes-1776344

https://www.rtp.pt/play/p1240/e299849/germano-campos-entrevista

http://infocul.pt/cultura/soraia-simoes-lanca-rapublicar/

 

 

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A subalternização existente em grupos historicamente subalternizados, bloco de notas, breve consideração, Soraia Simões

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A subalternização existente em grupos historicamente subalternizados, bloco de notas, breve consideração, Soraia Simões

Bloco de Notas

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Da subalternização existente em grupos historicamente subalternizados contam-se (também)

  • 1) as primeiras vozes femininas no RAP feito em Portugal que em cerca de 20 das 35 entrevistas realizadas não são referidas pela comunidade onde emergiram, deduzindo-se que aparentemente não são escutadas e/ou referenciais, i.e, são-no mas não é assumido publicamente.

 

  • 2) de que forma a produção de conhecimentos no campo da música popular, em domínios musicais e culturais diversos, é produzida em massa dentro de dinâmicas internas de auto-promoção, a maioria balizada por «fãs» e «melómanos» em sites e revistas sem massa crítica efectiva (musicológica, historiográfica, sociológica não tendenciosa e não biográfica) que crescem em consonância com a proporção gigante da sua virilidade (não sendo ela um exclusivo do ser masculino neste campo, mas antes de um pensar e comportar masculinizado, gancho de aceitação).

 

  • 3) de que modo ler, pensar e expor diferente um período pode desembocar num estado de subalternização dentro de um discurso hegemónico masculino? Perguntando de que modo os/as jovens da minha geração negociaram determinados comportamentos e criaram estratégias para burlar modos de pensar, e de se comportar, que não fossem ao encontro do que propõe a hierarquia (cultural, social) com os seus discursos hegemónicos.

 

  • 4) Hoje uma amiga que está a fazer o seu Doutoramento na Suíça, negra, afecta ao estudo das identidades, desigualdades, homofobia(s) dentro de grupos racializados contava-me que foi convidada ontem para falar no lançamento de um novo livro sobre os Black Panthers. Trabalho e sessão em momento algum conseguiram evocar o nome de uma mulher que fez parte do movimento. E foram várias. Isto foi ontem, 5 de Setembro de 2017.

 

  • 5) Como criar afinal espaços através dos quais sujeitos subalternizados/as podem falar por si mesmos/as mas de forma horizontal contribuindo para a intersecção de estratégias de combate e enriquecimento estável das sociedades contemporâneas?
Nota extra: É já esta sexta-feira (8 de Setembro), nas bancas com a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique*, que pode ser lido o meu artigo «1990-1997, percursos da invisibilidade. As mulheres no RAP: afirmação e resistência», área Cultura desta publicação*.

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Universo de lantejoulas. Transformismo como resposta: afirmação e resistência, breve nota por Soraia Simões

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Universo de lantejoulas. Transformismo como resposta: afirmação e resistência, breve nota por Soraia Simões

 Thomas Polly actua há 2 anos, 6 dias por semana, como transformista no Cabaret Michou (Montmartre, em Paris). 
O transformismo é hoje uma prática artística em decadência que, segundo ele, mesmo entre o seu «público mais entusiasta» (a comunidade gay) perdeu interesse. Actividade que foi de militância, afirmação e resistência da comunidade gay e transexual desde os anos 60 (procurar Coccinelle, primeira travesti e transexual em Paris que actuava no Madame Arthur, em frente ao Cabaret Michou).

Nos últimos meses fomos falando da sua música e do que se estava a passar em Paris, de como determinados comportamentos e acções se repetem ao longo da história recente.

 O desenvolvimento acelerado do transformismo em Lisboa, tal como em Paris, deu-se no início da década de 80 tendo coincidido com o crescimento de políticas neoliberais e das extremas-direitas na Europa.

 Thomas estudou teoria musical e canto, compõe, mas como manda a tradição deste antigo cabaret parisiense recria outras intérpretes. No seu caso especialmente a actriz e intérprete americana Liza Minelli de quem é fã. Transforma-se e canta com a sua voz, não em playback como grande parte dos transformistas. Já editou um CD em nome próprio (A Contre Coeur), mas apercebeu-se desde que assumiu a sua homossexualidade, aos 13 anos, no decorrer de uma aula numa escola secundária em Amiens (a uma hora de Paris) da dificuldade que essa pública revelação lhe foi trazendo no mundo do espectáculo.

 Com 20 anos criou uma personagem: «Eva», antes disso tinha trabalhado «como mulher» numa pré-primária nesta pequena localidade. Conta-me várias vezes que é difícil, muito difícil, socialmente. É difícil ser-se muitas coisas à procura de si, do melhor lugar para se ser mais próximo de si: transformista, actor, homem, mulher. Os meios ditos socializados e socializadores não se dão com ausências de definições ou de identificações exactas. Por outro lado, é um problema saber que o meio do qual se consegue sustentar, o do transformismo, está em franco declínio.

 Na década de 60, ao contrário do espaço Madame Arthur, Michou, proprietário do Cabaret com o seu nome, nunca ergueu a «transexualidade como uma bandeira». O interesse estaria na «transformação artística plena do homem em mulher». Quando se sai do Cabaret sai-se homem. Encarna-se a personagem durante o espectáculo, despe-se a personagem e sai-se homem. Ora, isto tornou-se para muitos um «jogo traiçoeiro», perverso, o Thomas sai umas vezes mulher, «Eva».

 Há dias no âmbito do Socialismo 2017, quando falava de uma série de organizações não governamentais que se oficializaram durante a primeira metade da década de 90 em Lisboa (Abraço, SOS Racismo) tendo como missões: a prevenção para a redução do vírus da SIDA, dirigida a todos/as que se encontravam em risco de novas infecções ou a promoção de reflexões que denunciassem e intervissem no terreno tendo em vista sociedades que respeitassem direitos sem discriminações, respectivamente, lembrei-me (e aos presentes) em diversos momentos da relevância de leituras e de questionamentos novos na Lisboa dos anos 80 e 90 que hoje continuam à procura de respostas. Muito por obra de uma contínua desresponsabilização de alguns meios sociais e políticos que conseguiram a sua legitimação junto das comunidades (dos seus discursos, das suas agendas) com o corpo e modus vivendi dessas comunidades.

 Há menos de um ano Thomas Polly soube que estava infectado com o vírus da SIDA. É seropositivo, portanto. Com a medicação actual logicamente houve uma considerável redução («indetectável» em 3 meses). Ele assume-o, como as restantes facetas deste seu percurso, várias vezes como uma truta que rema contra-corrente, reduto de resistência. Existirá algo mais enfermo em 2017 que sentir que ficaram tantas coisas pelas quais andámos a lutar ainda por cumprir? Isso é com certeza mais dramático que quaisquer Síndromes das imunodeficiências adquiridas, que afinal todos/as cremos despistar.

 Estas linhas pessoais precedem um artigo que sairá no fim do ano numa publicação em França onde desenvolvo o tema que dá título a esta partilha.

1) Thomas Polly

2) Eva: jantámos há uma semana em minha casa, foi opção do Thomas fotografar-se ao pé da tela grafitada do Mural Sonoro.

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Thomas Polly

Eva       Vídeo de Christine Rougemont, Inauguração de Promenade Coccinelle, em Maio deste ano  

Eva

 

 

 

Vídeo de Christine Rougemont, Inauguração de Promenade Coccinelle, em Maio deste ano

 

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Fórum Socialismo 2017, 26 de Agosto, Escola Secundária Camões, Lisboa, 14.30, Soraia Simões

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Fórum Socialismo 2017, 26 de Agosto, Escola Secundária Camões, Lisboa, 14.30, Soraia Simões

O Bloco de Esquerda realizou nos  dias 25, 26 e 27 de Agosto, em Lisboa, na Escola Secundária de Camões, localizada na Praça José Fontana, a 11ª edição do Fórum Socialismo 2017 – Debates para a Alternativa, Soraia Simões foi uma das oradoras convidadas, dia 26, fazendo uma comunicação com o título: «Abram Espaço que elas estão a chegar, as mulheres no RAP: afirmação e resistência (1990 -1997)».

Programa Fórum Socialismo 2017, aqui

Folha acerca da comunicação:

Diz-se frequentemente que está na natureza das camadas juvenis ser-se revolucionário.
Considero que não existe uma natureza na comunidade jovem, nem em qualquer outra comunidade ou grupo etário. Existe um contexto cultural, social e familiar.
Existe uma história e um contexto histórico, marcados por variáveis económicas, políticas, ideológicas que em determinados momentos colocam as pessoas no limite da sua existência Individual e da sua experiência colectiva. É aí, por norma, que as mudanças surgem ou as transformações sociais, mesmo que sejam pequenas, acontecem. Quando confrontadas com essas limitações ou com algumas contingências.
Um dos aspectos mais notados do mundo pós-moderno é a ausência da memória, ou melhor, de uma memória representada ou que se represente per si como modo de fazer história, individual ou colectiva. A secundarização da memória (pre) dispõe, em determinados campos, uma vontade ou uma imposição frequentes ao longo do tempo de um conjunto de memórias
construídas ou imaginadas que não se questionam no mundo contemporâneo. Sem contemplar outros detentores dessas vivências ou, simplesmente, sem procurar entender o porquê do seu esvaecimento ou da selecção que dela é feita neste tempo.

As cerca de 18 horas de entrevistas semi-dirigidas que hoje servem a minha investigação académica, recentemente publicadas num audiolivro, com a chancela da Editora Caleidoscópio - RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada (1986 - 1996) -, tiveram como principal missão devolver essa memória pouco interpretada, demasiadas vezes sistematizada, e as questões que ela levantou, primeiro na cidade de Lisboa e depois um pouco por todo o país, de um modo claro ao panorama da sociedade e da cultura populares da segunda metade do século XX, numa linguagem apreensível para todos (as).

Este trabalho deu mote à comunicação feita no âmbito do Fórum Socialismo 2017, com o título «Abram Espaço que elas estão a chegar, as mulheres no RAP: afirmação e resistência (1990 -1997)».

Nesta fala procurei demostrar como a temática do RAP apresentou  pouco depois das suas primeiras aparições, uma grande heterogeneidade de tipologias musicais e de recursos musicais que se afirmou com a criação dos seus próprios estilos diferenciados neste domínio, ao mesmo tempo que prevaleceu, nestes anos e acerca destes primeiros anos, a narrativa, em torno do RAP, como um campo de produção cultural marcado especialmente por populações jovens e de género maioritariamente masculino. Mesmo existindo mulheres que participaram desde o seu começo como MCs ou flygirls - nos concertos ou outro tipo de eventos locais realizados durante esta fase -, e sendo o período em que pela primeira vez, de um modo explícito, temas como a igualdade de género e o sexismo ganhavam aqui território: primeiro a partir da presença do grupo Djamal no panorama discográfico nacional e depois pela actuação do grupo Divine que voltaria a dar destaque a este assunto.

Soraia Simões
Investigadora Instituto de História Contemporânea da FCSH NOVA, Autora Mural Sonoro e RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada: 1986 - 1996 (2017, Editora Caleidoscópio), Prémio Megafone Sociedade Portuguesa de Autores'14.

fotografia de Paulete Matos (esquerda.net) Esquerda para a direita: Paulo Sousa, Ana Sofia Fernandes, Soraia Simões

fotografia de Paulete Matos (esquerda.net)

Esquerda para a direita: Paulo Sousa, Ana Sofia Fernandes, Soraia Simões

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 Seminário público da BLOCO 4 FOUDANTION,  intitulado “OS MUROS ESTÃO MUDOS? (RE) PENSANDO O DIREITO À CIDADE NA LENTE DO ARTIVISMO”, com parceria do MURAL SONORO

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Seminário público da BLOCO 4 FOUDANTION,  intitulado “OS MUROS ESTÃO MUDOS? (RE) PENSANDO O DIREITO À CIDADE NA LENTE DO ARTIVISMO”, com parceria do MURAL SONORO

 

Acontecerá na cidade de Maputo, Moçambique, na U.E.M (Campus Universitário Principal Av. Julius Nyerere, nr. 3453 Maputo, Moçambique) no próximo dia 30 de Agosto, pelas 14.30, o Seminário público da Bloco 4 Foundation, intitulado “OS MUROS ESTÃO MUDOS? (RE) PENSANDO O DIREITO À CIDADE NA LENTE DO ARTIVISMO”. O Seminário conta com parceria do Mural Sonoro e da Rádio AfroLis e terá como oradores Shot B ( Rapper e Grafiteiro) e Tirso Sitoe (Director executivo da BLOCO 4 FOUNDATION e investigador).
A moderação será feita por Baltazar Muianga ( Departamento de Sociologia da UEM).

Resumo
Nos últimos anos, na cidade de Maputo, encontramos grupos que atuam em diferentes frentes ou formas de artivismo que se pautam pela ideia de ocupação temporária dos muros ou paredes no espaço público urbano. Suas atividades, algumas vezes, centram-se na necessidade de dar valor de uso a estes espaços, mesmo quando deparados com fricções institucionais ou de indivíduos que operam na centralidade do poder político e concebem o “grafitte” como sendo cultura “marginal”, pelo facto de estar voltada à denúncia de vulnerabilidade social e que atenta contra a ordem ideológico-político instituída. Dentro deste contexto, pretende-se, com o presente seminário, tomar um ponto de partida para (re) pensarmos o direito à cidade através do grafitte. Este exercício implica na verdade, compreender o modo como a trajetória artística, a temática dos murais, os lugares onde são projetados, e o tipo de técnica usada, constroem no imaginário urbano e social dos indivíduos, formas de existenciais da própria cidade.
Tirso Sitoe

 

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RAPoder em supremacia é inviável, breve nota, por Soraia Simões

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RAPoder em supremacia é inviável, breve nota, por Soraia Simões

RAPoder em supremacia é inviável, por Soraia Simões

Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a reflectir | Michel Foucault (História da Sexualidade II. O uso dos Prazeres, 1994)

 Se qualquer um (a) fizer uma pesquisa num motor de busca on-line (a principal ferramenta das comunidades jovens), numa enciclopédia (reduto de curiosos, coleccionadores, biógrafos ou amantes do género) ou em repositórios científicos que demonstram a profusão ensaística e de publicações académicas neste âmbito, utilizando as seguintes palavras-chave: «rap», «cultura hip-hop», «hip hop celebridades», «protagonistas hip-hop», «protagonistas rap», «rappers emergentes», «êxitos RAP e Hip-Hop», «RAP nos EUA», «RAP no UK», terá uma dificuldade enorme em encontrar nomes no feminino. Eles são quase inexistentes, não aparecem sequer nas primeiras listagens. Se a mesma pesquisa for realizada acrescentando à busca «Brasil» ou «Portugal» o mesmo sucede.

 Quando realizava o meu trabalho de campo, recentemente publicado em áudio (no audiolivro) com o título RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada (1986 -1996)* - nas entrevistas que dirigi e fazem parte do mesmo -, procurei no (s) omisso (s) indagar porquês, na secundarização que fui sentindo acerca da dimensão e papel das mulheres neste quadro histórico perceber, igualmente, a razão desta descontinuidade histórica, que faz com que para muitos (as) a experiência de fazer RAP ou ser parte integrante de uma «cultura» (o 'hip-hop'), assim entendida pelos seus sujeitos, no feminino inicie na Capicua. No século XXI. Quando, afinal, já reunira registos vários de mulheres como 'MC', rappers, flygirls em escolas secundárias com eles, no Cais do Sodré com eles, em viagens de comboio com eles, em encontros no Trópico Disco (espaço de sociabilização, festas, concertos durante a década de 90) com eles, no Bairro Alto com eles. Registos que se acumulam (fotográficos e em vídeo) durante o início da década de 90. Tendo dois dos grupos, inteiramente femininos, gravado em estúdio (Divine em discos de Black Company, Djamal, em registo próprio, «Abram Espaço» de 1997).

 Feita há sete anos uma pesquisa anterior, ouvido e reouvido, em variadíssimos casos, todos os repertórios que enformaram este período em Portugal percebi claramente que o darwinismo social, o racismo, a dominação, a exclusão social foram temáticas que mereceram a atenção (não de toda mas) de grante parte da minha geração e elas foram (re) tratadas por sujeitos de ambos os sexos nesta prática.

 Porque é que às primeiras mulheres a fazer RAP [1] em Portugal, na sua maioria descendentes de imigrantes africanos, cujos repertórios versavam sobre tópicos semelhantes, mas também sobre sexismo, violência doméstica, diminuição da sua presença num território marcado pela masculinidade e objectificação da mulher foi-lhes vedado reconhecimento público de importância semelhante nesse pioneirismo? O que não se responde tem, em casos particulares como este, mais força que aquilo que se diz. Ouvindo a história oral desta obra, através da transmissão das memórias de X-Sista, Jumping e Sweetalk (Djamal) e lendo as de ZJ-Zuka (Divine) esse desconforto é tão presente quanto a vontade de falar, fruto de um sentir de reconhecimento por alguém (eu) da sua geração, mulher, com vontade de dialogar, perceber, registar e enquadrar essas memórias num campo de percepção (e acção/intervenção) maior.

 Quando há meia dúzia de anos comecei a gravar/entrevistar rappers, junto a outros protagonistas da Música Popular do século XX, focando assuntos transversais a toda a música que foi produzida em Portugal em determinado tempo no Mural Sonoro, recuperei a observação do sociólogo Pierre Bourdieu, a sua enfatização a respeito das concepções “invisíveis” que chegam a nós, seres sociais. Que nos levam à formação de «esquemas de pensamentos impensados», i.e. quando acreditamos ter a liberdade de pensar alguma coisa, sem levar em conta que esse «pensamento livre» está marcado por preconceitos, interesses e opiniões de alheios. Ora uma relação desigual de poder suporta uma aceitação dos grupos dominados, não sendo necessariamente uma aceitação consciente e ponderada, mas especialmente de submissão pré-reflexiva.
Afinal, foi assim para muitas mulheres da minha geração (40/41 anos): quando Lauryn Hill aflorava em «Doop Wop» a coisificação de que se é alvo sendo-se mulher num meio cultural de homens, de violência doméstica, de relacionamentos abusivos (1998) grande parte da minha geração de mulheres enaltecia a presença de Kanye West em "What You Do to Me" de Infamous Syndicate um ano depois (1999), foi assim quando Dina Di (a primeira brasileira, oriunda de Campinas, a ter sucesso no RAP) cujo percurso começara em 1989 (tendo só em 2003 atingido um reconhecimento maior com o CD A Noiva de Chuck) ou quando Karol Conka (que com 16 anos ganhara um 'concurso de RAP' na sua escola) incidia sobre a sociedade tradicional brasileira grande parte da minha geração de mulheres enaltecia a presença de Gabriel O Pensador e a sua forte influência neste panorama cultural em Portugal, foi assim quando M.I.A, inglesa, filha de um activista político, que viveu no Sri Lanka e depois da guerra civil volta para a cidade onde nasceu, Londres, com a familia sendo recebida aí como refugiada fez «Born free» ou «Borders» - onde falou sobre refugiados e empoderamento feminino -, e grande parte da minha geração de mulheres vaticinava o tão aguardado regresso de Public Enemy. Há que, tratando de feridas sociais, trata-las todas em igual medida. É uma questão de proporção, de tempo de actividade? Não é. De insipiência sonora e musical, no caso português, porque estavam a começar? Tinham-na todos (as). O espaço que Djamal, o grupo inteiramente feminino, reivindicou não foi aberto: foi descoberto. É tempo de falarmos sobre isso.

 Desenvolverei este tema no dia 26 de Agosto no âmbito do Forum Socialismo 2017 (comunicação com o título «Abram Espaço que elas estão a chegar, as mulheres no RAP: afirmação e resistência (1990 -1997») e num artigo que sai na edição de Setembro do Le Monde Diplomatique[2] 

Conto com presenças e leituras. Até breve.

[1] RAP; assumo ao longo dos trabalhos que tenho publicado acerca deste domínio a designação RAP em maiúsculas e não em minúsculas e itálico. Isto porque se pretende demonstrar o domínio num plano central das mudanças de comportamentos e linguagens verificadas num determinado contexto histórico, e não num plano secundário ou complementar. Ou seja, onde as medidas e mudanças que se verificaram socialmente não diminuam ou tornem secundária a dimensão social ou o papel ideológico, como habitualmente sucede, desta prática cultural e artística, a partir da qual esta investigação tem procurado demonstrar que elas acontecem durante este primeiro período em Portugal.

[2]  1990 - 1997: Percursos da invisibilidade. As mulheres no RAP: afirmação e resistência, Le Monde Diplomatique, publicação a 8 de Setembro, 2017.

Editora Caleidoscópio, 2017.

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«Como se Fora Seu Filho»,  organização: Associação José Afonso, em Grândola, 29 de Julho de 2017

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«Como se Fora Seu Filho», organização: Associação José Afonso, em Grândola, 29 de Julho de 2017

A convite da Associação José Afonso, Soraia Simões estará em Grândola no colóquio - concerto denominado «Como se Fora seu Filho», fará uma comunicação de cerca de 20 minutos à qual deu o seguinte título: «MusicAtenta e RAP - ´Tudo depende da bala e da pontaria´: do exílio às ruas (1961 - 1994)».

O debate decorrerá Pelas 17.30 na Biblioteca Municipal subordinado ao tema «Como é que da Política se chega à Música e da Música à Consciência?». Além de Soraia Simões, da  mesa de debate farão ainda parte os investigadores João Madeira e João Vasconcelos e Sousa.

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